Diversão e Arte

Renato Russo influenciou toda uma geração com seus versos e postura rock ' n' roll

postado em 27/03/2010 10:49 / atualizado em 22/09/2020 17:49

Às vezes, tomado por sinceridade desconcertante, Renato Russo polemizava com declarações contundentes acerca de temas variados. Versava com naturalidade de heroína a Jesus, mas também dava um tom enigmático, quase ingênuo, à sua retórica fluente e verborrágica. Numa entrevista à uma revista semanal em abril de 1994, dois anos antes de sua morte, respondeu assim à pergunta se aos 50 anos ainda estaria compondo e fazendo sucesso. ;Não sei, não sei nem mesmo o que vou estar fazendo daqui a três dias;, resumiu, irônico.

Passados 14 anos de sua morte, uma certeza perdura. O líder da Legião Urbana é venerador por fãs e ainda faz sucesso. Muito sucesso. Um dos responsáveis pela popularização do rock nacional nos anos 1980, ao lado da turma da Colina, o artista carioca, que escolheu Brasília como sua cidade do coração, completaria 50 anos hoje, se estivesse vivo. ;Ele era quatro anos mais velho do que eu, mas aos poucos fui percebendo quem o Renato era;, lembra Dinho, vocalista do Capital Inicial. ;Um cara de uma inspiração e talento extraordinários, uma coisa muito acima do resto, era uma ;aberração da natureza;;, define o vocalista. ;Às vezes, eu fico pensando quando é que a gente vai ter um outro Renato Russo. Mesmo com tanta gente genial por aí, acho que hoje não tem interesse das pessoas de fazer música para o país como ele tinha. Ele tinha ambição;, faz coro o líder do Skank, Samuel Rosa.

 

Ouça a entrevista com Samuel Rosa, vocalista do Skank, sobre Renato Russo e a Legião Urbana

 

Polarizador de ideias, letrista talentoso e dono de uma voz inconfundível, o cantor é reverenciado a partir de hoje com uma série de homenagens, que vão desde programas em rádios e televisão, shows pela cidade, a projetos especiais, como o lançamento, pela EMI, gravadora de sua banda, do CD Renato Russo: duetos. Idealizado pelo jornalista e produtor Marcelo Fróes, a empreitada conta com 15 gravações do artista com amigos que admirava ou mantinha relações de amizade. ;O Renato não precisa de tributo, não precisa de homenagem, não precisa de resgate. Na verdade, ele nunca foi embora, está aí forte, direto o tempo todo, o dia inteiro nas rádios;, observa Marcelo Fróes, que teve a ideia do projeto há cinco anos.

[SAIBAMAIS]Os convidados foram escolhidos pelo produtor, que também definiu quem iria cantar o quê do material que garimpou. Ficou a cargo da mineira Fernanda Takai abrir o disco com uma música gravada pelo líder da Legião Urbana em 1995 e inédita há 15 anos: Like a lover (O cantador). ;Fiquei feliz pelo convite para cantar justamente a faixa inédita;, conta Takai. ;Quando gravei minha voz queria que soasse bem próxima da dele, um dueto realmente, mesmo que separado por tanto tempo e pela ausência física de Renato. Então, desenhei uma segunda voz que nos une em alguns momentos;, detalha Takai.

Outra canção considerada importante por Fróes é Celeste, escrita por Renato e Marisa Monte em 1993. Resgatada de uma fita DAT danificada, o registro chama atenção por desmembrar numa outra canção desenvolvida pelo cantor, Soul Parsifal, do disco A tempestade, último trabalho de estúdio da Legião Urbana. ;Celeste é, na verdade, uma versão embrionária de Soul Parsifal. Considero esse registro inédito porque são canções diferentes, inclusive as letras. Soul Parsifal é uma música triste, Celeste é uma música alegre;, atesta o produtor.

 

Confira a entrevista com Dinho Ouro-Preto, vocalista da Capital Inicial

 

Parceiros
As gravações datam de períodos e fases diferentes do cantor e surgem em Duetos de duas maneiras: por meio de registros originais realizados por Renato e os parceiros ou virtualmente, com vozes trabalhadas separadamente e gravadas no fim de 2009. Vão desde uma apresentação histórica do cantor com a paulista Cida Moreira, de Summertime, na Sala Funarte, em 1984 ; um ano antes da Legião gravar o primeiro disco ;, passando pela gravação de um especial no Teatro Fênix (TV Globo), com Herbert Vianna, em 1988, cantando Nada por mim, até um inusitado encontro com o baiano Dorival Caymmi num especial da TV Manchete, em 1994. Os dois cantam juntos Só louco, sucesso do eterno baiano. Outros convidados são a paraense Leila Pinheiro (La solitudine) e a brasiliense Célia Porto, que integra o disco produzido por Clemente Magalhães, cantando Come fa un; onda (Como uma onda), versão italiana para o sucesso da dupla Lulu Santos e Nelson Motta.

;A gravação ficou bem simples e bonita, gostei de ter feito. Claro que a presença do Renato era só virtual, mas a gente sente ainda mais porque se sabe que ele tratava as coisas dele com carinho, ele era bastante profissional e exigente;, comenta Célia. ;Ele falava que achava legal outros cantores gravarem suas músicas em estilos diferentes porque era uma forma de atingir outros corações, e é verdade;, emenda.


Nunca mais houve alguém parecido e, para ser sincero, nunca mais haverá. Ele foi uma coisa única. Nunca mais haverá outro Bob Dylan, por mais talentosos que sejam outros letristas. Nunca mais haverá um outro cara como o Renato. Ele é insubstituível;
Dinho Ouro-Preto, vocalista do Capital Inicial

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