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Estado de Minas

Pesquisadores buscam formas alternativas de combater o Alzheimer

Criar exames de detecção precoce da enfermidade e intervenções não vinculadas à ingestão de medicamentos estão entre as apostas


postado em 04/02/2018 08:00 / atualizado em 03/02/2018 21:15

(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)


Já se vão 106 anos desde que o alemão Alois Alzheimer descreveu o caso de August D., um paciente que sofreu perda profunda de memória e alterações no comportamento e que, depois de morto, teve o cérebro estudado. O órgão tinha encolhido, e havia depósitos anormais dentro e ao redor das células nervosas. A “doença peculiar”, como o médico categorizou, tem sido estudada por esse tempo todo, mas, se é verdade que houve avanços na compreensão do mal neurodegenerativo, até hoje, contudo, não se encontrou uma forma de agir diretamente contra ele.
 
 
Os resultados dos testes com drogas antes apontadas como promissoras têm decepcionado a comunidade científica. Na semana passada, mais uma substância com potencial de modificar o curso da doença, o solanezumab, mostrou-se inócua. Enquanto a esperada cura não vem, outras frentes de pesquisas têm obtido bons resultados, na avaliação de médicos. Estudos publicados recentemente conseguiram sucesso na identificação de biomarcadores para detectar o Alzheimer antes que ele comece a se manifestar, aumentando as chances de intervenções capazes de retardar os sintomas. Ao mesmo tempo, abordagens não medicamentosas, como a estimulação cerebral, também parecem desencadear efeitos positivos sobre o declínio cognitivo.

Essas estratégias, ainda experimentais, servem de paliativo para uma doença que afeta 17 milhões de pessoas, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), e que tem sido um quebra-cabeça com peças faltantes para a ciência. Na década de 1980, foram descobertas as principais marcas registradas do Alzheimer: as proteínas beta-amiloide e tau. Eram elas que Alois Alzheimer viu, desordenadas, tomando o cérebro do paciente August D. Em pessoas que não sofrem da doença, as duas substâncias ajudam a proteger e a constituir os neurônios. Mas, por motivos ainda desconhecidos, elas passam a destruir essas mesmas células (veja infográfico).

É de se perguntar por que uma doença descoberta há mais de 100 anos e exaustivamente pesquisada ainda não foi vencida pela medicina. “Em primeiro lugar, talvez, não se tenha uma doença de Alzheimer só. Apesar de os fenômenos serem comuns, talvez existam várias doenças”, diz o neuropsiquiatra geriátrico Otávio Castello, diretor científico da Associação Brasileira de Alzheimer – Regional DF e membro da American Geriatrics Society e Alzheimer’s Association. “Mas o mais importante é que existe uma multiplicidade de aspectos bioquímicos envolvidos na destruição das células. Temos a cascata da beta-amiloide, que é uma via da destruição, e a tau. Imagina que se pense em uma vacina contra a tau deficiente. A gente sabe, hoje, que existem seis tipos de tau no corpo. E aí, contra qual deles fazemos a vacina?”, exemplifica.

Outro problema é a complexidade do órgão-alvo da enfermidade. O cérebro é protegido por uma membrana para manter longe corpos estranhos, como vírus e outros micro-organismos. Porém, ela também dificulta a passagem de medicamentos. “Encontrar drogas que possam passar pela barreira sangue-cérebro é o ‘santo graal’ da descoberta neurológica”, define Rong Xu, que lidera um projeto na universidade norte-americana de Case Western Reserve justamente para encontrar esse “objeto milagroso”. Como não há mais tempo a perder — a OMS estima que, em 2030, quase 12% da população sofra do mal —, a equipe de Xu recebeu US$ 2,8 milhões de financiamento do Instituto Nacional do Envelhecimento dos EUA para pesquisar drogas no mercado que possam também tratar o Alzheimer.

Pistas sanguíneas

Essas particularidades exigem novos testes que detectem o risco da doença décadas antes de ela se instalar, defende Chin Hong Tan, pesquisador da Universidade da Califórnia, em São Francisco. Ele afirma que, hoje, muitos cientistas já acreditam que o Alzheimer não é uma doença do envelhecimento, mas um mal que permanece silencioso por décadas. Essa seria uma das causas de tantas drogas testadas em idosos com demência falharem nos ensaios clínicos. “Temos de identificar aqueles em risco muito antes de mostrarem sintomas de demência. Então, podem ser tratados antes de a doença começar a devastar o cérebro”, justifica.

Um dos tipos de teste mais pesquisados atualmente é o de sangue, pela facilidade de coleta e preço baixo das análises. “Um marcador sanguíneo para o Alzheimer pode ser valioso como ferramenta minimamente invasiva e custo efetivo para se adicionar aos testes genéticos atualmente disponíveis para a doença. A habilidade de detectar o Alzheimer nos estágios muito iniciais não apenas vai fazer com que as pessoas recebam o que há de tratamento o mais cedo possível, como permitir que novas drogas sejam testadas nas pessoas certas e no momento certo”, acredita a neurocientista Carol Routledge, diretora de pesquisa da Alzheimer’s Research, na Inglaterra.

Na semana passada, um estudo do Centro Nacional de Geriatria e Gerontologia de Obu, no Japão, teve boa repercussão entre a comunidade científica. A equipe de Katsuhiko Yanagisawa desenvolveu um biomarcador sanguíneo que detecta, no plasma, concentrações de beta-amiloide indicativas do início da doença, já que esse é o primeiro sinal fisiológico do Alzheimer. Em uma amostra de 121 pessoas, os resultados tiveram índice alto de precisão. Em nota, Yanagisawa lembrou que, hoje, o único exame capaz de identificar as placas de gordura no cérebro com a mesma acurácia é o PET scan, um diagnóstico por imagem que, além de caro, exige a injeção de contraste.

Sinais circadianos

Um outro sinal precoce da doença podem ser alterações no ciclo circadiano, o relógio biológico, segundo um artigo, publicado na quarta-feira, por cientistas da Universidade de Washington. Estudos anteriores da mesma equipe já haviam identificado flutuações nos níveis de beta-amiloide nos períodos de vigília e repouso. À noite, eles diminuem, elevando quando o sono é interrompido ou quando se dorme pouco, diz Yo-El Ju, pesquisadora sênior da equipe.

O trabalho de agora mostra que variações no ciclo circadiano ocorrem muito antes em pessoas com evidências pré-clínicas de Alzheimer no cérebro, embora ainda sem os sintomas, como perda de memória. “No mínimo, essas interrupções no relógio biológico podem servir como biomarcador para a doença pré-clínica”, observa Ju. “Queremos trazer os participantes do estudo de volta no futuro para sabermos se os problemas de sono e no ritmo do relógio biológico aumentaram o risco do Alzheimer ou se foram as alterações cerebrais da doença que provocaram isso.”

“Detectar o Alzheimer nos estágios muito iniciais não apenas vai fazer com que as pessoas recebam o que há de tratamento o mais cedo possível, como permitir que novas drogas sejam testadas nas pessoas certas e no momento certo” 
Carol Routledge, neurocientista e diretora de pesquisa da Alzheimer’s Research
 

Neuromodulação tem resultados promissores

Uma abordagem que tem melhorado o aspecto cognitivo dos pacientes de Alzheimer, de acordo com pesquisas, é a estimulação do cérebro. Diferentes técnicas de modulação da atividade do órgão já foram estudadas, mas, por enquanto, são apenas experimentais. Uma delas é a estimulação magnética transcraniana (EMT), método não invasivo que, no Brasil, vem sendo usado clinicamente para tratamento de depressão e alucinação auditiva.

“Nossos neurônios funcionam por meio de eletricidade, a uma frequência por volta de 5hz. A EMT vai naquele lugar que você quer estimular por qualquer motivo que seja e coloca uma frequência diferente. Através da corrente elétrica do cérebro, você consegue estimular ou inibir qualquer área superficial”, explica o psiquiatra João Armando de Castro Santos, coordenador-geral de eletroconvulsoterapia e EMT do Instituto Castro Santos e membro da Sociedade Internacional de ECT e Neuroestimulação. “Apesar de não se saber exatamente como isso acontece, a EMT tem mostrado bons resultados para a cognição. É uma terapêutica muito viável, mas, como tudo no Alzheimer, precisamos aprimorá-la”, observa o médico.

No Instituto Neurológico do Centro Médico Wexner da Universidade Estadual de Ohio, cientistas estão usando outro tipo de neuromodulação, a estimulação cerebral profunda, para melhorar os aspectos cognitivos dos pacientes de Alzheimer. No tratamento experimental, os voluntários receberam implantes semelhantes ao marcapasso cardiológico nos lobos frontais do cérebro. “Essas regiões são responsáveis por nossa habilidade de solucionar problemas, nos organizar e planejar, e utilizar bons julgamentos. Ao estimulá-las, as habilidades cognitivas e funcionais dos indivíduos com Alzheimer declinam mais lentamente”, conta Douglas Scharre, diretor do centro médico e principal autor do estudo. 

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