Olfato dos jovens muda de acordo com a hora do dia, mostra estudo

A descoberta poderá ajudar a mapear e intervir em hábitos alimentares, já que a habilidade fica mais aguçada à noite

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postado em 15/11/2017 08:00

Valdo Virgo/CB/D.A Press
Tem hora certa para aguçar o olfato. Não se trata do horário da fome. Segundo pesquisadores dos Estados Unidos, o relógio biológico, que tem sido apontado como regulador de vários processos de funcionamento do corpo, também está envolvido na capacidade de sentir odores. Ao analisar o ritmo circadiano de adolescentes, cientistas da Universidade de Brown detectaram que o pico de capacidade olfativa se dá às 21h, e a atividade mais baixa, entre as 3h e as 9h. Os autores avaliam que os achados, publicados recentemente na revista Chemical Senses, poderão ajudar a área médica e contribuir para um maior entendimento sobre a evolução humana.
 
 
A pesquisa surgiu com um objetivo diferente: identificar quais tipos de alimentos os jovens consomem em diferentes momentos do dia, combinando a análise do funcionamento dos relógios interno e externo. “A razão pela qual adicionamos testes de sensibilidade do olfato a esse estudo foi determinar se esse sentido poderia estar envolvido nas escolhas alimentares dos nossos jovens. As descobertas relacionadas ao olfato surgidas a partir disso são totalmente novas, nunca haviam sido estudadas”, conta ao Correio Rachel Herz, autora principal do estudo e assistente adjunta de psiquiatria e comportamento humano na Escola Médica Warren Alpert, que faz parte Universidade de Brown.

No experimento, Herz e a equipe analisaram os hábitos de 37 adolescentes — 21 meninos e 16 meninas —  com idade entre 12 e 15 anos durante duas semanas. Nesse período, o sono do grupo foi atrasado em quatro horas, e os participantes, mantidos em ambientes fechados com pouca luz. Eles tinham que socializar, participando de atividades entre si e membros da equipe científica. O objetivo era separá-los temporariamente de interrupções típicas do sono e de influências externas.

A equipe mediu o ritmo circadiano dos adolescentes pelos níveis de melatonina presentes na saliva. A secreção desse hormônio começa cerca de uma hora antes do desejo de dormir. A sensibilidade dos voluntários ao cheiro foi avaliada usando o Sniffin Sticks, um teste comum para medir a capacidade de detecção de odor. Ele foi aplicado a cada três horas, enquanto os adolescentes estavam acordados.

Apesar das variações individuais, os pesquisadores identificaram um padrão na reação dos adolescentes. Os jovens mostraram olfato menos apurado durante a madrugada, quando estavam mais propensos a dormir e menos, a comer. “Em termos de relógio: das 3h às 9h, esse sentido mudou de maneira previsível, embora não seja o mesmo em todas os jovens”, diz Mary Carskadon, uma das autoras do estudo e professora da universidade americana.

Já o pico de sensibilidade do olfato foi definido como às 21h. A autora acredita que teorias relacionadas ao passado do homem podem ser discutidas em relação a esse achado particular. Segundo Herz, do ponto de vista evolutivo, seria importante garantir a saciedade durante a última refeição do dia, além de um possível aumento do desejo de acasalamento. Outra justificativa é a de que o olfato mais apurado seja uma maneira de “farejar” ameaças que possam estar próximas do indivíduo antes de ele dormir. “Podemos especular se esses dados possuem essas raízes profundas revisitando a história humana antiga, mas tais explicações são apenas especulativas”, ressalta.

Larissa Camargo, otorrinolaringologista da Clínica Ceol Otorrino, em Brasília, e membro titular da Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia (SBO), avalia que as possíveis explicações são pertinentes, mas ressalta que uma análise mais apurada é necessária. “Podemos relacionar esse olfato mais alto à tendência a ter mais apetite e também à atividade sexual. São teorias que fazem sentido, mas precisamos também contar com uma análise mais detalhada, microscópica, que ajude a entender melhor essa atividade comportamental relacionada. Dados científicos mais vastos podem ajudar a entender melhor essas conclusões”, analisa.

Alimentação

Quanto à aplicação na área médica, Herz sugere um cenário. “Essas descobertas podem fornecer informações sobre o momento das escolhas alimentares e a quantidade de alimentos consumidos em diferentes horários ao longo do dia”, diz. Ela e a equipe  darão continuidade ao estudo e pretendem aumentar o número de participantes analisados a fim de aprofundar os dados relacionados a hábitos alimentares e o uso clínico dessas informações.

“Isso nos permitirá fazer perguntas importantes. Por exemplo, como o tempo afeta a ingestão de alimentos em jovens obesos, em comparação com os de peso saudável, e se o olfato está envolvido nesse comportamento. Essa informação pode ser importante para a compreensão da obesidade e, eventualmente, melhorar abordagens que ajudem os adolescentes a controlar o peso”, detalha. “O sentido do olfato muda durante as 24 horas do dia (…). Nós não sabemos se essa diferença afetará o que ou a forma como as pessoas comem. Há mais por vir”, complementa.

Larissa Camargo indica outro possível uso da combinação de hábitos alimentares e o funcionamento do ciclo circadiano. “Já sabemos que, quando comemos muito à noite, não é bom para o nosso corpo, e que pessoas que têm trabalhos noturnos sofrem alterações em relação a seus hábitos alimentares. Por isso, acredito que mais dados possam contribuir de forma positiva justamente na área da nutrição”, ressalta a especialista.

"Essa informação pode ser importante para a compreensão da obesidade e, eventualmente, melhorar abordagens que ajudem os adolescentes a controlar o peso” Rachel Herz, autora principal do estudo e pesquisadora da Universidade de Brown
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