O próprio Brasil cria entraves às exportações, afirma presidente da AEB

Para José Augusto de Castro, presidente da AEB, o governo tem de fazer reformas para reduzir custos tributários e de produção

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postado em 28/11/2017 06:00 / atualizado em 27/11/2017 21:21

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press


Os maiores obstáculos para o exportador brasileiro são internos. Essa é a avaliação do presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, quando questionado sobre os desafios do setor no país. “Os entraves da exportação brasileira estão no Brasil. No passado, havia muitas barreiras tarifárias. Hoje, elas diminuíram no caso da exportação, mas, internamente, os custos subiram e, simplesmente, não tem como competir”, afirma.

Na opinião de Castro, o governo precisa fazer o dever de casa, realizando reformas estruturais para reduzir os custos tributários e de produção, além de melhorar a infraestrutura logística e ter uma política de comércio exterior mais clara e definida de longo prazo, com menos burocracia. “Hoje, temos políticas de ministérios, mas o que o setor precisa é de política de governo”, ressalta.

A falta dessa política mais estruturante deixou o Brasil comendo poeira no mercado internacional nas últimas décadas. Com base em dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), Castro lembra que, em 1980, o Brasil e a China tinham participação parecida nas exportações globais, de 0,99% e 0,88%, respectivamente. Atualmente, os chineses respondem por 13,8% dos embarques mundiais, e o Brasil continua estacionado em torno de 1%, apesar de figurar entre as 10 maiores economias do planeta.

“Exportamos quantidade e pouca massa cinzenta em sentido de produtos. Os itens básicos crescem continuamente desde 2000 nas nossas exportações, mas o país não consegue ampliar a venda de manufaturados devido à baixa competitividade”, destaca. Ele lembra que a estratégia dos governos anteriores em priorizar o comércio Sul-Sul prejudicou ainda mais a penetração de manufaturados nacionais no exterior. “Escolhemos mercados pequenos, com poder de negociação limitado, e esquecemos os países do Norte”, critica.

Vale lembrar que, em 1980, a participação da manufatura nas exportações era de 58% e hoje está em 37%. “Esse percentual poderia ser pior e não é porque, nos últimos anos, tivemos ajuda das exportações de plataformas de petróleo e, em 2017, a Argentina vem impulsionando a compra de veículos”, frisa. Já a fatia de itens básicos passou de 22% para 47% no mesmo período. “Commodity é muito bem-vinda, porque o valor do dólar exportado é o mesmo do manufaturado, mas a diferença é que quem exporta não tem controle do mercado”, argumenta.

Castro reconhece que o Brasil se depara com muitos obstáculos na exportação de manufaturados para o resto do mundo, especialmente devido à distância. “A logística caríssima e o custo tributário não nos dão fôlego para exportar para mais longe. Por isso, damos um ‘voo de galinha’ para a América do Sul, cuja logística não é tão complicada”, completa.

Dificuldades
 
De acordo com dados apresentados pelo presidente da AEB, as pequenas e médias empresas representam 90% das exportadoras nacionais, mas respondem por apenas 5% da receita total. Essas companhias enfrentam muitas dificuldades para explorar o mercado exterior, principalmente os custos logísticos e tributários, que pesam mais de 35% nas exportações, limitando a competitividade dos produtos nacionais. “A insegurança cambial é maior para os pequenos porque eles não possuem mecanismos de hedge (proteção). Além disso, a imprevisibilidade limita o planejamento de longo prazo para qualquer companhia, inclusive para as grandes”, ressalta.

Poucas empresas de pequeno porte — admite Castro — têm condições de competir no mercado externo, pois não detêm capital para apresentar soluções logísticas ou financiamentos. Uma alternativa apontada pelo especialista para alavancar o setor de pequenas e microexportadoras seria a criação de uma ferramenta como a que os Correios têm para poucas quantidades, o Exporta Fácil Marítimo, destinado a mercadorias acima de 30 quilos. “Os Correios poderiam passar a ser um grande agente de exportação para as pequenas empresas. De navio, não haveria limite de peso”, diz. A ideia foi bem recebida pelo presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Guilherme Afif Domingos. “Hoje, não se escrevem mais cartas de amor, e os Correios precisam mudar sua vocação. A logística é a saída. Eles precisam se reinventar”, emenda Afif Domingos.
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