Jornal Correio Braziliense

Unir ioga e exercícios aeróbicos faz bem ao coração, aponta estudo

Em seis meses, a prática combinada reduz em duas vezes os efeitos da hipertensão e do colesterol alto, segundo estudo com 750 voluntários. O estudo mostrou ainda queda na taxa de mortalidade e de complicações ligadas a doenças cardiovasculares

Sara Sane*
As doenças do coração afetam grande parte da população mundial. Entre as medidas mais recomendadas para evitá-las ou amenizá-las estão cuidar da dieta, fazer checapes regulares, evitar o sedentarismo e o estresse. Um estudo do HG SMS Hospital, na Índia, mostra que combinar atividades que envolvam dois desses cuidados pode ser ainda mais efetivo. Ao acompanhar 750 voluntários, os pesquisadores constataram que juntar exercícios aeróbicos e ioga reduz em duas vezes os efeitos da hipertensão, do índice de massa corporal (IMC) acima do indicado e do nível elevado de colesterol, quando se considera a prática das mesmas atividades isoladamente.

“A combinação de ioga e exercício aeróbico reduz o estresse mental, físico e vascular e pode levar à diminuição da mortalidade e morbidade cardiovascular”, afirma Sonal Tanwar, autor do estudo, apresentado no Congresso da Sociedade de Cardiologia dos Emirados Árabes, em Dubai. Os participantes da pesquisa foram divididos em três grupos: 225 voluntários  praticaram somente exercícios aeróbicos; 240, somente ioga; e 285, ambos os exercícios.

Todos os pacientes tinham sido diagnosticados com doença arterial coronariana e diabetes tipo 2 e, ao longo de seis meses, participaram de três sessões semanais das atividades. Depois do experimento, constatou-se que aqueles que praticaram ioga ou aeróbica apresentaram resultados semelhantes na melhora do problema cardíaco. Os voluntários que combinaram as duas atividades tiveram o efeito potencializado.

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A doença arterial coronariana ocorre devido à obstrução dos vasos sanguíneos pela presença de placas de gordura. Segundo a cardiologista Maria Janieire Alves, do Instituto do Coração (Incor), a obesidade é um fator de risco para essa complicação cardíaca. Por isso, a importância das atividades aeróbicas para evitar o problema e amenizá-lo. Elas vão melhorar o fluxo sanguíneo, o que leva à diminuição do estresse.

“Quando associada à ioga, que exerce a função fundamental de reduzir a ativação nervosa simpática central no cérebro, é de se esperar que tenha uma potencialização dos efeitos”, explica a médica. O sistema nervoso simpático é responsável por preparar o corpo para responder a situações de estresse ou emergência, conhecidas como luta ou fuga. Ele é ativado na presença de atividades vigorosas.

Longo prazo

Maria Janieire Alves lista outros benefícios da prática combinada. “Os pacientes que fizeram esse treinamento tiveram impacto na capacidade funcional e passaram a tolerar mais o exercício a longo prazo. As atividades, quando combinadas, também têm um papel fundamental no controle neurovascular e cerebral”, detalha.
Para os praticantes que já têm problemas cardíacos,Wesley Paixão, professor de ioga e especialista em prescrição de exercícios para grupos de risco, faz um alerta. É preciso ter cuidado com as invertidas da ioga, quando o indivíduo coloca o coração acima da cabeça, alterando a ordem natural do corpo. “Nessas posições, você provoca picos maiores de pressão, e isso, feito por quem já tem algum tipo de problema cardíaco, aumenta o risco de eventos que podem levar a pessoa a passar mal ou algo pior”, esclarece.

Prevenção

Para Luiz Guilherme Grossi Porto, professor de educação física e colaborador do Laboratório Cardiovascular da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB), estudos como o apresentado no Congresso da Sociedade de Cardiologia dos Emirados Árabes têm reforçado a importância do acúmulo estratégico de atividades físicas como fonte de prevenção. “Na pesquisa, a soma dos dois exercícios potencializou a proteção cardiovascular e trouxe ainda mais benefícios. É preciso acumular movimentos ao longo do dia e estimular as pessoas a resgatá-los. Isso não é bom apenas para a saúde vascular”, ressalta.

A corrida e a ioga fazem parte da rotina de Bruno Carneiro, 39 anos, e das gêmeas Ananda Beleza e Thaiana Beleza, 25 anos, por esse motivo. A combinação, garantem, deixa em forma a mente e o corpo. “Eu prático ioga para manter o coração saudável, para evitar problemas cardíacos, circulatórios. A aeróbica é boa para isso também. Mas eu sinto que, com a idade, a gente vai sentindo a necessidade de ter atividades que fortaleçam a musculatura, as articulações, a flexibilidade”, diz o engenheiro da computação.

A advogada Ananda conta que sente falta das atividades quando não consegue praticá-las semanalmente. “Inicialmente, a gente sempre pensa na estética, mas depois que você fica sem praticar, percebe totalmente a alteração da sua  saúde, do seu estado mental. Aí, você começa a dar prioridade principalmente à saúde.” A médica Thaiana começou fazendo exercícios aeróbicos e recorreu à ioga porque precisava de outro exercício que a ajudasse a conter a ansiedade. “Vi que existiam os pranayamas, que são as respirações. Achei que elas ajudariam na minha ansiedade porque ela estava mais ligada à falta de ar. Deu certo”, comemora.

Segundo Luiz Grossi, o ideal é acumular 10 mil passos por dia. Pessoas que ficam entre 7.500 e 10 mil tendem a ser mais ativas, enquanto aquelas que dão menos de 5 mil passos diariamente podem ser consideradas sedentárias. No caso de indivíduos que ficam mais tempo sentados, o professor recomenda a realização de pausas ativas a cada uma hora. O intervalo pode ser uma sessão de alongamento de um minuto.

* Estagiária sob a supervisão da subeditora Carmen Souza


Poluição do ar anula efeitos dos exercícios físicos

Os benefícios da prática de exercícios físicos podem se cancelados pela exposição rápida à poluição do ar. Basta estar em contato duas horas por dia com gazes emitidos por automóveis — tempo que muita gente gasta no trânsito das grandes cidades — para ter aquela caminhada ou corrida anulada. O efeito surpreendente dos poluentes foi constatado em pesquisa conduzida por cientistas do Imperial College London, no Reino Unido, e da Duke University, nos Estados Unidos.

“Isso aumenta o crescente número de evidências que mostram os impactos cardiovasculares e respiratórios negativos de uma curta exposição à poluição do tráfego. Esse estudo destaca a necessidade de limites mais rigorosos na qualidade do ar e de melhores medidas de controle de tráfego em nossas cidades”, ressaltou, em comunicado, Junfeng Jim Zhang, professor de saúde global e ambiental da Duke University, e participante da pesquisa, divulgada na edição de ontem da revista The Lancet.

O estudo é o primeiro a constatar esse efeito da poluição do ar em indivíduos saudáveis, com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) ou doença cardíaca coronária. Participaram do experimento 119 voluntários, encaixados em um dos três perfis. Eles tiveram de caminhar durante duas horas em um parque londrino, o Hyde Park, ou ao longo de uma rua movimentada da cidade, a Oxford Street, onde a poluição excede regularmente os limites de qualidade do ar estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde.

Rigidez arterial

Os pesquisadores checaram índices de saúde cardiopulmonar antes e depois do experimento, como pressão arterial e rigidez arterial. Após o passeio no parque, 24% dos participantes saudáveis e dos com DPOC e 19% dos com doença cardíaca apresentaram redução da rigidez arterial. No caso dos que caminharam pela Oxford Street, as taxas foram de 4,6%, 16% e 8,6%, respectivamente. A equipe ressaltou que o estresse pode explicar algumas diferenças fisiológicas observadas entre os dois grupos, uma vez que um deles foi submetido à caminhada com o ruído do tráfego.

Ainda assim, eles ressaltam a necessidade da existência de mais espaços saudáveis nas grandes cidades. “Combinadas com evidências de outros estudos recentes, nossas descobertas ressaltam que não podemos realmente tolerar os níveis de poluição do ar que encontramos atualmente em nossas ruas movimentadas (…) Precisamos reduzir a poluição para que todos possam aproveitar os benefícios da atividade física em qualquer ambiente urbano”, defendeu Fan Chung, professor de medicina respiratória do Instituto Nacional do Coração e Pulmão no Imperial College.