Aquecimento global deve provocar explosão no fluxo migratório

Com base em projeções, os pesquisadores mostram que o fluxo de refugiados na Europa poderia aumentar entre 28% e 188%, devido à aceleração do processo de aquecimento

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postado em 23/12/2017 08:00 / atualizado em 22/12/2017 23:44

Armend Nimani/AFP - 16/9/15


As migrações para a Europa podem aumentar consideravelmente até o fim do século, e o motivo para esse crescimento é ambiental, alertaram ontem pesquisadores da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Em um estudo científico publicado na última edição do ano da revista Science, os especialistas advertiram que, se as emissões de gases do efeito estufa continuarem a crescer no ritmo atual, provocando o aumento da temperatura global, o número de pessoas que buscam asilo no continente, muito visado por aqueles que fogem de guerras em seus países de origem, pode explodir.

Com base em projeções, os pesquisadores mostram que o fluxo de refugiados na Europa poderia aumentar entre 28% e 188%, devido à aceleração do processo de aquecimento. Em número, isso significaria entre 98 mil e 660 mil solicitações de asilo adicionais por ano. “A Europa já está em conflito quanto ao número de refugiados que deve admitir”, opinou, em um comunicado à imprensa, Wolfram Schlenker, principal autor do estudo e economista da Escola de Assuntos Internacionais e Públicos (SIPA, em inglês) da Universidade da Columbia. “Embora os países mais pobres nas regiões mais quentes sejam os mais vulneráveis às mudanças climáticas, nossas descobertas mostram a forma como os países estão vinculados. E a Europa verá um número crescente de pessoas desesperadas fugindo de seus lugares de origem”, explicou o cientista.

Os pesquisadores encontraram um vínculo aparente entre as temperaturas, a agricultura e o número de solicitações de refúgio. Eles revisaram as solicitações de asilo na União Europeia entre 2000 e 2014, que tinham como média 351 mil pedidos por ano. E, quando compararam o número com o clima nos 103 países de origem dos solicitantes, descobriram que as requisições de abrigo tendiam a aumentar quando a temperatura nas regiões agrícolas das nações ultrapassava 20 graus centígrados.

Os cientistas também combinaram as informações encontradas com estimativas de aquecimento para o futuro e encontraram mais dados preocupantes. Projetando um aumento de 1,8 ºC na temperatura média mundial, um cenário considerado otimista pelos autores do estudo, os cálculos apontam que poderia ocorrer um aumento no número de refugiados em 28% até 2100 — 98 mil solicitações extras por ano na União Europeia. “Se as emissões continuarem seu percurso atual, com as temperaturas aumentando entre 2,6°C e 4,8°C até 2100, as solicitações de asilo poderiam aumentar 188%, com 660 mil solicitações extras a cada ano”, detalhou o relatório.

Resistência


Em 2015, a maioria das nações do mundo concordou em reduzir as emissões de carbono para limitar o aquecimento em 2 º C graus acima dos níveis pré-industriais até o fim do século, mas a recente decisão do presidente americano Donald Trump de retirar o apoio dos Estados Unidos, o segundo maior emissor de carbono do mundo, põe em risco esse objetivo.

Outra preocupação dos autores do estudo é que os refugiados têm enfrentado uma grande onda anti-imigrante. A Alemanha ocupou a maior parte dos requerentes de asilo da Síria e de outros países, mas enfrenta uma revolta entre parte da população preocupada com a perda de empregos. A Hungria chegou a construir um muro para manter os refugiados e influenciar a decisão da Grã-Bretanha de deixar a União Europeia.

Nos Estados Unidos, o presidente Trump foi eleito em parte por sua promessa de erguer um muro para impedir que os imigrantes mexicanos entrassem ilegalmente em solo americano.

Solomon Hsiang, professor de economia da Universidade da Califórnia, destacou que o estudo da Science pode ser interpretado como uma “chamada para despertar”, de extrema importância. “Precisamos construir  instituições e sistemas para gerenciar esse fluxo constante de requerentes de asilo. Como vimos da experiência recente na Europa, há custos enormes, tanto para os refugiados quanto para os seus anfitriões. Devemos planejar com antecedência e nos preparar”, comentou em um comunicado à imprensa o especialista, que não participou do estudo.

Colin Kelley, cientista climático do Instituto Internacional de Pesquisas sobre Clima e Sociedade da Columbia, também elogiou a pesquisa. “Não está claro o quanto mais teremos de aquecimento até o fim do século, mas o estudo demonstra claramente o quanto a mudança climática atua como um multiplicador de ameaças. Países mais ricos podem esperar sentir os efeitos diretos e indiretos da influência do homem no meio ambiente, como as consequências das mudanças climáticas em países mais pobres e menos resilientes”, ressaltou o especialista.

"Essas descobertas serão especialmente importantes para os formuladores de políticas, uma vez que mostram que os impactos climáticos podem ultrapassar as fronteiras de um único país, possivelmente gerando fluxos migratórios mais elevados”
Juan-Carlos Ciscar, especialista sênior em economia das mudanças climáticas, no Centro Comum de Pesquisa da Comissão Europeia
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