Ciência explica de onde vem o medo de animais perigosos e nojo de insetos

A repulsa, sustentam os cientistas, seria uma estratégia de defesa para a humanidade

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postado em 05/11/2017 08:00

Considerado um dos grandes gênios da história da humanidade, Leonardo da Vinci declarou que “assim como a coragem põe a vida em perigo, o medo protege-a”. A afirmação do célebre polímata italiano — inventor, pintor, escultor, matemático, arquiteto, músico, entre outras habilidade — ganha validade por meio da ciência. Estudos têm mostrado como temores específicos do homem podem ter sido herdados de seus antepassados. No mais recente deles, cientistas suecos e alemães observaram que crianças de apenas seis meses demonstravam pânico ao ver imagens de cobras e aranhas. Os especialistas acreditam que a convivência de sociedades antigas com os bichos fez com que o medo se perpetuasse pelas gerações. Em outra pesquisa, investigadores americanos mostraram que o nojo do homem por insetos teria a mesma origem. Para os pesquisadores, essa herança perdurou para garantir a sobrevivência humana.

Com a industrialização e o crescimento das cidades, a maioria da população vive longe da natureza, e não precisa conviver com animais selvagens. Apesar de manter distância dos bichos, uma boa parte da sociedade apresenta medo de animais como aranhas e cobras. Nos países desenvolvidos, 5% da população é afetada por uma fobia relacionada a um desses animais. Enquanto alguns cientistas acreditam que o medo surge do ambiente em que se vive, outros estudiosos supõem que esse temor é inato.

Para se aprofundar nessa questão comportamental, investigadores suecos resolveram analisar bebês com apenas seis meses de vida e suas reações diante dos animais. “Estudos anteriores avaliaram apenas se crianças mais crescidas observavam aranhas e cobras mais rápido do que animais ou objetos inofensivos, e não se elas mostravam uma reação de medo fisiológica direta”, justificou ao Correio Kahl Hellmer, pesquisador do Departamento de Psicologia da Universidade de Uppsalla, na Suécia, e um dos autores do estudo publicado na revista científica Frontiers in Psychology.

Imagens

No experimento, os cientistas mostraram para as crianças fotos de cobras, aranhas, flores e peixes, todos do mesmo tamanho e cor. Ao ver a imagem dos dois primeiros, a maioria delas reagia com medo, denunciado por meio da pupila, que aumentou de tamanho. “Em condições de luz constante, essa alteração no tamanho das pupilas é um sinal importante para a ativação do sistema noradrenérgico no cérebro, responsável pelas reações de estresse. Com isso, vemos que mesmo os bebês mais jovens parecem estressados por esses grupos de animais”, explicou Stefanie Hoehl, neurocientista da Instituto Max Planck, na Alemanha, e investigadora principal do estudo.

Hoehl e sua equipe acreditam que esse medo demonstrado pelas crianças, que nem conheciam os bichos, pode ser explicado por uma herança evolutiva. “Semelhante ao que acontece com os primatas, mecanismos nos nossos cérebros nos permitem identificar animais, como aranha ou cobra, e reagir a eles muito rapidamente. Ambos foram perigosos para os nossos antepassados, há cerca de 40 a 60 milhões de anos. As mordidas venenosas eram um grande problema. Evitá-los teria proporcionado uma vantagem vital”, explicou Hoehl.

Para Rachel Ripardo, professora do Núcleo de Teoria e Pesquisa do Comportamento da Universidade Federal do Pará (NTPC -UFPA), os trabalhos alemão e sueco mostram dados que podem ser relacionados à teoria da evolução. “A hipótese de que o medo desses animais tenha origem num passado evolucionário faz sentido. Eles foram suficientemente perigosos para nossos bebês durante a evolução humana, mesmo que não sejam agora um perigo real. Esse tipo de ‘medo de fácil aprendizado’ é encontrado também em outros bichos, o que reforça a hipótese. E também há estudos que mostram que detectamos esses animais mais rápido do que percebemos outros”, explicou a especialista, que não participou do estudo. A professora ressaltou que a teoria da evolução também é utilizada para entender outros tipos de comportamento humano dentro da psicologia. “O medo de aranhas e cobras seria um exemplo, mas há vários outros, como a ligação entre mãe e criança, a detecção de trapaceiros etc.”, destacou.

Asco

A origem do nojo também está ligada a evolução. Cientistas da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres chegaram a essa conclusão em um experimento científico realizado em 2014. Os pesquisadores pediram a 40 mil pessoas que respondessem a um questionário na internet. A tarefa pedia que elas avaliassem uma série de imagens e classificassem se elas eram nojentas em uma escala de um a cinco. Fotos que mostravam fluidos corporais, ferimentos infeccionados e insetos eram consideradas mais asquerosas que imagens de fluidos da natureza e machucados cicatrizados.

O resultado reforçou a suspeita dos pesquisadores de que o nojo protege as pessoas de ameaças como as doenças infecciosas. “Observamos um padrão de resposta universal: as pessoas sentem nojo para se proteger de objetos e seres vivos que representem risco à saúde e, portanto, à própria sobrevivência da espécie”, explicou, em um comunicado à imprensa, Robert Anger, um dos autores do estudo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B.

Marcio Bernik, coordenador do Programa Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explicou que as duas reações refletem o mesmo sentimento. “O medo e o nojo são o que chamamos de estímulo agressivo, que é o que usamos para nos defender. Eles são faces da mesma moeda. Quando você conversa com um paciente que tem medo de se infectar com um vírus, como o HIV, ele diz que tem asco de sangue, por exemplo. São outras formas de descrever, mas o que ele demonstra é o mesmo sentimento”, destacou o especialista.

Ele também ressaltou que o fato de nem todas as pessoas possuírem as fobias de bichos impulsiona outras perguntas sobre as mudanças comportamentais relacionadas ao medo ocorridas com o passar dos anos. “Temos que considerar que outras revoluções estão ocorrendo. Temos crianças que não querem brincar com uma cobra, mas outras ficam até felizes de abraçar os animais. Temos grupos que terão essa herança e outros, não. Mas ainda é difícil explicar por que isso ocorre”, frisou.

Além de entender melhor o passado do homem, os autores do estudo disseram acreditar que os resultados podem auxiliar a área médica, com tratamentos para pessoas que sofrem com fobias. “Acredito que essa descoberta pode ser útil para terapeutas e psicólogos que trabalham com pacientes que sofrem com medo de aranhas. Pode também ser uma peça de quebra-cabeças para construir o nosso passado, mas, nesse caso, eu suponho que é necessário mais trabalho pela frente – talvez rastreando o passado evolutivo desse mecanismo em nossos primos primatas”, ressaltou Hellmer.

Jorge Gustavo Azpiroz, psiquiatra do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), enfatizou que entender melhor as origens das fobias pode auxiliar a área médica. “Sempre que temos a oportunidade de saber como esses transtornos agem, existe a possibilidade de encontrar soluções mais eficientes para tratamento. Basicamente, o que temos hoje para tratar esses problemas é uma exposição gradual. Se o paciente tem medo de aranha, você o expõe repetida e gradualmente ao animal. Isso é importante, porque sabemos que a ansiedade nos mantém longe de perigos, mas ela também pode ser prejudicial, atrapalha a vida da pessoa, causando o sofrimento quando toma uma forma exacerbada”, ressaltou o especialista. Segundo Azpiroz, uma análise mais apurada ainda pode render mais frutos. “Seria interessante avaliar a família, o pai e a mãe, e saber se existe uma herança desse medo dentro do grupo mais próximo, também faz sentido pensar em uma herança genética”, acrescentou.

Rachel Ripardo também disse acreditar que investigações para decifrar o medo podem auxiliar a área de pesquisa. “Elas nos ajudam a entender por que fobias a cobras e aranhas surgem tão cedo e tão fácil na vida humana, e porque é tão difícil tratá-las. A par desse conhecimento, médicos e psicólogos podem criar tratamentos mais específicos, sem buscar uma explicação apenas no contexto e na história de vida individual”, opinou.

“Semelhante ao que acontece com os primatas, mecanismos nos nossos cérebros nos permitem identificar animais, como aranha ou cobra, e reagir a eles muito rapidamente. Ambos foram perigosos para os nossos antepassados, há cerca de 40 a 60 milhões de anos. Evitá-los teria proporcionado uma vantagem vital” 
Stefanie Hoehl, neurocientista da Instituto Max Planck, na Alemanha
 
 
 
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gerson.rip
gerson.rip - 07 de Novembro às 14:49
Excelente reportagem sobre as fobias e a ansiedade. Gostei da participação dos especialistas. Muito bom!