Ações combinadas reduzem infeção por HIV em 42%, diz estudo

A circuncisão masculina de não infectados e a adesão de soropositivos à terapia com antirretroviral barram avanço do vírus da Aids em distrito de Uganda. Para pesquisadores, o resultado da pesquisa com quase 34 mil voluntários pode se repetir em outros países

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postado em 30/11/2017 06:00

Rakai Health Sciences Program/Divulgação


A adoção de duas estratégias anti-HIV reduziu em 42% o número de infecções pelo vírus da Aids no Distrito Rakai, em Uganda. Em um estudo publicado hoje no New England Journal of Medicine, pesquisadores do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (Niaid, sigla em inglês) e da Universidade de Johns Hopkins, ambos nos Estados Unidos, demonstraram que, com a prática, é possível diminuir substancialmente novos casos da doença.

 

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A estratégia preventiva consistiu em circuncisão masculina voluntária de não infectados e terapia antirretroviral em indivíduos com o vírus, para evitar a transmissão do HIV ao parceiro. “Antes do estudo, sabíamos que essas medidas funcionavam em nível individual, mas não estava claro se poderiam reduzir significativamente a incidência do vírus em uma população, ou mesmo se seria possível que um grande número de pessoas as adotasse”, disse Anthony S. Fauci, diretor do Niaid. “Essa nova análise demonstra que é possível virar a maré da epidemia”, afirmou.

A pesquisa envolveu quase 34 mil pessoas, com idade entre 15 e 49 anos e residentes em 30 comunidades participantes do Estudo de Coorte da Comunidade Rakai (RCCS), conduzido pelo governo de Uganda. Com financiamento estrangeiro, o programa promoveu testagens de HIV, distribuição de medicamentos antirretrovirais e circuncisão masculina voluntária aos participantes. A cada um ou dois anos, desde abril de 1999 até setembro de 2016, todos foram testados para HIV, além de questionados sobre comportamento sexual, adesão ao tratamento (no caso dos infectados) e se haviam feito a cirurgia de remoção do prepúcio.

Os pesquisadores descobriram que o percentual de participantes do estudo vivendo com HIV que reportaram usar os antirretrovirais subiu de 0% em 2003 para 69% em 2016. A proporção de homens que voluntariamente fizeram a circuncisão subiu de 15% em 1999 para 59% no ano passado. Enquanto os níveis de uso de preservativo com parceiros casuais e de pessoas com múltiplos parceiros se mantiveram praticamente o mesmo no período, o percentual de adolescentes de 15 a 19 anos que reportaram nunca ter feito sexo passou de 30% em 1999 para 55% em 2016.

Como uma aparente consequência desses dados, particularmente entre os usuários da terapia antirretroviral e dos adeptos da circuncisão masculina, o número de novas infecções no coorte caiu de 1,17 por 100 por pessoa/ ano em 2009 para 0,66 por 100 por pessoa/ano em 2016, uma queda de 42%. Pessoa/ano é a soma do número de anos que cada membro do coorte participou do estudo. Os pesquisadores calcularam a quantidade de novos casos de HIV a partir de dados de quase 18 mil dos 34 mil participantes.

Além disso, a proporção de membros do coorte vivendo com HIV cujo tratamento suprimiu o vírus aumentou de 42% em 2009 para 75% no ano passado, mostrando, assim, que é possível para o mundo atingir a meta da iniciativa 90-90-90,  da Unaids,  a agência de HIV/Aids das Nações Unidas. O objetivo é chegar a uma supressão viral de 73% entre os infectados.

“Essas descobertas são extremamente animadoras e sugerem que, com o compromisso contínuo de aumentar o número de pessoas que usam uma combinação de métodos de prevenção do HIV, pode ser possível ter um controle epidêmico e uma eventual eliminação do vírus”, disse David Serwadda, professor da Universidade de Saúde Pública Makerere em Kampala, Uganda.


Diferença entre gêneros

A incidência de HIV caiu principalmente entre homens que fizeram circuncisão (57%), possivelmente devido à cirurgia e ao fato de suas parceiras soropositivas os terem protegido ao usar a terapia antirretroviral. No geral, houve queda de 54% da incidência de HIV entre os participantes do sexo masculino e de 32% entre as voluntárias. Os pesquisadores sugeriram que mais atenção seja endereçada a essa diferença entre os gêneros, com intensificação de estratégias de prevenção feminina, como a pré-exposição profilática. 

Segundo Mary Kate Grabowski, líder do estudo e professora na Faculdade de Medicina da Universidade de Johns Hopkins, os resultados são bastante contundentes para expandir a circuncisão masculina e a terapia antirretroviral além do Distrito Rakai. “Esperamos que essa abordagem multifacetada para prevenção do HIV funcione tão bem em outras populações como foi em Uganda”, disse a também epidemiologista do Programa de Ciências da Saúde de Rakai. “Outras intervenções preventivas eficazes, como a profilaxia antes do sexo, podem ser adicionadas ao arsenal de estratégias para reduzir as infecções por HIV em mulheres e outros grupos de risco”, sugere.

Prevenção direcionada


Recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 2014, essa medida consiste na ingestão de antirretrovirais por pessoas mais expostas ao risco de infecção pelo HIV. A eficácia dela é comprovada em estudos científicos. O Iniciativa de Profilaxia Pré-Exposição (iPrEx), por exemplo, mostrou que o uso diário do medicamento por homens que fazem sexo com homens e mulheres trans evitou a ocorrência de novas infecções com eficácia que variou de 43% a 92%, conforme a adesão à ação profilática.

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