Dietas que combinam excesso de açúcar e gordura são as mais prejudiciais

Pesquisa da USP mostra que os adeptos têm, por exemplo, mais risco de serem acometidos por câncer e diabetes

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postado em 21/11/2017 06:00

Reprodução


Em vez do almoço tradicional, sanduíche, batata frita e refrigerante. No jantar e no meio da tarde, o combo também faz parte dos mais pedidos, como outros tipos de junk food, alimentos ricos em gordura e açúcar. Um estudo do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP) mostra que esse menu, cada vez mais escolhido por brasileiros, é o que mais engorda e causa os maiores danos ao corpo, aumentando, por exemplo, o colesterol em 34%.

Autora da pesquisa, a professora de educação física Laureane Masi realizou os testes com 50 camundongos, separados em quatro grupos, conforme a dieta recebida: balanceada, com excesso de leite condensado (açúcar), rica em gordura (hiperlipídica) e com excesso de leite condensado e gordura. As três últimas dietas são obesogênicas, levam à obesidade, e, depois de dois meses, observou-se, nas cobaias submetidas a elas, efeitos como intolerância à glicose, aumento de peso, do depósito de gordura visceral, do tamanho de células de gorduras, do peso do fígado e dos níveis de colesterol.

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Esses problemas foram detectados com maior gravidade nas cobaias que seguiram o regime que combinava excesso de gordura e açúcar.  No fim do experimento, por exemplo, o peso médio desses animais foi de 42,5 gramas, mais que o dobro do verificado no grupo de controle. “A obesidade pode desenvolver complicações clínicas gastrointestinais, metabólicas, cardiovasculares, respiratórios, neurológicos, oftalmológica, oncológica, entre outras”, lista Laureane Masi.

A dieta também aumentou o estado inflamatório do tecido adiposo, que ajuda na manutenção da temperatura corporal e serve de reserva energética do corpo. Outra piora que chamou a atenção da pesquisadora foi o aumento do fator de necrose tumoral alfa, produzido principalmente por células de defesa chamadas macrófagos.

Esse quadro pode levar a inflamações, doenças autoimunes, choque séptico e até mesmo o aparecimento de tumores.  “O estudo mostra que o nutriente isolado tem um grande fator de impacto no envelhecimento patológico e, quando você soma os dois nutrientes, os fatores de impacto são maiores, podem dobrar”, explica o presidente da Associação Brasileira de Nutrologia, Durval Ribas Filho.

Perigo generalizado


O nutrólogo Durval Ribas Filho destaca que os resultados envolvendo as outras dietas do experimento também merecem a atenção. Analisadas separadamente, elas revelam-se também bastante perigosas. O regime rico em gordura saturada, por exemplo, dobra as chances de doenças neurodegenerativas, alerta o especialista. No experimento, aumentou o nível de colesterol em 65%, contra 34% da dieta que combina açúcar e gordura.

Segundo a pesquisadora, apesar de as três dietas obesogênicas terem levado à obesidade e à disfunção metabólica, a com alto teor de açúcar foi mais inflamatória do que a hiperlipídica, que causou fibrose hepática. “Considerando as dietas isoladas, a hiperlipídica foi mais prejudicial. Ela causou sensibilidade à insulina e esteatose hepática, o acúmulo de gordura no fígado, um estágio antes da fibrose hepática na doença hepática não alcoólica”, diz.

Para o nutrólogo, levando os resultados para a clínica, há que se considerar ainda o funcionamento de cada organismo. “Cada ser humano responde de uma forma à ação dos nutrientes. As gorduras em excesso podem fazer mais mal para algumas pessoas do que para outras, assim como o açúcar”, explica. “Eu acho que a gente deve relembrar Hipócrates: ‘Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio’. Então, em resumo, o estudo mostra que os nutrientes em excesso, quaisquer que sejam, podem contribuir negativamente para a saudabilidade.”

Aplicação clínica

Segundo Nathalia Pizato,  professora do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília (UnB), o estudo permitiu o controle da dieta dos animais muito mais do que se pode fazer com humanos. Por isso,  apesar do metabolismo dos dois mamíferos serem muito parecidos, o que acontece com o rato pode não acontecer com os humanos.
 
A pesquisadora reconhece essa limitação da ciência, mas, segundo ela, por resultados anteriores com roedores, em estudos de obesidade induzida por dietas obesogênicas, é possível extrapolar os resultados. “Já se tem verificado os mesmos resultados nessa espécie em relação a essa doença”, ressalta. O estudo da USP foi divulgado recentemente na revista Scientific Reports. 

* Estagiária sob a supervisão da subeditora Carmen Souza.
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