Durante o show do Maskavo Roots, uma coisa ficou clara: nem parecia que os sete músicos ali no palco estavam sem tocar juntos havia 13 anos. “Este é o Maskavo Roots, com todas as letras”, anunciou o vocalista Marcelo “Salsicha” Vourakis. Mais à frente, ele brincou: “Somos dinossauros dos anos 1990”. Veteranos sim, mas nada fossilizados. O entrosamento musical entre eles era total. Resultado: a alquimia sonora do grupo — à base de rock, ska e reggae — soou tão viva e atual quanto há 15 anos.
Durante quase uma hora de apresentação, a banda mostrou um apanhado de canções de seu primeiro disco (lançado em 1995 pelo selo Banguela, o mesmo das estreias de Raimundos e Little Quail), como
Besta mole, 45, Blond problem, Far away, Gravidade, Tempestade, uma versão para
Qui nem jiló (de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga) e algumas faixas compostas, mas nunca gravadas pelos sete.
Se para parte do público o Maskavo Roots era uma novidade, para os fãs (muitos concentrados na frente do palco, cantando e dançando durante todo o show) foi uma grande celebração. Nos bastidores, os músicos, felizes, contaram que a ideia de fazer outras reuniões não está descartada, mas também não é unanimidade entre eles.
Pelo visto, a química entre o guitarrista Gabriel Thomaz, o baixista Zé Ovo e o baterista Bacalhau — o trio Little Quail and the Mad Birds — não tem prazo de validade. O espírito brincalhão, os riffs incendiários, a bateria incrivelmente rápida e pesada… tudo estava ali, como nos anos 1990. “Queríamos agradecer aos Paralamas, à Plebe Rude e à Legião Urbana por abrirem o show do Little Quail”, tascou Gabriel.
Entre uma piada e outra de Zé Ovo (que dedicou o show à classe dos roadies, da qual também faz parte), a banda disparou um clássico atrás do outro:
1, 2, 3, 4, Berma is a monster, Samba do Arnesto (versão turbinada para Adoniran Barbosa),
Aquela, Família que briga unida permanece unida, Azarar na W3, Galera do fundão e
Cigarette (que Bacalhau dedicou para Fejão), só para ficar nos mais conhecidos. O clima de festa quase foi interrompido quando um homem invadiu o palco e foi detido pelos seguranças. “Viemos em paz!”, retrucou Zé Ovo.
Já passava de 1h quando os Raimundos subiram ao palco. O público, pouco a pouco, deixava a Esplanada. Aproximadamente duas mil pessoas assistiram o quarteto desfilar hits da carreira (
Nega Jurema, Me lambe, O pão da minha prima, Eu quero ver o oco…). Os mais animados abriram rodas de pogo. “Aqui é a capital do rock. E não adianta que ninguém vai tirar essa majestade”, afirmou o vocalista Digão.
Depois de três representantes do rock brasiliense da década passada, a programação do palco principal chegou aos anos 2000 com os shows de Rafael Cury & the Booze Bros. e Móveis Coloniais de Acaju. Rafael e sua trupe blues-roqueira não desanimaram diante do público minguado e fizeram sua apresentação como de costume — ou seja, com o coração. O clima foi de Woodstock, com direito a uma longa
With a little help from my friends (de Lennon e McCartney) na versão imortalizada por Joe Cocker.
Nem a ameaça de chuva nem a demora para o palco ficar pronto (uma queda de luz deixou tudo ainda mais demorado) tiraram o ânimo dos fãs do Móveis. A banda respondeu à altura, com o pique de sempre. “Antes do nosso show, passou por este palco 30 anos de rock de Brasília. Agora chegou a nossa vez. E são quatro da manhã!”, disse o vocalista André Gonzales. A grade que separava a área vip foi aberta e cerca de 200 pessoas assistiram ao show — que encerrou o Porão do Rock 2009 às 5h. Uma festa que deveria ter sido compartilhada com mais pessoas.
Altos… » A programação da noite de domingo, totalmente dedicada ao rock de Brasília. O Porão acertou com a homenagem à Legião Urbana e as reuniões de bandas aposentadas como Escola de Escândalo e Fallen Angel. A homenagem ao cinquentenário de Brasília rendeu shows históricos do Maskavo Roots e do Little Quail and the Mad Birds.
» O elenco de convidados internacionais, ainda que mirrado, marcou posição. O melhor ficou com os americanos do Eagles of Death Metal. Liderado pelo boa-praça Jesse Hughes, o grupo venceu pelo carisma, bom humor e doses reforçadas de garage rock. Um dos ótimos momentos da edição.
» O Palco Pílulas não atraiu uma multidão, mas chegou a superar a qualidade de som do palco principal, que decepcionou pelas falhas técnicas. Principalmente no sábado, se destacou.
... e baixos » Depois de uma edição pontual em 2008, o Porão voltou a sofrer com atrasos. Sábado, os shows terminaram às 5h. A madrugada de segunda-feira foi desastrosa: o Móveis bateu de frente com com falhas técnicas de todo tipo. Às 4h da madrugada.
» Os problemas técnicos no palco principal provocaram momentos constrangedores. Interferências mil.
» A curadoria do festival precisa, urgentemente, abrir os olhos para o que acontece na cena brasiliense — a geração 2000 saiu prejudicada da festa no palco principal.
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