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Publicação: 27/03/2010 11:07 Atualização:
Rio de Janeiro, dezembro de 1986. Durante a performance da Legião Urbana no programa Chico & Caetano, as câmeras flagram os dois cantores-apresentadores, olhares perplexos, acompanhando a dança característica — meio Ian Curtis, meio Jim Morrison, todo Renato Russo — do vocalista em Ainda é cedo. Poucos instantes da música brasileira são tão emblemáticos. Ali, o rock nacional ocupa o centro do palco; aos medalhões da MPB só resta observar, comentar e, no final, aplaudir. Em momento raramente visto na trajetória da cultura brasileira e jamais repetido, as diferenças geracionais se tornam evidentes: há respeito, mas há distanciamento. Tudo porque, com a ditadura militar e a instauração do “vazio cultural” nos anos 1970 por conta da censura e do desbunde, alguma coisa havia se quebrado no percurso da música jovem. Coube a Renato Russo encabeçar a reconstrução dessa ponte entre artistas e público — só que à sua maneira, sem olhar para o retrovisor de forma reverente ou submissa.
No artigo “Roqueiros colonizados mas atentos, conscientes”, que escreveu em 1983, Renato já dava pistas de como ocorrera o desvio de rota: “Toda a informação que nos foi dirigida nos levou a assimilar um outro estilo, que consideramos tão nosso quanto um sambista carioca considera o seu samba: são 18 anos de cultura alienígena”. Em outras palavras, o ideário contido nos versos de Geração coca-cola. E essa formação “alienígena” foi decisiva para que, até hoje, sua trajetória e de outras bandas brasileiras dos anos 1980 sejam consideradas, ainda que reservadamente, um corpo estranho na chamada “linha evolutiva” da MPB. Ao contrário do que ocorreu com outros expoentes de seu tempo, como Cazuza, Arnaldo Antunes e Herbert Vianna, todos devidamente absorvidos. E do que seria retomado com força nos anos 1990 e 2000 por Chico Science & Nação Zumbi, Mundo Livre S/A e Los Hermanos, discípulos assumidos de Gilberto Gil, Jorge Ben e Chico Buarque.
A verdade é que, ao longo da carreira, Renato Russo se comunicou com maior desenvoltura com os fãs do que com os colegas músicos, com a mídia do eixo Rio-São Paulo e demais formadores de opinião. Talvez pelo fato de sua força se concentrar na poética e nem tanto na musicalidade — aos tímpanos dos puristas, demasiadamente simples e assemelhada ao formato consagrado no rock anglo-saxão. Mesmo com o traço inconfundível de peculiaridade (ou exatamente por causa disso), a Legião Urbana foi a banda mais bem-sucedida da história do rock nacional: mais de 10 milhões de discos vendidos.
Carlos Marcelo é editor executivo do Correio e autor do livro Renato Russo – O filho da revolução (Agir, 2009)
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