Idosos que jogam partidas diárias de videogame protegem memória

Estudo canadense com 33 voluntários mostra ainda melhora na cognição e no equilíbrio

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postado em 17/12/2017 08:00 / atualizado em 17/12/2017 11:29

Arte/Cb/DA Press
Há quem tema os videogames, alegando que o uso excessivo pode diminuir a inteligência e até incentivar o comportamento violento. A ciência, porém, vem demonstrando efeitos benéficos causados pelos jogos eletrônicos, principalmente como ferramenta de estímulo cerebral. Um novo estudo mostrou, por meio de análises neurais, que jogadas diárias em plataformas 3D resultam, em adultos e idosos, no aumento de atividades no hipocampo, área do cérebro conhecida como a sede da memória. Especialistas acreditam que o resultado constatado por cientistas canadenses poderá ser usado como estratégia de prevenção a problemas neurológicos recorrentes no envelhecimento, como o Alzheimer e outras formas de demência.

Em 2014, pesquisadores da Universidade de Montreal recrutaram voluntários de 20 anos que foram instruídos a usar videogames 3D para jogar partidas que envolvessem atividades de resolução de tarefas de lógica e quebra-cabeça. As análises mostraram que, ao longo do experimento, os participantes apresentaram aumento da matéria cinzenta no cérebro. Os achados estimularam a equipe a ampliar o estudo. “Nós e outros cientistas mostramos anteriormente que os jogos em plataforma 3D podem aumentar a matéria cinzenta de adultos mais novos. Buscamos, portanto, replicar esse efeito em adultos mais velhos e saber se o mesmo ocorreria, pois seria algo importante”, conta ao Correio Gregory West, professor de psicologia da Universidade de Montreal e principal autor do novo estudo, publicado recentemente na revista especializada Plos One.
 

Para o experimento com idosos, foram selecionadas 33 pessoas, com idade entre 55 e 75 anos, que foram divididas em grupos aleatoriamente. Parte dos participantes foi instruída a jogar videogames 3D durante 30 minutos por dia, em cinco dias por semana. A outra parcela foi orientada a tomar aulas de piano — pela primeira vez na vida — com a mesma frequência. Um terceiro grupo, que funcionou como controle, não realizou as tarefas. O experimento durou seis meses e foi conduzido na casa de cada participante, onde foram instalados os consoles e levados os pianos.

Os pesquisadores avaliaram os efeitos do experimento no início, logo que acabaram os exercícios e seis meses depois do estudo, por meio de duas análises: testes de desempenho cognitivo e ressonância magnética (MRI). Os métodos permitiram a observação da atividade do cérebro e de quaisquer mudanças em três áreas: o córtex pré-frontal dorsolateral, que controla o planejamento, a tomada de decisões e a inibição; o cerebelo, que desempenha um papel importante no controle e no equilíbrio motor; e o hipocampo, o centro da memória.

De acordo com os resultados da ressonância magnética, apenas os participantes do grupo do videogame apresentaram aumento do volume de matéria cinzenta no hipocampo e no cerebelo, além de melhora na memória de curto prazo. O líder do estudo explica que esse resultado pode ter ocorrido devido a um estímulo neural reforçado promovido pelos jogos eletrônicos. “O jogador precisa navegar em um ambiente virtual, confiando em um mapa cognitivo interno. Isso significa que a pessoa precisa confiar na própria memória interna do ambiente para navegar, em vez de, digamos, seguir pistas externas, como um sistema de GPS. Quando as pessoas formam um mapa cognitivo, usam o hipocampo. Isso pode explicar por que esse tipo de jogo promove o aumento da matéria cinzenta nessa estrutura”, detalha West.

Os testes também revelaram melhoras neurais em indivíduos que participaram das aulas de piano. Eles registraram aumento da matéria cinzenta no córtex pré-frontal e no cerebelo dorsolateral, mas em menores proporções, quando comparados aos voluntários do videogame. O grupo controle, que não realizou nenhuma das duas atividades, mostrou sinais de atrofia nas três áreas do cérebro analisadas. “Quando o cérebro não está aprendendo coisas novas, a matéria cinzenta se atrofia à medida que as pessoas envelhecem. A boa notícia é que podemos reverter isso e aumentar o volume aprendendo algo novo, como usando jogos 3D”, ressalta West.

Adaptações


Hudson Mourão, neurologista do Hospital Anchieta de Brasília, acredita que o estudo canadense traz dados que seguem uma linha de pesquisa bastante explorada na neurologia e que tem se mostrado cada vez mais promissora. “Hoje em dia, temos usado muitos videogames para tratamentos clínicos. Quado você coloca a pessoa em uma realidade tridimensional, você testa a percepção dela, faz com que realize várias tarefas. Já foi provado que as áreas cerebrais que eu ativo quando estou jogando uma bola, por exemplo, são as mesmas ativadas quando me imagino fazendo essa tarefa”, destaca o especialista. “Isso também muda teorias anteriores, quando se acreditava que novos neurônios só poderiam surgir por volta dos 20 anos de idade. É uma balela, essa capacidade se mantém quando somos mais velhos”, complementa.

Por isso, defende a equipe canadense, as partidas eletrônicas poderiam ser uma estratégia de prevenção a complicações que  causam deficit de memória, como demências mais leves e até o Alzheimer. “Acreditamos que isso é possível, mas existem alguns desafios que englobam, por exemplo, tornar esses tipos de jogos mais fáceis de serem usados por adultos mais velhos. Uma questão é que os controles são complicados e exigem um pouco de destreza, algo que pode diminuir com a idade”, destaca West. O grupo de estudo vai se dedicar a essas adaptações. “Queremos testar quais aspectos específicos do design do jogo causam esse impacto no hipocampo. Com esse conhecimento, poderíamos ajudar a desenvolver jogos que possam ser mais adequados para uso em um ambiente clínico”, adianta o autor.
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