Chimpanzés fêmeas esperam 3 anos para ter a 1ª cria quando perdem a mãe

A estratégia é identificada por pesquisadores americanos em primatas que vivem em parque africano há mais de 50 anos

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postado em 25/11/2017 08:00 / atualizado em 25/11/2017 09:52

Ian Gilby, Universidade do Estado do Arizona


Assim como as humanas, os chimpanzés fêmeas que se tornam mães valorizam o suporte tanto da família quanto dos colegas mais próximos. Um estudo publicado na revista Journal of Human Evolution mostrou que esse apoio é tão importante que, quando deixam seus grupos originais, esses animais podem esperar mais de três anos para terem o primeiro filhote. E as primatas que ficam, além de procriarem mais cedo, usufruem dos benefícios do contato com as mães, como vantagens na disputa pela comida.


Os cientistas analisaram dados coletados durante mais de 50 anos de 36 chimpanzés fêmeas do Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia. Eles acreditam que a maternidade atrasada pode ocorrer pela falta de suporte, pela hostilidade sofrida por membros que migraram de grupo e pelo menor acesso a recursos, como comida.

“Por causa do longo período de observação e da completa habituação das fêmeas estudadas, fomos capazes de observar filhotes desde o nascimento, passando pela juventude e até o primeiro filho. Isso nos deu pontos de referência precisos da maturação de um grande número de fêmeas”, disse Kara Walker, pesquisadora da Universidade Duke, nos Estados Unidos, e principal autora do artigo.

Cruzamentos arriscados

No estudo, foram observadas duas comunidades situadas em Gombe. Por isso, os pesquisadores conseguiram coletar dados até mesmo das fêmeas que deixaram seus grupos originais, o que é um comportamento comum. A maioria dos chimpanzés fêmeas deixa suas comunidades assim que atingem a maturidade sexual, em média entre os 11 e 12 anos de idade.

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Como os machos costumam ficar no mesmo grupo por toda a vida, a migração é uma estratégia adotada por elas para evitar cruzamentos com parentes próximos. Porém, os resultados da pesquisa mostraram que, apesar do risco de endogamia, as fêmeas que ficam na comunidade na qual nasceram apresentam uma clara vantagem reprodutiva. Elas têm os primeiros filhotes por volta dos 13 anos, contra 16 das que migraram.

Entre as fêmeas que ficam no grupo, aquelas com mãe de alta posição social têm ainda outro tipo de vantagem: atingem a maturação sexual mais cedo. O estudo mostrou que chimpanzés nascidos dessas primatas alcançam a maturidade com 9 anos, contra 12,8 nas filhas de chimpanzés com baixa posição no grupo. Já as órfãs demoram ainda mais: até 13,3 anos, contra 10,7 das que possuem mãe.

Posição social

Segundo Walker, em Gombe, a maioria das fêmeas possui a mãe viva, e elas permanecem fortemente unidas para o resto da vida. Essas duplas se tornam parceiras frequentes e, em raras vezes, elas até participam juntas de lutas contra outras fêmeas, ganhando pela vantagem numérica o acesso a melhores fontes de comida. Além disso, quanto maior a posição social da mãe, maior o acesso da dupla aos recursos do grupo.

“Todas as fêmeas que ficam em casa, tendo uma mãe ou não, já possuem uma rede social pronta. Elas já estão familiarizadas com a cena social, sabem quem evitar e quem procurar”, disse Walker. “Elas também sabem onde ficam as boas comidas. Achamos que é por isso que podem dar à luz mais cedo do que as migrantes.”

A pesquisadora considera intrigante o fato de a maioria das fêmeas abandonarem os seus grupos mesmo existindo grandes vantagens em ficar. “Assumia-se que havia um alto risco de endogamia entre as fêmeas que ficavam, mas mostramos, em um trabalho anterior, que isso é raro, apesar de acontecer. Em Gombe, ficar em casa traz poucas desvantagens, enquanto migrar parece trazer muitas”, compara.

* Estagiário sob a supervisão da subeditora Carmen Souza



Risco de extinção

O cruzamento entre parentes próximos gera muitos problemas para uma comunidade de animais, como o surgimento de graves doenças genéticas. Dependendo da quantidade de práticas endogâmicas e do tamanho do grupo, os animais podem até desaparecer com o tempo.


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