Diversão e Arte

Perdão, mister Fiel revela a dramática história sobre o assassinato de um operário

Ricardo Daehn
postado em 19/11/2009 08:55
Cena do documentário Perdão, mister Fiel: episódio esquecido depois do assassinato de Vladimir HerzogUm interessante paralelo vem à tona quando o estreante Jorge Oliveira, diretor de Perdão, mister Fiel, analisa o cenário propiciado pelo 42; Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Se, por um lado, o evento celebra a figura de um político bem-sucedido como Lula ; que veio da base operária na qual o comunista Manoel Fiel Filho militava ;, por outro, há uma sensação de vazio, com a ausência de Fiel Filho, morto no período da ditadura. ;Um é o operário que sobreviveu a todas as adversidades políticas e se tornou o presidente da República, enquanto, o outro, também metalúrgico, que não sobreviveu. Em função da lamentável morte dele, o Brasil respirou a liberdade;, observa o cineasta e repórter que, aos 61 anos, já foi diretor da Fenaj e do Sindicato dos Jornalistas.

Em meio a tanto realismo e levantamento de dados, é curioso que o diretor alagoano tenha adotado duas vias para a produção: além do didatismo ; ;que é importante senão você não pode confundir mais a cabeça de pessoas que já foram confundidas; ;, ele aplicou um lastro de 25 minutos de dramatização no documentário. ;Pela ordem, veio a pesquisa, roteiro e depois as encenações. Tivemos 55 horas de depoimentos, com participação de 31 pessoas. Aproveitamos todas as entrevistas, pelo trabalho pontual de planejamento. No final, tive quase quatro horas de material para retrabalhar;, explica. Além da ópera na trilha, com direito a três sopranos, o filme traz encenações, em preto e branco (mas com detalhes em cor, como o azul no macacão do operário), numa opção estética do ex- fotojornalista.

[SAIBAMAIS]Pretendendo uma aderência na memória dos espectadores, os cenários dos depoimentos são pretos, ;numa homenagem às famílias enlutadas dos presos, desaparecidos e mortos políticos;. A porção ;herói anônimo; atrelada a Manoel Fiel Filho se justifica, se comparada à mobilização levantada no assassinato do jornalista Vladimir Herzog, três meses antes, nas mesmas dependências do DOI-Codi. ;Quanto ao Fiel, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo se omitiu, inclusive. Houve uma missa simples e ele ficou apagado na história;, comenta Jorge Oliveira. No documentário, pela primeira vez, há registro com Antônio Flores (de codinome Fiori, e que morreu em novembro de 2008), o colega de fábrica de Fiel, que era o verdadeiro alvo da polícia, em 1976. ;Em suma, ele diz: ;O Fiel não morreu no meu lugar, ele era um militante do Partido Comunista;;, relembra Oliveira.

Simpatizante comunista, sem filiação partidária, o cineasta levantou cerca de 70% da produção (orçada em R$ 800 mil), num esforço pessoal. ;Fui preso e torturado, o que também me leva para os tons biográficos no filme. Em três circunstâncias, por investir em matérias mais ousadas, fui enquadrado na Lei de Segurança Nacional, no período dos anos 1970;, comenta Jorge Oliveira. Perdão, mister Fiel demarca uma vitória, diante da murcha cena do jornalismo televisivo, numa teoria pessoal do diretor. ;Os documentários estão em alta, até por ocuparem um espaço daquilo que não é mais dito na tevê. A televisão se transformou em veículo culinário. Se a gente combateu a censura do arbítrio, de forma unida, agora, sem a censura oficial, chegou a econômica;, avalia.

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