Sonda Cassini encerra histórica missão de 20 anos em Saturno

Na despedida, sonda fará uma imersão entre os anéis do planeta, com o objetivo de, antes de se desintegrar, enviar em tempo real à Terra dados impossíveis de serem coletados da órbita

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postado em 15/09/2017 06:00 / atualizado em 15/09/2017 07:57

Nasa/Divulgação

 
Após 20 anos de jornada, a missão Cassini chega ao fim hoje, em um mergulho entre os anéis de Saturno até a atmosfera do planeta, onde será destruída pela alta temperatura da descida e pela pressão do gigante gasoso. Prevista para as 8h54, a ação derradeira é um nobre sacrifício para que a sonda, praticamente sem combustível e condições de ser controlada por muito mais tempo, não colida com as luas do planeta e as contamine, prejudicando missões futuras.
 

Cassini começou a orbitar Saturno em junho de 2004, depois de sete anos de viagem pelo espaço até chegar ao seu destino. Completou quase 300 voltas ao redor do planeta e, nesse período, participou de diversas descobertas importantes, como a dos lagos de metano líquido na lua Titã, o maior do corpo celeste, e a do oceano de água salgada abaixo da superfície de Encélado, um pequeno satélite que tem algumas condições favoráveis à presença de vida.
 
 

Nesse mergulho final, a espaçonave não tripulada foi programada para usar oito dos seus 12 instrumentos científicos na busca por dados inéditos sobre a atmosfera e os anéis de Saturno, informações impossíveis de serem obtidas da órbita, e enviá-los em tempo real para a Terra. Trata-se de uma estratégia para aproveitar ao máximo o potencial científico da sonda, que poderá coletar informações que manterão os cientistas da missão ocupados ainda por alguns anos.

“A missão Cassini foi cheia de descobertas científicas, e isso continuará porque os instrumentos recolherão amostras da atmosfera de Saturno até o último segundo”, diz Linda Spilker, cientista de projeto da missão no Laboratório de Propulsão a Jato da agência espacial americana, a Nasa, em entrevista à agência France-Presse.

A expectativa dos estudiosos é de que, assim que a Cassini adentre a atmosfera, seus propulsores usem pequenos jatos controlados para manter a antena da sonda apontada para a Terra, garantindo o envio dos últimos e preciosos dados. À medida que os gases se tornarem mais densos, os propulsores aumentarão a atividade e atingirão o máximo de potência em cerca de um minuto.

A partir desse momento, acreditam os cientistas, a sonda perderá o controle e começará a balançar e queimar como um meteoro, movendo-se a 113.000 quilômetros por hora. O menor desalinho da antena com a Terra será suficiente para cortar a comunicação, o que deve acontecer cerca de 1.530 quilômetros acima das nuvens de Saturno. Dentro de 30 segundos após a perda de sinal, a nave começará a se desintegrar e, em poucos minutos, seus materiais serão completamente consumidos.

Como Saturno está a mais de um bilhão de quilômetros de distância da Terra, os dados transmitidos pela sonda, mesmo viajando na velocidade da luz, levarão 86 minutos para chegar aqui. “O primeiro sinal da nave será como um eco. Ele irradiará através do Sistema Solar por quase uma hora e meia após a Cassini em si ser destruída”, disse Earl Maize, gestor do projeto no Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa. “Mesmo a gente sabendo que, em Saturno, a sonda encontrará seu fim, a missão não estará realmente acabada para nós na Terra quando recebermos seu sinal.”

A equipe espera que todos os instrumentos que estudam a magnetosfera e o plasma, bem como instrumentos de rádio e espectrômetros, coletem dados do mergulho. Uma das ferramentas mais importantes é o espectrômetro de massa chamado INMS, que deve determinar a composição de íons positivos e partículas neutras presentes na atmosfera de Saturno. A expectativa é de que ele analise diretamente a sua composição e estrutura, algo que não pode ser feito a distância.

“Beijo de despedida”

Os últimos suspiros da Cassini serão captados em um dos prédios da Deep Space Network da Nasa, na cidade de Canberra, Austrália, e foram estudados por cientistas durante anos. Desde o fim de abril, a sonda esteve em uma órbita que passa por Titã e pelo espaço entre os anéis e a atmosfera de Saturno, explorado pioneiramente por ela. Na última segunda-feira, fez sua última passagem pela lua e iniciou a rota de colisão, em uma manobra apelidada de beijo de despedida.

“Esse grande final representa a conclusão de um plano de sete anos para usar os recursos restantes da nave da forma mais cientificamente produtiva possível”, disse Maize à Agência France-Presse. “Ao descartar com segurança a nave espacial na atmosfera de Saturno, evitamos qualquer possibilidade de que Cassini colida com uma das luas de Saturno em algum momento, preservando-as para explorações futuras.”

Cerca de 2 mil especialistas acompanharão a despedida de Cassini, incluindo a astrônoma brasileira Rosaly Lopes, que trabalha para a Nasa e participa da missão histórica (Leia entrevista). Alguns com a curiosidade científica misturada à emoção. “Essa é uma hora agridoce. Eu comecei a trabalhar na Cassini 27 anos atrás e sinto como se estivesse perdendo um velho amigo”, afirma Candy Hansen, cientista sênior do Planetary Science Institute.

“Quando a Cassini-Huygens foi lançada, nós seguramos o fôlego até que ela estivesse segura em seu caminho. Comecei a trabalhar nesse projeto por volta de 1990, e com um objetivo tão distante que eu sabia que demoraria um tempo até que os resultados científicos chegassem. Nós não poderíamos esperar resultados melhores, e foi um privilégio estar envolvido nessa missão extraordinária”, relata John Zarnecki, presidente da Sociedade Astronômica Real, do Reino Unido.
 

Nasa/Divulgação
Rosaly Lopes: uma brasileira na equipe 

Astrônoma no Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa e cientista de investigação na missão Cassini, a brasileira Rosaly Lopes estuda a geologia da maior lua de Saturno, Titã, a partir dos dados coletados no projeto. O fim da missão de 20 anos, segundo ela, traz uma sensação de dever cumprido e emoção. “Tem alguns momentos emocionais, como quando mandamos o último comando, na segunda-feira, para o instrumento radar, o power-off, ser desligado. Isso foi emocionante”, conta.
Formada em astronomia e com Ph.D em ciência planetária pela Universidade de Londres, Rosaly Lopes chegou a estudar na Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas não se graduou no Brasil. Também participou de outra grande missão da Nasa, a sonda Galileu, que foi enviada para estudar o planeta Júpiter e suas luas. Segundo ela, o arquivamento de dados da  Cassini deve durar mais um ano. (VC)

Quais foram os pontos mais importantes da missão Cassini?
O radar estava na Cassini para poder ver a geologia de Titã, a lua maior de Saturno. E Titã tem uma atmosfera muito espessa, as câmeras não podem penetrá-la. Então, não se sabia nada sobre a missão anterior. Não conseguiam ver a superfície. Foi o instrumento radar da Cassini que desvendou a superfície pela primeira vez. Eu estudo a geologia de Titã. Então, vejo a história geológica, os acidentes geológicos. Por exemplo, Titã tem dunas, lagos, nós descobrimos muita coisa sobre esse mundo praticamente novo nessa missão. E também tem a lua Encélado. Nós descobrimos atividade vulcânica nela, mas atividade como se fosse alguns gêiseres, porque está saindo água do interior da lua. Essas luas geladas, como Encédalo e Titã, têm oceanos de água líquida embaixo e de sua superfície. Ver o criovulcanismo de Encélado saindo, ativo, foi muito interessante.

Você vai acompanhar o fim da missão?
Estarei aqui. Tenho que chegar aqui no auditório às 3h, de madrugada. Nós vamos acompanhar até o momento final (…) O que acontece é que a nave vai entrar na atmosfera e não vai conseguir mais apontar para a Terra para mandar sinal. Ela vai ser destruída. Nós achamos que a antena vai ser uma das primeiras coisas que vão sair da nave. Isso vai acontecer mesmo por volta das 3h30 (horário de Pasadena, nos EUA), mas, como demora para o sinal chegar aqui, só saberemos em torno de 4h55.

Como é a sensação de que a missão está chegando ao fim?
Olha, é um pouco triste porque o time vai... Nós ainda vamos ter mais ou menos um ano juntos, ainda tem verbas por um ano para fazer o que se chama de arquivar os dados, essas coisas. Mas, no fim, o time vai indo para outras missões e não estará mais junto. Então, o que a gente sente é um pouco de tristeza, não por causa da nave ou de a missão acabar, mas porque o time não estará mais junto. Também tem alguns momentos emocionais, como quando mandamos o último comando, na segunda-feira, para o instrumento radar, o power-off, ser desligado. Isso foi emocionante”, conta. 
 
* Estagiário sob a supervisão da subeditora Carmen Souza
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