diversão e arte

Ator que faz o papel de Lula no filme dirigido pelo cineasta Fábio Barreto sonha com novos projetos Rui Ricardo Dias volta ao teatro e pensa em mais cinema e também em televisão

Ullisses Campbell

Publicação: 01/01/2010 07:01 Atualização: 01/01/2010 14:35

São Paulo - Até hoje os moradores simples da cidadezinha mineira Santa Maria do Suaçuí ainda não acreditam que um de seus filhos ilustres vai virar presidente da República nas telas do cinema. Na verdade, o ator que vive Luiz Inácio Lula da Silva não chega sequer a fundar o PT, já que a história contada no filme acaba junto com a vida de dona Lindu, mãe do presidente. No entanto, a carreira artística de Rui Ricardo Dias, 31 anos, ator que interpreta o presidente na vida adulta, ganhou um fôlego que ainda vai dar o que falar. Aplicado, ele mergulhou no universo do sindicalismo em São Bernardo do Campo (SP) e precisou engordar 10kg para o papel que servirá de divisor de águas na sua vida artística.

Apesar de ser o primeiro trabalho de projeção nacional, Rui é um veterano. Atua nos palcos paulistas há 15 anos, dá aulas de teatro e é elogiado por nomes consagrados da arte de interpretar, como o ator e diretor paraense Cacá Carvalho. Para conseguir viver Lula, teve de vencer a concorrência. Mais de 500 atores foram testados para o papel, inclusive Wagner Moura, o capitão Nascimento de Tropa de elite. "Tive muita sorte", diz, modesto.

Formado em teatro na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Rui espera a estreia do filme para conquistar a tão sonhada projeção nacional que todo ator almeja. Sonha que, com ela, outras portas se abram para trabalhos no cinema e na televisão. "Mas, se isso não acontecer, tudo bem. Minha vida sempre será o teatro", destaca. Veja trechos da entrevista que ele deu ao Correio.

» Ponto a ponto Rui Ricardo Dias

O papel
Fiz um teste para um personagem bem pequeno. Ele é sindicalista e aparece só final do filme, com poucas falas. Fiz um vídeo numa produtora e enviaram para o diretor Fábio Barreto. Ele me viu e gostou logo de cara. A produção de elenco já havia testado mais de 500 atores para fazer o Lula, incluindo o Wagner Moura. Fui escolhido porque o meu trabalho fez a diferença, mas também porque tive um golpe de sorte, já que o meu vídeo chegou ao Fábio.


Teatro
Minha base de ator está toda no teatro. Sempre quis fazer cinema e adorei a experiência, mas vou voltar aos palcos em 2010 num monólogo. Também gosto de fazer televisão, mas não consigo viver longe do teatro, que é onde eu me realizo. Acho que cada um dos meios tem uma pegada diferente e cada uma dessas linhas de trabalho oferece facilidades e dificuldades distintas. Mas sou um apaixonado por teatro.


Cenas
O momento que mais me emocionou é o discurso que o Lula faz no estádio. Ele não esperava tanta gente e não havia microfone para falar com todo aquele pessoal. Então, ele falava uma frase e ela era repetida pelos demais até chegar ao lugar mais distante. A cena foi gravada com poucos figurantes, mas as pessoas foram multiplicadas com efeitos de computação gráfica. O resultado final foi brilhante, me fez chorar. A cena em que o Lula perde a primeira esposa também foi marcante.


Receio
Tive um grande receio de interpretar o presidente. Primeiro, porque ele é um personagem de uma magnitude muito grande. Segundo, porque é um personagem que está vivo e é real. Ou seja, a realidade está aí para mostrar pra mim que o que eu fiz pode estar muito bom ou muito ruim. Graças a Deus, o presidente viu e gostou. Se fosse um personagem fictício, seria bem mais fácil, porque eu poderia incrementá-lo. Procurei fazer o Lula do jeito que eu sempre o via. Pus pequenos gestuais.


Personagem
Procurei não pensar sobre isso durante as filmagens. Quando o Fábio Barreto me anunciou como o ator escolhido para fazer o Lula, desliguei total. Se eu pensasse na importância daquele homem, não conseguiria trabalhar. Tentei não refletir muito sobre essa responsabilidade. A ficha só caiu mesmo que aquele homem que eu fazia era o cara mais importante do país quando as filmagens acabaram. No total, foram dois meses de preparação e outros dois meses de filmagens.


Tensão
Sem dúvida alguma, foi quando eu assisti ao filme pela primeira vez, na Sala Villa-Lobos, no Festival de Cinema de Brasília. Meu coração bateu muito forte porque o Fábio Barreto não deixa os atores verem nenhuma cena durante as filmagens e o processo de montagem. Não havia me visto em momento algum na telona. Quando vi o trailer, me emocionei bastante porque eu não tinha noção de nada sobre o filme. Quando chegou aquela estreia, quase não aguentei.


Um só papel
Eu sei que há esse risco porque é comum com os atores desconhecidos do grande público que fazem papel marcante no cinema. Mas não vou deixar que isso aconteça comigo. Espero interpretar um outro grande personagem em breve para "sepultar" o Lula. Não tenho muito essa preocupação, porque sei que sou um bom ator e estou de volta ao teatro, onde ninguém vai me associar a esse personagem. Eu quero que as pessoas me convidem para outros trabalhos, para que eu possa mostrar outros personagens com outras características e outras forças dramáticas. Não tenho receio de ter feito o Lula no cinema. Qualquer outro ator ficaria feliz ao ganhar esse papel.


Aparência
Não me acho parecido com o Lula fisicamente. Quando o Fábio Barreto bateu o martelo dizendo que o papel era meu, fiquei todo contente. Mas achei estranho porque os meus amigos diziam que eu não tinha nada a ver com a figura do presidente. Fiquei encucado, fui me olhar no espelho e achei que eles tinham razão. Aí eu pensei: "Esse pessoal está maluco, porra, não tenho nada a ver com o Lula". Só depois.


Transformação
Aos poucos, fui engordando, deixando a barba crescer e me transformando no Lula. O trabalho de caracterização foi muito bom. Depois de finalizado, fiquei assustado com a semelhança. Tive de engordar 10kg para o papel, ou seja, comi bastante seguindo a orientação de uma nutricionista. Graças a Deus voltei para os 79kg que eu tinha antes de pegar o papel. Foi um período de grande sacrifício ganhar e principalmente perder esses quilos todos.


Cachê
Não posso revelar quanto recebi pelo filme, mas posso dizer que o dinheiro foi bom. Sem dúvida, foi o maior cachê que recebi em toda a minha carreira. Com o dinheiro, não comprei nenhum bem. Apenas paguei minhas contas, usei no meu dia a dia.


Filme
Graças a Deus a crítica tem falado bem do meu trabalho. Na minha opinião, o filme não é político. Mas quando se fala do cara mais popular do mundo, é impossível não ter conotação política. Acontece que o Lula não é candidato a nada e o filme é quem pega carona na popularidade dele. No filme, a vida da mãe do Lula é mais importante do que a parte política. Para se ter uma idéia, o longa nem fala da fundação do PT. Para as pessoas que pensam que o filme vai trazer votos para a candidata do Lula, tenho um recado: cuidado com ele e não com o filme, pois quem tem 80% de popularidade pode passar voto para quem ele quiser. Ele não precisa do filme para nada. Por último, quero dizer que não filiado a partido algum nem apoio nenhum candidato.


Presidente
Logo depois de assistir à sessão, em São Bernardo do Campo, o Lula se aproximou de mim, me deu um abraço e tirou uma foto. Estava visivelmente emocionado. Mas ele não disse uma palavra sequer. Afastou-se e conversou com o Fábio Barreto. Antes das filmagens, não tive nenhum contato com o Lula. Mas li uma nota em que ele teria dito que, na juventude, ele era mais bonito do que o mostrado no filme.


Importância
Esse papel vai ser um divisor de águas na minha carreira porque me tornarei reconhecido nacionalmente. Isso vai projetar a minha imagem e fará com que outras portas se abram. Pelo menos é isso que eu espero. Mas, se nada disso acontecer, tenho um trabalho sólido no teatro em São Paulo e pretendo continuar com ele. Tudo o que conquistei até hoje na vida, inclusive o papel do Lula, foi graças ao meu trabalho no teatro.


Eleição
Não vou falar em quem eu votei nas eleições passadas porque isso vai dar margem para uma discussão política que não é boa para o filme. Posso dizer que eu já tinha uma simpatia pelo Lula porque ele tem uma história de vida incrível e já conhecia o seu passado bem antes de ser convidado para interpretá-lo no cinema.


Próxima peça
Vou encenar um monólogo baseado numa peça de Dostoievski (Escritor russo, considerado um dos maiores romancistas de todos os tempos). Não tenho o roteiro em mãos, por isso não posso adiantar muita coisa. Será uma novela baseada num romance desconhecido. Por enquanto, será encenada apenas em São Paulo.

Celebridade
Participar de pré-estreias e dar entrevistas ainda é algo novo para mim. Posso dizer que estou curtindo, mas ainda não sou apontado nas ruas como celebridade, porque o filme ainda não estreou nacionalmente. Tenho recebido muitos parabéns pelo trabalho. Não sabia que o cinema era tão respeitado no meio artístico. Estou super feliz de ter participado desse projeto.

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