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Correio Braziliense

Brasil vive a maior seca dos últimos cinco anos

No Ceará, cerca de 30 cidades estão em racionamento. As que ficam na região de serra não têm reservatórios, dependem de poços que estão praticamente secos

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postado em 18/04/2017 06:00 / atualizado em 17/04/2017 23:57

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press
A população do Ceará vive hoje com somente 8% dos 153 reservatórios em funcionamento no estado, segundo o presidente da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), Eduardo Sávio. O estado, que registrou nos últimos cinco anos a seca mais severa desde 1910, tem apenas 5,9% de água em suas reservas.
 
 
“Estamos operando no limite e, diante desse quadro, o prognóstico da Funceme cumpre sua função, orienta ações e decisões, e também expõe um risco considerável (35%) de termos novamente um período curto de chuvas”, afirmou Sávio. “Isso é muito grave. Vale ressaltar que prever chuvas em torno da média não significa que as afluências serão em torno da média. Existem processos intermediários entre a chuva e o escoamento de água para casa da população. Somente a concentração de chuvas em poucos meses do ano é que permitirá aporte aos reservatórios”, explicou.

A média anual de chuvas no Ceará é de 800mm, enquanto a evaporação anual chega aos 2.000mm. Isso impõe hábitos de consumo condizentes com a natureza semiárida da região, assim como uma busca constante pela eficiência nas transferências entre reservatórios, distribuição de águas em centros urbanas e no uso na irrigação. “Mesmo que aumente a chuva em 2017, não está garantida recarga satisfatória nos reservatórios estratégicos”, lamentou Sávio.
 
 
 
No Ceará, são 30 cidades em racionamento. As que ficam na região de serra não têm reservatórios, dependem de poços que estão praticamente secos. É o caso de Mulungu. A companhia de água dividiu a cidade em duas e intercalou o abastecimento: durante três dias, a água chega para uma parte dos moradores, e ,nos outros três, abastece os moradores do outro lado. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) alerta para “acentuado risco” de esgotamento da água armazenada em represas e açudes nos estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte.

Emergência
O Ministério da Integração Nacional autorizou este mês a liberação de R$ 5,2 milhões para restabelecer os serviços de abastecimento de água em regiões atingidas pelo extenso período de seca e estiagem em Alagoas e Sergipe. Ao todo, 40 municípios serão atendidos pelas ações. Em Alagoas, o repasse de R$ 3,7 milhões vai permitir a implantação de cinco adutoras e a adequação de sistemas de captação de água em reservatórios, com a aquisição de flutuantes e motobombas. Já os recursos destinados ao estado de Sergipe, no valor de R$ 1,5 milhão, vão custear a Operação Carro-Pipa estadual.

Com o objetivo de orientar estrategicamente o governo do Ceará nas ações e decisões que envolvem a utilização da água, a Funceme tem a difícil missão de elaborar, divulgar e fazer com que seja compreendida uma projeção climática. Porém, a tarefa mais complexa é a de conscientizar os consumidores (doméstico, comercial, industrial e agrícola) sobre a real situação e os riscos futuros. De acordo com Sávio, faltam campanhas permanentes de uso consciente da água. “A Califórnia fez campanhas constantes do uso da água e conseguiu economizar 25% de água com essas ações. As pessoas não sabem de onde vem a água que abastece sua casa, não sabem para onde vai o esgoto. Se a gente não informa, elas não vão saber se está chovendo ou não nas áreas de reservatório”, disse.

Informação
Para ele, a relação de parceria com a população é essencial. Sávio defendeu que, com diálogo, é possível explicar as reais necessidades de economia de água. “Dizer que tem de fazer racionamento parece palavrão. Mas não é. É um dos instrumentos de gestão. A crise está aí, nós temos que contar com o racionamento. Isso não deve ser tido como palavrão. Se bem explicado, se bem comunicado, a população entende e faz a sua parte”, argumentou.

O especialista acredita que é preciso trabalhar na construção de uma consciência coletiva quanto ao fim do desperdício. É impossível manter os padrões de consumo definidos observando o comportamento médio das séries hidrológicas. Esses padrões precisam ser revisados diante dos estoques hoje existentes, da incerteza da próxima estação chuvosa e dos riscos de médio e longo prazo em termos de clima. “As crises vão ficar mais severas e frequentes daqui para frente, por isso, é importante estruturar uma política para coordenar melhor as diferentes esferas e parar de só apagar incêndios. É importante que as instituições conversem e encontrem soluções em conjunto”, destacou.

"Perdemos a perspectiva de planejamento a longo prazo, e isso afeta a segurança hídrica. Temos que pensar no modelo de desenvolvimento que queremos pra cada região. Nós estamos trazendo água pra quê? Pra quem?"
Eduardo Sávio Martins, presidente da Funceme
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