Estudos norte-americanos mostram evidências que ligam o autismo a infecções

As descobertas devem ajudar no desenvolvimento de novas estratégias de prevenção

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postado em 14/09/2017 06:00

Com o aumento, desde a década de 1980, no número de casos diagnosticados de autismo — uma em cada 68 crianças nascerá com o distúrbio —, cientistas estão atrás de causas ambientais que ajudem a explicá-lo. Por observação, sabe-se que mulheres severamente infectadas por vírus durante a gestação correm mais riscos de dar à luz um bebê com o transtorno de espectro autista (TEA). Da mesma forma, estudos com animais demonstram que a resposta imunológica à presença de um micro-organismo externo causa, na cria, comportamentos sociais atípicos. Agora, dois artigos publicados na revista Nature ajudam a lançar luz sobre o fenômeno, mostrando que há mais ligação entre infecções e risco de TEA do que o imaginado.
 

Os trabalhos, realizados na Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard e no Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), ambos nos Estados Unidos, devem, segundo os autores, ajudar a buscar futuras estratégias de prevenção. Por ora, os resultados se aplicam ao modelo estudado: ratos cujas mães foram infectadas, na gestação, com uma bactéria prejudicial à flora intestinal. “Se conseguirmos replicar nossos achados em estudos com humanos, poderemos oferecer uma forma de reduzir o risco de autismo, bloqueando a função de algumas cepas de bactérias encontradas no intestino das mães”, diz Gloria Choi, professora de ciências do cérebro e da cognição do MIT e líder de uma das pesquisas.

Os autores dos artigos explicam que a associação entre infecção materna e autismo ganhou força em 2010. Foi quando um estudo epidemiológico dinamarquês com dados de todas as crianças nascidas no país nórdico entre 1980 e 2010 constatou que o contágio viral severo no primeiro trimestre de gestação aumentava três vezes o risco do transtorno. Já as infecções bacterinas no segundo trimestre estavam associadas a uma chance 1,42 maior. Entre as doenças estudadas estavam influenza, gastroenterite e infeção do trato urinário.

No ano passado, Gloria Choi e Jun Huh, da Faculdade de Medicina de Harvard, fizeram uma importante descoberta nesse campo. Em um trabalho publicado na revista Science, eles revelaram que células do sistema imunológico chamadas Th17 produzem uma molécula, a IL-17, que, em ratos, é responsável por transtornos comportamentais semelhantes aos verificados em humanos com autismo. Quando as gestantes eram infectadas com vírus e produziam a resposta de defesa, o IL-17 interagia com receptores do cérebro em desenvolvimento dos fetos, produzindo anomalias em algumas regiões do córtex. Agora, porém, as pesquisadoras se aprofundaram no mecanismo e o associaram, também, à flora intestinal da mãe.

Comportamento alterado


Em um dos artigos publicados na Nature, a equipe de cientistas descobriu que as alterações cerebrais são mais comuns em uma área chamada S1DZ, que faz parte do córtex somatossensorial. Acredita-se que essa região seja responsável pela propriocepção ou cinestesia — percepção que o indivíduo tem de onde o corpo se encontra no espaço, também chamada de consciência corporal.

Nesse local, a população de células chamadas interneurônios estava reduzida. Essas estruturas são responsáveis pelo controle do balanço entre excitação e inibição no cérebro, e os pesquisadores descobriram que, no caso dos ratos cujas mães tiveram infecção pela bactéria, os interneurônios na S1DZ apresentavam atividade exagerada. Ao restaurar os níveis normais de atividade cerebral na região, foi possível reverter as alterações comportamentais que os animais apresentavam.

Além disso, os pesquisadores descobriram que a S1DZ envia mensagens para outras duas regiões cerebrais: o córtex temporal e o striatum. Ao inibir os neurônios conectados a essa primeira área, foi possível reverter os deficits sociais. Já com a inibição das células ligadas ao striatum, a equipe conseguiu anular os comportamentos repetitivos. Todas essas são, em humanos, características do autismo.

Antibiótico

No segundo artigo, os pesquisadores investigaram os fatores que influenciam o desenvolvimento de autismo em fetos de gestantes com infecções. “Nem todas as mães com infecção severa têm filhos com autismo e, da mesma forma, nem toda resposta inflamatória materna vai fazer com que os ratos nasçam com anomalias comportamentais”, observa Choi. “Isso sugere que a inflamação na gravidez é apenas um dos fatores. É preciso uma soma deles”, afirma.

O pesquisador da Universidade de Harvard Jun Huh explica que uma das questões-chave descobertas no estudo foi que, quando se estimulava o sistema imunológico de algumas fêmeas gestantes, elas começavam a produzir IL-17 em um dia. “Normalmente, levam-se três a cinco dias para isso acontecer, porque essa molécula é produzida por células especializadas do sistema imunológico e elas precisam de tempo para se diferenciar”, afirma. “Pensamos que, talvez, essa proteína esteja sendo produzida não de células imunes diferenciadas, mas de um grupo celular preexistente”, diz.

Pesquisas anteriores em ratos e humanos detectaram populações de Th17 no intestino de indivíduos saudáveis. Acredita-se que essas células, que ajudam a proteger o hospedeiro de micróbios perigosos, sejam produzidas depois da exposição a alguns tipos de bactérias inofensivas. Agora, descobriu-se que apenas as crias dos ratos com um tipo específico de bactéria, as segmentadas filamentosas, têm anomalias comportamentais e estruturais no cérebro. O uso de antibiótico nos animais gestantes impediu que os ratos nascessem com esses problemas.

“Até termos um estudo com humanos em larga escala, é difícil dizer se nossos resultados terão aplicação clínica”, diz Huh, embora não descarte que, confirmado o achado, o uso de antibióticos possa ser uma das estratégias para prevenir o autismo. “Por ora, o que podemos dizer é que fatores ambientais, incluindo inflamações, durante a gravidez provavelmente têm efeitos significativos no desenvolvimento de distúrbios neurológicos em crianças.”

Em um editorial, Craig M. Powell, neurocientista da Universidade do Texas em Dallas, que não participou dos estudos, avaliou que os artigos demostram uma “conexão clara entre bactéria intestinal, sistema imunológico e desenvolvimento cerebral”.  “O próximo plano da equipe é descobrir como evitar que essa bactéria desencadeie, desnecessariamente, uma produção alta de IL-17”, escreveu Powell. Sobre isso, Huh tem um palpite: “Podemos descobrir micróbios que combatam as bactérias segmentadas filamentosas. Talvez, então, um probiótico poderia tratar mulheres antes ou durante a gestação”.

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