Brasileiro perde até R$ 7 mil sem a reforma, diz ministro do Planejamento

Ministro do Planejamento estima que, em cenário de estresse do mercado, elevação do risco-país terá impacto na renda per capita e na dívida do país

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postado em 26/12/2017 06:00 / atualizado em 25/12/2017 23:11

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Um estresse no mercado financeiro, gerado por incertezas na economia brasileira, poderá levar a perdas entre R$ 4,5 mil e R$ 7 mil para cada brasileiro. A estimativa, do ministro do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, Dyogo Oliveira, é baseada em cenários que indicariam uma alta no contrato de swap de default de crédito (CDS, na sigla em inglês), indicador que mede o risco-país, no caso de não aprovação da reforma da Previdência.

“Mais risco-país significa alta no dólar, taxas de juros mais elevadas, custo financeiro das empresas maior, custo de crédito aos consumidores mais alto e isso reduz a renda disponível das pessoas, derruba o consumo e o crescimento”, explica o ministro. Segundo ele, se o CDS, que atualmente está em cerca de 170 pontos, subisse para 300 pontos, o impacto no crescimento seria perda de 1,3 ponto percentual. “Se estamos falando de um crescimento de 3%, ele cairia para 1,7%”, estima.

Nesse cenário, de um CDS de 300 pontos cada brasileiro perderia em termos de renda per capita R$ 2,7 mil. Além disso, a dívida aumentaria R$ 1,7 mil para cada cidadão. Mas, frisa o ministro, não se sabe que nível esse indicador poderia alcançar em um cenário de maior deterioração das expectativas. “O risco-país a gente não sabe para onde vai. Já esteve em 500. E pode voltar paraos  500? Não sabemos”, frisa. Portanto, cada brasileiro pode perder de 
R$ 4,5 mil a R$ 7 mil pela não aprovação da reforma”, calcula.

O Brasil conta hoje com o que o ministro classifica como “prêmio da credibilidade fiscal”, em que algumas variáveis da economia brasileira estão descoladas dos seus fundamentos principais. “Desde o fim do ano passado, houve um descolamento completo. O nosso nível de endividamento continuou crescendo em virtude dos próprios deficits, das dificuldades que ainda temos, e os juros futuros vêm caindo. A mesma coisa aconteceu com o risco país. O nosso deficit nominal, que se correlaciona muito bem com o risco-país, foi mantido em um nível elevado. Já o risco-país começou a cair a partir de meados do ano passado. A mesma coisa se vê na relação do CDS com a inclinação da curva pré (de juros futuros prefixados) do Brasil”, analisa.

Ativos


Segundo Oliveira, as pessoas estão acreditando na política econômica e no governo, e isso está afetando os preços dos ativos no mercado financeiro. “Isso é bom, muito positivo e é o resultado de todo um trabalho de coordenação da política econômica, de ações efetivas, de recuperação da economia e de criação de credibilidade”, destaca.

Na avaliação dele, o risco é de que a não aprovação da Reforma da Previdência possa reverter as expectativas de forma muito rápida. Com a reforma, o nível de dívida do país estacionaria em torno de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) nos próximos anos, o que não seria um cenário confortável em relação ao de outros países, mas não se pode comparar a situação brasileira a de países desenvolvidos. “Japão, Itália, outros países que já têm renda per capita elevada, podem carregar um nível de dívida mais elevado, porque têm custos baixos dessa dívida”, avalia.

Apesar dos riscos, Oliveira considera que o crescimento para 2018 está basicamente definido. “Agora, se a Previdência e as outras reformas avançarem, nós vamos ter um crescimento adicional. Nós temos a opção de sancionar o incremento maior ou de termos um ciclo curto de avanço na atividade e um cenário para 2018 menos brilhante do que podemos de fato ter”, avisa.

Dinheiro na mão

Em 2018, continuará aumentando o volume de recursos na mão do consumidor, o que foi o principal motor da economia em 2017, segundo o ministro do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, Dyogo Oliveira. Para ele, a redução da taxa de juros, o crescimento da renda real e medidas adotadas pelo governo, como a liberação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), disponibilizaram dinheiro aos consumidores, exercendo impacto positivo na economia do país.

“Se a taxa de juros cai, se o custo da dívida das famílias diminui, sobra, portanto, mais dinheiro na mão do consumidor. O que ele faz com isso? Ele coloca esse recurso para girar na economia, e é isso que está provocando o processo de recuperação da atividade produtiva brasileira”, afirma Oliveira.

De acordo com o ministro, a disponibilidade de recursos está aumentando a cada trimestre. “Isso vai perdurar no ano de 2018 e esse é o principal drive (condutor) da economia no momento. A redução dos juros, dos custos financeiros para as empresas e para as famílias, a recuperação da saúde financeira das companhias e dos trabalhadores e o fim do processo de desalavancagem que nós passamos nos últimos dois anos vão colocar as todos em condições de retomarem as atividades de consumo e de investimento”, projeta.

Na avaliação do ministro, o custo menor do dinheiro às famílias possibilitará a reativação da economia em 2018: “É um cenário básico de crescimento na casa de 3%, de recuperação do mercado de trabalho, de aumento do consumo, de inflação controlada e de redução dos custos financeiros das famílias”, conclui.

2019 será o ano da verdade


Em 2018, o Brasil deve sentir os efeitos da inflação baixa, colher os frutos da recuperação da economia e ter a percepção clara do novo ciclo de crescimento. Depois das eleições, no entanto, em 2019, é que o brasileiro viverá o “ano da verdade”. Nele, para continuar o movimento de consolidação da economia e sanar a crise fiscal, a nova equipe do governo eleito terá de negociar os cortes de gastos. “O Brasil não pode se dar ao luxo de ter um presidente medíocre, pois o desafio fiscal é enorme e ele precisará fazer pontes políticas, negociar e negociar”, afirma a economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif.

Em 2017, houve muitas surpresas, tais como a queda da inflação e da taxa Selic e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). “Isso não ocorreu porque saímos de uma recessão tão grande que o natural seria cair. São frutos da queda dos juros e de acertos na política econômica. Quando a gente segue o manual, segue políticas racionais e não inventa muito, a capacidade de reação da economia é muito forte”, enfatiza Zeina.

A crise chegou a um patamar profundo porque houve uma negação coletiva dos problemas fiscais e houve desconhecimento disso no processo eleitoral de 2014. “Quando 2015 chegou, veio com uma grande volatilidade, porque se identificou que o ajuste fiscal era fictício. O país perdeu o grau de investimento e houve o contágio financeiro”, lembra a economista. Só quando ocorreu o enfrentamento da crise fiscal, com reformas, cortes e limites de gastos, é que o país recobrou a confiança.”

Para Zeina, o Brasil sai de sua mais grave crise econômica envelhecido e ainda pobre, com uma sociedade cansada, cujos chefes de família perderam o emprego, e com aumento no número de pobres. “Como o dinheiro acabou, não há alternativa”, aponta Zeina. “Ou a gente enfrenta a reforma previdenciária em 2018 ou encara a crise fiscal nos anos seguintes”, sentencia. “Nossos vizinhos da América Latina estabeleceram a idade mínima na década de 1990. Estamos 20 anos atrasados. Eles também estão envelhecendo, mas não têm a mesma preocupação com o deficit previdenciário”, diz.

O positivo para as reformas e o novo ciclo de crescimento é que o cenário internacional é benigno. “Há um novo ciclo de crescimento mundial, sem grandes pressões inflacionárias que obriguem apertos monetários. Isso contém a volatilidade do dólar, e a estabilidade da taxa de câmbio nos ajuda”, explica.

Sem lua de mel


Para a economista-chefe
da XP Investimentos, Zeina
Latif,  o próximo presidente
não terá lua de mel com o mercado. “Ele terá uma
 agenda de corte de gastos 
que vai desagradar um
 pouco a todo mundo”, preconiza. “O próximo
presidente terá que dizer, rapidinho, a que veio. 
Tomou posse? Vai ter
que agir em seguida”, alerta.
Tags: reforma 
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