Saiba quais são os riscos de tatuagens e piercings em jovens

As complicações surgem em qualquer idade, mas a impulsividade da adolescência os deixa mais vulneráveis

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postado em 01/10/2017 08:00

Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press
Práticas tão antigas quanto a história do homem, tatuagens, perfurações e escarificações nunca saíram de moda. Que o digam os adolescentes, sempre insistindo com os pais para autorizarem a colocação de um piercing ou a gravação de uma figura na pele. Embora a legislação proíba a realização dessas técnicas em menores de 18 anos, elas podem ser feitas, contudo, quando há anuência do responsável. Cientes de que os mais jovens ainda se encantam com as interferências corporais, médicos da Associação de Pediatria Norte-Americana publicaram, pela primeira vez, recomendações sobre elas, voltadas a pediatras, pais e filhos.
 

A ideia do documento, publicado em forma de artigo na revista Pediatrics, não é fazer julgamentos morais nem estéticos, esclarece David Levine, coautor das recomendações e professor da Faculdade de Medicina Morehouse, em Atlanta. O que os médicos pretendem é esclarecer os mais jovens sobre os possíveis riscos dessas práticas, a fim de que tenham informação suficiente para decidir se querem ou não ir em frente. “Na maior parte das vezes, os adolescentes não sabem como é caro remover uma tatuagem ou que um piercing na língua pode resultar em um dente rachado”, exemplifica.

As complicações podem ocorrer independentemente da idade. Porém, nos mais jovens, muitas vezes, o impulso e a desinformação acabam amplificando os riscos. Até porque, quando não autorizados pelos pais, eles tendem a recorrer aos tatuadores e body piercers de fundo de quintal, que trabalham em condições de pouca ou nenhuma higiene, sem seguir regras mínimas de segurança.

A estudante Marina Bezerra da Silva, 16 anos, conta que isso é comum entre os adolescentes que conhece. “Muitos não têm maturidade. Os pais não autorizam e vão em lugares que podem colocá-los em risco”, diz. A jovem tem dois piercings, um na cartilagem da orelha e outro no nariz. Mas ambos foram feitos em estabelecimentos autorizados, com materiais descartáveis e esterilizados, e na presença dos pais dela.

Mesmo com esses cuidados, na primeira vez em que furou o nariz, Marina teve complicações. À época com 14 anos, ela fez o piercing em um estúdio, como o recomendado, mas sofreu de inflamação com pus e queloide. Aos 15, ela resolveu colocar a joia na cartilagem da orelha e, seguindo corretamente as orientações de higiene, não teve problemas. Neste ano, a estudante resolveu fazer o piercing no nariz novamente, também sem qualquer contratempo. “O importante é seguir as recomendações. Eu limpo três vezes ao dia com álcool. Tem muito jovem que não cuida”, diz.

A estudante Giulia Dickel, 20 anos, concorda com Mariana. Ela fez o primeiro piercing aos 14, e a tatuagem aos 16. “O piercing foi na casa de um amigo que estava aprendendo o ofício. Eu fui muito desleixada, estava numa fase muito rebelde e queria pôr de qualquer jeito. Tive inflamação com um na orelha, por falta de cuidado meu”, conta. Já com a tatuagem, Giulia estudou bastante e procurou um estúdio sério. “O próprio tatuador se preocupou em me mostrar tudo limpinho, os materiais descartáveis, e o lixo para descartar a agulha”, relata.

Grávida do primeiro filho, a jovem, agora, se coloca no lugar dos pais. “Acho que os pais têm de ficar no pé. Tem muito jovem que faz em qualquer lugar, paga tatuagem de R$ 50, faz piercing na casa dos coleguinhas e pega infecção. Se for para fazer, é muito importante ter a orientação dos pais e ter certeza do que quer e que não vai se arrepender”, acredita.

Precoces

Segundo o artigo publicado na Pediatrics, os adolescentes se tornam adeptos das artes corporais cada vez mais cedo. Pesquisas citadas no artigo e realizadas em oito estados norte-americanos mostram que 10% dos estudantes de high school, equivalente ao ensino médio brasileiro, têm tatuagens, e 55% desejam fazê-las. Em média, eles se tatuam aos 15 anos, embora os levantamentos tenham encontrado crianças com 8 anos já tatuadas. Um dos estudos, com jovens de 12 a 22 anos, constatou que de 10% a 23% dos entrevistados tinham piercing (não incluindo furos no lóbulo da orelha). No Brasil, não há dados semelhantes disponíveis.
 
Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
 

Embora o interesse pelas modificações corporais seja alto, outra pesquisa citada na Pediatrics, conduzida entre calouros de universidades italianas, revelou que o desconhecimento a respeito dos riscos é grande. Cerca de 60% deles sabiam que é possível contrair HIV/Aids com equipamentos de tatuagem e piercing contaminados. Porém, menos da metade já tinha ouvido falar dos riscos de hepatite C (38%), hepatite B (34%), tétano (34%) e outras condições não infecciosas (28%), como alergias. “Essas descobertas são semelhantes às obtidas em uma amostra de estudantes de medicina que fizeram piercing”, diz o artigo da Associação de Pediatria Norte-Americana (AAP).

Cuidados

Para os desavisados, Cora C. Breuner, presidente do comitê de adolescência da AAP, e David Levine explicam que a tatuagem consiste na introdução de pigmentos na derme por meio de agulhas, a profundidades de poucos milímetros. Sangue e outros fluidos que saem durante o procedimento devem ser retirados cuidadosamente. Depois do desenho pronto, a pele deve receber mais antisséptico e ficar coberta por 24 horas. Mesmo quando se tira a proteção, é preciso aplicar antibióticos tópicos, cremes ou óleos várias vezes ao dia. Geralmente, são necessárias duas semanas para cicatrizar, período em que se deve evitar tomar sol, nadar ou molhar diretamente com duchas. Roupas que aderem à tatuagem não podem ser usadas.

As tintas da tatuagem são uma mistura de pigmentos minerais, inorgânicos e sintéticos, além de diluentes. As concentrações de metais (substância carcinogênica) são baixas, mas os médicos lembram que, em estúdios de fundo de quintal, o material utilizado pode não obedecer às normas das agências de vigilância sanitária. “Idade, sexo, genética e outros fatores parecem influenciar na toxidade potencial”, observa Breuner.

 
Dor e deformação 

Um outro problema de adolescentes fazerem tatuagem é que, antes dos 15, 16 anos, o crescimento não se deu por completo, lembra o dermatologista do Grupo Aepit Gilvan Alves, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica e de associações como a American Academy of Dermatology. “Com o crescimento, o desenho da tatuagem ficará deformado, porque a pele estica. Pode até abrir uma estria bem no meio da figura”, afirma.

E, no caso de arrependimento, é possível desfazer a tatuagem a laser, mas o processo não é rápido, nem indolor. “É possível fazer a remoção em qualquer idade, mas não é tão simples quanto fazer a tatuagem. Para a remoção completa, são necessários de três meses a um ano, sendo que tem um intervalo de um mês entre cada sessão. É caro e doloroso. Dói, sangra, dá ferida”, relata o dermatologista.

Mesmo as tatuagens temporárias, de henna, oferecem riscos, diz Alves. Com o agravante de que, por acharem inofensivas, muitos pais permitem que até crianças pequenas façam e, geralmente, em ambientes não controlados, como praias. “A henna é extremamente alergênica e, em casos raros, pode dar até choque anafilático, levando à morte. O ideal é fazer apenas um pedacinho do desenho e esperar 72 horas, porque pode haver reação tardia”, ensina. 

Palavra de especialista

A importância do diálogo
“Uma vez que temos um público de adolescentes cada vez mais interessado em piercings e tatuagens, o pediatra e a família têm de saber orientar. Essa publicação foi fundamental porque é preciso orientar nas consultas sobre os riscos que, muitas vezes, eles desconhecem, como inflamações, infecções e até doenças graves, como Aids e hepatites. Muitos pais têm preconceito com o tema e se recusam a abordá-lo com a criança e o adolescente. Porém, esse diálogo tem de existir, e, no consultório, o pediatra pode ajudar. Se os pais não conversam, os filhos vão em qualquer lugar, em vez de escolherem um profissional e uma clínica adequados, e, quando chegam em casa, já não há mais o que ser feito.”

Nathália Sarkis, pediatra do Hospital Santa Lúcia e membro titular da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) 
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