Premiada cachaça brasileira, Sanhaçu é vendida fora do país

A primeira exportação ocorreu em agosto último, para a Áustria

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postado em 28/11/2017 06:00

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press

Com uma década no mercado, o engenho Sanhaçu produz uma das cachaças mais premiadas do Brasil e começou a exportá-la para a Europa em agosto. Mas, 13 anos atrás, uma das maiores dúvidas do dono da empresa, Oto Barreto Silva, era como conciliar qualidade de vida e sustento da família. A primeira ele encontrou em 1995, ao mudar do Recife para a fazenda do pai, em Chã Grande (PE), a 85km da capital pernambucana. Plantar e vender frutas num ambiente agradável interessava bem mais do que voltar a trabalhar numa indústria siderúrgica, como fazia antes de migrar para o campo. Já a parte orçamentária seria muito mais fácil de garantir na capital, como engenheiro mecânico, profissão na qual se formou há cerca de 20 anos.

Quando o segundo filho de Oto nasceu, em 2004, a balança pendeu para o lado financeiro, já que as vendas de frutas e hortaliças rendiam pouco — daquele momento em diante, menos que o necessário para suprir as necessidades da família. “Além de terem valor agregado muito baixo, quando não as vendíamos nas feiras, elas eram desperdiçadas”, explica. O empresário, a esposa e os, então, dois filhos foram embora para Recife, sabendo que voltariam à fazenda. Só faltava uma boa ideia de como rentabilizar melhor o espaço.

Não demorou. Dois anos e muitas pesquisas depois, a cachaça surgiu como a melhor alternativa: não tem prazo de validade e o valor agregado é muito maior. Enquanto um pé de alface custa R$ 2, a garrafa mais vendida hoje pela empresa da família sai por R$ 42, e a top de linha, R$ 129. Já em 2006, o produto estava decidido, mas o caminho ainda seria longo. “Naquela época, a gente sabia beber cachaça, mas não, vendê-la. O primeiro passo foi a especialização”, conta. Antes de iniciar o negócio, ele passou 15 dias numa fazenda em Minas Gerais, polo de conhecimento em produção de cachaça, para aprender a fazê-la. Desde então, passou a se inscrever em, pelo menos, dois cursos por ano, além de participar de eventos, feiras e seminários sobre o assunto.

Em 2007, ele e dois irmãos juntaram o dinheiro da família e transformaram a pacata fazenda em um engenho que hoje produz mais de 21 mil litros da bebida anualmente. A primeira exportação ocorreu em agosto último, para a Áustria. Há sete anos, o trio também investiu no turismo pedagógico, que consiste em cobrar R$ 15 por visitante para abrir as portas às pessoas interessadas em conhecer a fábrica. O que começou como um incremento nas receitas agora gera, por mês, R$ 15 mil. Hoje, o turismo representa 30% do negócio da Sanhaçu.

Associações

 
A meta é elevar a produção para 40 mil litros até 2021, pensando em destinar metade deles para exportação. Os irmãos sabem que, para isso, precisam de ajuda. “Desde o início, temos consciência de que pequenos nunca vão conseguir crescer sozinhos. Por isso, sempre participamos de associações de produtores rurais de cachaça”, conta Oto. Além de fazer contatos importantes para o crescimento da empresa, era nesses eventos que ele se inteirava sobre programas que poderiam ajudar a Sanhaçu a se tornar uma exportadora, como os oferecidos pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).

Do ano passado para cá, a Sanhaçu participou do Programa de Qualificação para Exportação (Peiex), que procura melhorar o desempenho competitivo no mercado exterior; do Design Export, para a empresa divulgar melhor os atributos aos clientes lá fora; e do programa Inovação e Sustentabilidade nas Cadeias Globais de Valor (ICV Global), que surgiu a partir da parceria entre a ApexBrasil e o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (Gvces). O objetivo deste último é consolidar um novo modelo de exportação da marca Brasil como país inovador, competitivo e sustentável. “Trata de como o mercado exterior enxerga você, e ajuda a entender como transmitir os atributos de competitividade que são o diferencial para o cliente”, ressalta Oto.

Além de capacitarem a Sanhaçu para exportar cachaça, os programas “propiciaram um networking incrível”, comemora o empresário. O resultado: duas exportações previstas para o início de 2018, uma para a França e outra para a Alemanha. “As duas são frutos de contatos feitos por meio dos programas”, frisa. Para quem pretende trilhar o mesmo caminho, ele destaca a importância de haver, além de ajuda de agências e instituições que fomentam esse tipo de expansão, a preocupação com o diferencial. “Na negociação com a Alemanha, uma das primeiras perguntas que o importador fez foi se tínhamos um certificado de carbono compensado, que reconhece o plantio de árvores para neutralizar as próprias emissões”, afirma. “Pouquíssimas empresas têm no Brasil, mas é importante investir nesses pontos. Nosso principal diferencial competitivo é justamente trabalhar para o consumo responsável.”
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