No script de todo cineasta iniciante, algumas sensações são inevitáveis: insegurança, frio na barriga, certo desconforto. Nada mais natural. O primeiro filme é um rito de passagem que, espinhoso, costuma testar os limites de quem se aventura a enfrentá-lo. Aos mais dedicados, no entanto, o risco pode se transformar em paixão — e compromisso. É exatamente esse o caso de Cláudio Moraes, Danyella Proença e Jackeline Salomão, que estreiam na direção com curtas-metragens que — se os planos do trio derem certo — serão exibidos na próxima edição do 43º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. “É o primeiro de muitos”, anima-se Cláudio.
 | |
Eles compartilham uma ansiedade: têm pressa para concluir as produções a tempo de inscrevê-las na mostra, que será realizada de 23 a 30 de novembro. Apesar da coincidência, defendem projetos de gêneros diferentes. A ficção é o norte da comédia O golpe de mestre, de Cláudio. Já Braxília, de Danyella, é um documentário poético sobre Nicolas Behr. No meio do caminho, Um pouco de dois flerta com os dois gêneros — e é dirigido por duas cineastas, Jackeline e Danielle Araújo, que está no segundo curta. “Um dos focos dos cineastas de Brasília é participar do festival. É a nossa principal referência. E um sonho”, resume Jackeline. O Correio conta as histórias dessas estreias tão brasilienses, todas em fase de conclusão.
Poesia no concretoO cinema não pediu licença: inesperadamente, bagunçou o cotidiano de Danyella Proença, 26 anos. Quando começou a planejar o curta-metragem Braxília, ela ainda fazia o curso de graduação em jornalismo. O projeto foi aprovado em edital do Polo de Cinema do DF e ganhou R$ 35 mil. Mas a verba só saiu dois anos depois, quando Danyella começava o mestrado. “Nesse intervalo, fiquei desiludida com o cinema. O filme estava num limbo”, conta. Nada que a poesia não curasse. O documentário voltou à vida graças à persistência da cineasta e do estímulo do personagem principal: o poeta Nicolas Behr.
“O filme começou há muito, muito tempo. Eu estava no Beirute e um amigo leu uma poesia do Nicolas. Foi um choque”, lembra. Em 2004, quando já estudava na Universidade de Brasília (UnB), resolveu desenvolver um projeto de documentário sobre o escritor. “Fiquei encantada com a força dos textos dele”, conta. Tentou inscrevê-lo no DocTV (do Ministério da Cultura), mas ficou em terceiro lugar. Foi então que venceu o concurso do Polo para novos diretores. “Saí com Nicolas pela cidade à procura de uma Brasília imaginária, que ele criou. A ‘Braxília’”, conta.
O resultado da “jornada” é um documentário livre, que flana no concreto. “Fizemos intervenções urbanas, Nicolas escreveu um poema numa escada perto do Teatro Nacional, encontrou amigos”, descreve. “O documentário se entregou ao desconhecido. Tem gente que chama de ficção, já que, em alguns momentos, o Nicolas foi um pouco ator. Mas nem sei que nome dar. Um passeio, talvez”, arrisca. A Dado Villa-Lobos, ex-guitarrista da Legião Urbana, Danyella entregou um DVD do filme. O convite deu certo. “Ele está escrevendo a trilha. Mais uma surpresa maravilhosa”, comemora a diretora.
É quase tudo verdadeUm pouco de dois, dirigido pelas amigas de faculdade Jackeline Salomão e Danielle Araújo, sugere uma receita inusitada: uma dose do diretor americano Richard Linklater (de Antes do amanhecer) mesclada a um punhado de Eduardo Coutinho (de Jogo de cena). A combinação entre ficção e documentário engrossa a massa de uma produção digital que saiu por R$ 3 mil — mas, segundo as diretoras, parece ter custado cinco vezes mais. “As pessoas trabalharam de graça, não tivemos apoio de edital, o nosso prazo era muito curto”, explica Jackeline. O desafio da dupla era terminar o projeto a tempo de apresentá-lo como trabalho final do curso de audiovisual da UnB, no fim do mês.
Inspirado por conversas sobre amor e cinema que surgiram no burburinho do Festival de Brasília de 2009, o filme se chamava 2 curtas e 1 longa. “Nossa intenção era falar sobre as relações amorosas contemporâneas e refletir sobre os limites entre ficção e documentário”, explica Jackeline, 24 anos. Num primeiro momento, Danielle coordenou a fatia documental. Com experiência no ramo (ela dirigiu o curta Tira-gosto de poeta, de 2008, sobre poesia brasileira dos anos 1970), entrevistou casais selecionados via e-mail. Depois, Jackeline organizou o roteiro de ficção, interpretado por Vinicius Ferreira e Juliana Drummond, namorados na vida real. Por fim, as duas “porções” se juntaram num misto de linguagens.
“Não é um filme de direção. É um filme de equipe. Em um certo momento, entreguei a câmera para que os próprios personagens gravassem imagens do ponto de vista deles”, conta Danielle, 27 anos. A dupla ainda não sabe se será um curta ou um média. Ficará pronto para o festival de 2010? Outro mistério. Para Jackeline, que estreou na direção, as complicações do projeto valeram por uma aula intensiva sobre o ofício. “Coordenar a equipe é o mais trabalhoso. Fizemos um planejamento muito rígido. O diretor deve ser o maestro do filme, mas sem autoritarismo. Foi uma ótima experiência, mas ainda tenho muito a aprender”, avisa.
Sorriso brasilienseQuando escreveu o roteiro da comédia O golpe no mestre, Cláudio Moraes imaginou uma situação quase minimalista: dois operários limpando as vidraças de um prédio comercial. Desenvolveu a ideia, alinhavou a trama, mas, três dias antes do início das filmagens, sentiu falta de um “detalhe”. “Quem me emprestaria um prédio para eu fazer o curta?”, lembra. A saia justa foi resolvida graças a um lance do acaso: um edifício espelhado, perto do Parque da Cidade, sanou a crise. Sorte de principiante. “O dono foi de uma generosidade incrível. Ele deixou que eu usasse as salas imensas, novinhas. Sem esse apoio, não sei se o filme existiria”, conta.
Hoje, seis meses depois, o diretor avalia o deslize como algo natural: uma daquelas armadilhas que ameaçam quem está começando no ramo. “O controle de todas as etapas da produção, no começo, é complicado. A gente acha que o dinheiro vai dar, mas nunca dá. Escrevemos o roteiro, mas esquecemos um pouco a logística das filmagens”, explica. Apesar das dificuldades, a engenharia do curta-metragem ergueu-se sem solavancos. Formado em história, Cláudio trabalha em filmes de Brasília desde 1992 — fez assistência de direção, produção, fotografia... “Sempre participei dos filmes dos amigos. Pensei: chegou a hora de eu fazer o meu.”
A estreia como “regente” de um filme, portanto, chegou após um longo período de experiência nos bastidores de curtas como Verdadeiro ou falso e Pequena fábula urbana (ambos de Jimi Figueiredo). “A ideia era antiga, mas consegui filmar exatamente o que eu queria”, garante. Com R$ 90 mil do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e um elenco formado por atores como André Deca e Chico Sant’Anna, o estreante de 41 anos conta a história de um mal-entendido entre dois operários que sonham em ganhar na Mega Sena. “Gosto muito de Woody Allen. Acho que esse tom gracioso combina com Brasília. É um equívoco dizer que o brasiliense é um povo frio. Isso não existe”, afirma.
43º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRODe 23 a 30 de novembro. Inscrições abertas até 30 de setembro. Fichas de inscrição disponíveis no site da Secretaria de Cultura do DF: www.sc.df.gob.br e em
www.festbrasilia.com.br.
Esta matéria tem: (0) comentários
Não existem comentários ainda