A supremacia sonora do astro Michael Jackson se cristalizou, principalmente, a partir da construção, da manipulação e, num crescente, do desgaste da imagem dele. Indissociável à leitura da cultura pop, cinema e tevê foram veículos fortes para as estripulias visuais, se não com caráter revolucionário, ao menos inovadoras. O flerte inicial com a sétima arte, em
O mágico inesquecível (1978), já veio carimbado com fator polêmico. A dramatização conduzida pelo versátil Sidney Lumet (o mesmo diretor de
Um dia de cão), trouxe Jackson na pele do personagem Espantalho, ao lado de astros negros como Diana Ross e Richard Pryor. Quatro indicações ao Oscar coroaram a ousadia que derivou de musical da Broadway, com uma Dorothy transformada em professora e metida num cenário urbano do Harlem.
Diretor que se aproveitou da imagem de astros decadentes como Sylvester Stallone e assinou revivals pífios do porte de
Os irmãos cara de pau (2000), John Landis construiu a base da plataforma do êxito de Michael: o fenomenal videoclipe
Thriller (1983). Numa parceria repetida oito anos depois, com
Black or white, Landis explorou toda a sorte de possibilidades, com estrutura cinematográfica, necessárias à encenação do rito à la lobisomem. Pesquisador profundo, além de respeitado cineasta, Martin Scorsese se rendeu à tentação de calibrar a trajetória visual do popstar, com
Bad (1987). Codiretor do making of de
Thriller, Jerry Kramer comandou
Moonwalker (1989), uma deslavada compilação de clipes (entre os quais
Man in the mirror), com direito a enxerto de vistosos poderes mágicos num Michael Jackson que, à época, podia se vangloriar de salvar grupos de crianças.
Com senso de oportunismo no mercado audiovisual, o cantor emprestou a voz, por duas vezes, para o personagem Space Michael no videogame
Space Channel 5. A voz de Michael causou dor de cabeça aos produtores de
Os Simpsons, uma vez que o cantor teve de ser creditado (por razões contratuais) como John J. Smith, pairando dúvidas quanto à real participação vocal dele justamente em episódio com personagem que se autoproclamava Michael Jackson.
Se com músicas como
Will you be there e
Beat it, respectivamente, ele ofereceu sonoridade indissociável a filmes como
Free Willy e
De volta para o futuro 2, na televisão, ajudou a marcar época com participação no precário clipe de
We are the world (1985). Ainda na tela pequena, Jackson prestou louvor à diva Elizabeth Taylor em ao menos duas ocasiões. Há 35 anos, também foi marcante a presença dele na cerimônia do Oscar, na qual defendeu a perdedora candidata a melhor canção Ben, usada em filme homônimo que tratou de desastrada amizade entre um menino e um rato.
Absolutamente desfigurado, com longa franja caída no rosto, Jackson fez figuração de luxo em
MIB — Homens de preto, há seis anos. Coroado a suprema derrocada, em 2004,
Missão quase impossível — vigoroso no quesito trash — foi o último registro de Jackson nas telas. Isso, claro, se descontado o fetiche de Tim Burton em
A fantástica fábrica de chocolate, que, para muitos, teve Johnny Depp francamente inspirado pelo ícone pop.
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