Uma mistura de fúria messiânica com nostalgia desenfreada marcou o show da banda norte-americana Guns N’ Roses em Brasília, domingo, no ginásio Nilson Nelson. Cerca de 13 mil pessoas foram ao centro esportivo para ver de perto o ídolo Axl Rose e sua banda. A apresentação iniciou no país a turnê do disco Chinese democracy (lançado em 2008). Acostumado com atrações de porte médio, às vezes ilhadas dentro do circuito de festivais, o público brasiliense dessa vez se surpreendeu com a grandiosidade de um espetáculo de quase três horas de duração pontuado por disparos flamejantes, estrondosas explosões, efeitos visuais alucinantes e uma performance empolgante. Enfim, um show do tamanho do ego do vocalista Axl Rose.
A movimentação no estacionamento do Ginásio Nilson Nelson começou cedo. Por volta das 17h, o local já estava tomado por carros e uma multidão considerável circulava entre barraquinhas de alimentos, vendedores ambulantes e dezenas de camisas da banda californiana estendidas em varais. Às 17h30, os portões foram abertos para a entrada da legião de fãs que agregava pessoas de diferentes gerações.
Bastante empolgado, o casal José Machado, 55 anos, e Josi Politi, 47 anos, fez questão de levar toda a família ao concerto de rock. “Vi a apresentação deles no Rock in Rio, achei maravilhoso, quis que a família não perdesse esse momento histórico por nada”, destacou Josi, minutos antes do show. “Meus filhos passaram a gostar do Guns N’ Roses graças a um CD que gravei para eles”, diz Machado, orgulhoso.
Às 20h30, a banda local Khallice subiu ao palco. Formada por músicos virtuosos, a banda mostrou seu prog-metal em um show curto que arrancou aplausos dos presentes (já naquele momento, estimado em aproximadamente 13 mil pessoas).
Sebastian Bach entrou em cena (às 21h30) disposto a ganhar o público. E conseguiu. O ex-vocalista do também americano Skid Row se mostrou tão simpático quanto o personagem que interpretou no seriado Gilmore girls. Carismático, ele falou muito com a plateia entre as músicas (“Hoje, Brasília será a capital do rock ‘n’ roll!”, bradou em português-ianque), puxou palmas, girou seu microfone como um helicóptero e aumentou a expectativa para a principal atração da noite: “Vocês estão prontos para o Guns N’ Roses?!” O repertório foi dividido entre as músicas de seu mais recente trabalho solo (Angel down) e os hits do Skid Row.
PaciênciaPatience, baladão do Guns que diz “devemos ter um pouco de paciência”, caiu como uma luva como tema da espera pela qual o público teve de passar entre o fim do show de Sebastian Bach (às 22h45) e o começo do Guns N’ Roses (00h13). Nesse meio tempo, brigas foram testemunhadas no meio da pista. Também se ouviram muitas vaias, sinal do descontentamento do público pela demora. Vindo direto do Rio de Janeiro, Axl Rose — que desembarcou no Brasil no sábado — subiu ao palco minutos depois de chegar ao Nilson Nelson. Segundo informações da produção local, o cantor de 48 anos teria saído da cidade maravilhosa em jatinho fretado às 18h30. “Registra o desrespeito, aí!”, diziam muitos fãs, descontentes com o atraso.
Fogos de artifício e explosões saudaram a entrada de Axl e banda no palco. O Nilson Nelson veio abaixo. Durante as duas horas e meia de show, o que se viu foi uma apresentação extremamente competente — em parte graças ao sexteto formado pelos guitarristas DJ Ashba, Ron Thal e Richard Fortus, o baixista Tommy Stinson, o tecladista Dizzy Reed (remanescente da última formação clássica da banda) e o baterista Frank Ferrer. Músicos de alto nível que suaram a camisa e fizeram bonito em cima do palco.
Vizinhos no Cruzeiro, os amigos Felipe Henrique dos Santos, 12 anos, e Engo Ferreira Melo, 13, marcaram encontro na Área Premium do show. No ginásio desde as 20h30, não disfarçaram o cansaço pela demora da entrada de Axl Rose e companhia no palco. Mas garantem que a espera valeu a pena. “Aprendi a gostar do Guns N’ Roses jogando guitar hero”, entrega Felipe.
Axl não chega a ser antipático, mas pouco dirige a palavra às pessoas. Difícil também não notar o quanto o vocalista soa excêntrico. As trocas de camisa, chapéus e bandanas foram constantes. Volta e meia o músico sumia do palco. O que será que ele fazia nos bastidores (além de trocar de figurino)? Quando o cantor aparecia em close nos telões, revelava-se um olhar estranho, meio vazio, como se o músico estivesse funcionando no automático. Axl só não conseguiu conter um sorriso quando viu a enorme bandeira de boas-vindas feita por fãs da banda estendidas momentos antes do fim do show, às 2h40 de segunda. Antes de deixar o palco, agradeceu ao público e pediu desculpas bem-humoradas pelo atraso:”Sei que amanhã muita gente tem de levantar cedo para ir à escola.”
Vocalista de uma banda cover de Guns N’ Roses em Goiânia (chamada Felzen), Vladimir Luz, 22 anos, tinha todas as letras do grupo na ponta da língua. Deslizando na pista emulando os passos do ídolo, ele deixou que a emoção tomasse conta ao logo das quase três horas de show. Garante que quer mais. “Com exceção de Porto Alegre, vou em todos os outros shows”, contou o fã, que não escondeu as lágrimas ao som da balada November rain. “O Guns é a banda do meu coração, ouço desde os 11 anos de idade. Eu tinha os cabelos do tamanho do Axl, só que pretos. Estar aqui é um sonho”, continuou.
Não faltaram fãs emocionados no show. Mas mesmo eles devem ter percebido que o roteiro da apresentação seguiu em ritmo de montanha-russa. Nos hits, a galera cantava junto com gosto. Mas durante as músicas do disco Chinese democracy, só os mais fiéis acompanhavam a banda. Era um anticlimax atrás do outro, chegando a tornar o show maçante. Para piorar, o som ótimo na Área Premium, soava muito embolado nas arquibancadas (leia ao lado). Mal se ouvia a voz de Axl Rose.
Oscilações a parte, a banda engatou uma sequência final matadora, com Sweet child o’ mine, You could be mine, November rain, Knockin’ on heavens door (Bob Dylan), Shackler’s revenge, Patience, Nightrain e, no bis, Madagascar e Paradise city.
Além do show na memória, teve gente que voltou para casa com um souvenir a mais. Caso de João Antônio Bias, 21 anos. O rapaz conseguiu façanha maior do que achar agulha em palheiro. Entre a sujeira de papel picado, restos de bebidas, garrafas de plástico e latas amassadas, ele enxergou uma pequena palheta cinza jogada por um dos guitarristas da banda. O minúsculo objeto já virou um talismã para o futuro músico. “Amanhã (ontem) mesmo vou comprar uma guitarra nova para estrear a palheta”.
Agenda de shows na cidade» 16 de março, A-ha (Centro de Convenções)
» 21 de março, Franz Ferdinand (Marina Hall)
» 22 de março, B.B. King (Centro de Convenções)
» 17 de abril, Moby, (Museu da República)
» 18 de abril, Simply Red (Pontão do Lago)
Set list- Chinese democracy
- Welcome to the jungle
- It’s so Easy
- Mr. Brownstone
- Sorry
- Better
- Solo do guitarrista Richard Fortus (com o tema de James Bond)
- Live and let die (Paul McCartney)
- If the world
- Rocket queen
- Solo do tecladista Dizzy Reed (com Ziggy Stardust, de David Bowie)
- Street of dreams
- Scraped
- Solo de DJ Ashba (guitarrista)
- Sweet child o’ mine
- You could be mine
- Solo de Axl Rose (com trecho de Another brick on the wall, do Pink Floyd)
- November rain
- Solo do guitarrista Ron Thal (com o tema da Pantera Cor-de-Rosa)
- Knockin’ on heavens door (Bob Dylan)
- Shackler’s revenge
- Patience
- Nightrain
- Bis
- Madagascar
- Paradise city
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Autor: Gabriella Aparecida Bijos
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