Motoristas que usam drogas transportam 50% dos alimentos perecíveis do país

Segundo o coordenador do Programa SOS Estradas, metade do alimento perecível consumido pelos brasileiros é transportado por motoristas usuários de entorpecentes

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postado em 10/05/2017 16:02 / atualizado em 10/05/2017 16:11

Minervino Junior/CB/D.A Press
"O caminhoneiro que usa drogas faz concorrência desleal com quem não usa”
Rodolfo Rizzotto, Coordenador do Programa SOS Estradas
 
O coordenador do Programa SOS Estradas, Rodolfo Rizzotto, alertou sobre a concorrência desleal entre os profissionais e afirmou que o uso de drogas é apenas a ponta do iceberg. Segundo ele, 50% de todo o alimento perecível que o brasileiro consome foi transportado por motoristas usuários de algum tipo de entorpecente. “O caminhoneiro que usa droga é pressionado por um sistema de exploração. É importante saber que ele não é um playboy, é um trabalhador que tem que chegar mais rápido ao seu destino”, disse Rizzotto.
 
 
Ele citou um estudo do programa Volvo de Segurança no Trânsito que mostra que 38% dos acidentes em rodovias federais ocorrem com caminhões e ônibus e 52% dos acidentes com mortes têm o envolvimento deses veículos. As principais causas para isso: excesso de velocidade, sono e o “apagão” causado pelas drogas. “O efeito do remédio passa, ele começa a dormir, sai da pista e capota”, explicou Rizzotto.
 
 

Um outro estudo, que analisou mil acidentes com mortes envolvendo caminhões, entre 2015 e fevereiro de 2017, mostrou que em 82% os caminhoneiros mataram outros caminhoneiros. Quando os acidentes envolveram veículos leves, 97% dos ocupantes dos automóveis morreram e naqueles envolvendo motocicletas, 98% foram a óbito. “A maioria dos caminhoneiros passa mais de 200 dias por ano morando no caminhão, é mal remunerado, não tem condições de descanso adequado, nem paradas para dormir. Além disso, vive os riscos de ser abordado por traficantes, prostitutas e assaltantes nas estradas. É natural que esse sujeito sofra acidentes por usar drogas para suportar a jornada e ganhar um dinheiro extra”, constatou. 

Concorrência

De acordo com Rizzotto, o motorista que usa drogas concorre de forma desleal com quem não usa. “Com certeza, quem vai pegar mais fretes é aquele que usa, pela rapidez nas entregas. E isso vai contribuir para abaixar cada vez mais os valores do frete”. Com a relação próxima do motorista com os traficantes, cresce também o número de roubo de cargas, transporte de armamento e de drogas. “Já vi o caso de um caminhoneiro que transportava mais de nove toneladas de maconha misturadas a 30 toneladas de grãos. Ele recebia R$ 65 mil para transportar a droga e R$ 3 mil pelo frete dos grãos. Isso faz baixar ainda mais o valor do frete, pois o negócio dele passa a ser transportar drogas”, esclarece Rizzotto, acrescentando que a logística do tráfico de entorpecentes se aproveita dessa categoria.

“A empresa que trabalha sério, que faz seu funcionário descansar, está perdendo frete. Nós precisamos nos preocupar se o motorista que vai transportar a carga está trabalhando em condições humanas. E o exame toxicológico dá essa contribuição. Inclusive, desestrutura essa concorrência desleal, onde quem mais mata é beneficiado e os que trabalham honestamente são estimulados a também usar a droga”, avaliou.

Rizzotto chegou a propor um tipo de certificação. “Da mesma forma que quando compramos um móvel de madeira, ele vem com uma certificação de que a madeira é de reflorestamento, poderíamos criar um selo que certificasse que aquela fruta ou verdura que compramos está livre de drogas. Ou seja, que o motorista que transportou a carga não precisou se drogar para cumprir o seu trabalho”. 

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