Diversão e Arte

A intervenção da poesia no Eixinho de Brasília

Nahima Maciel
postado em 06/09/2010 09:55
<i>Dê espaço ao tempo</i> é a mensagem que o artista tenta transmitir aos brasilienses contra a correria do cotidianoAs plaquetas amarelas pregadas aos postes do Eixinho W, entre a 106 e 102 Norte, se confundem com a poluição visual de outdoors com rostos de políticos estampados. Mas as plaquinhas amarelas nas quais se lê, em sequência, Dê espaço ao tempo passam bem longe da propaganda política que suja a cidade em tempos de campanha eleitoral. O aviso é, na verdade, uma intervenção urbana do artista Chico Amaral para a exposição Aos ventos que virão%u2026 Brasília (1960-2010), em cartaz no Espaço Cultural Contemporâneo (Ecco) desde o início de agosto. Como toda intervenção urbana, a obra interfere no meio e gera as mais variadas leituras. A sugestão de Amaral escrita numa frase simples, cujas sílabas estão separadas a cada poste pode ir do espanto ao riso, do susto à incompreensão, mas raramente provoca indiferença. Na semana passada, as plaquetas amarelas confudiram até a Companhia de Eletricidade de Brasília (CEB), que as tirou enquanto fazia manutenção da rede elétrica. A própria CEB autorizou o trabalho e alegou falha na comunicação interna do órgão ao retirar as obras. Para chegar aos postes do Eixinho, a frase de Amaral passou por um périplo curioso. Além de autorização da própria CEB, ganhou permissão da Administração de Brasília, Iphan e Detran. A curadora Karla Osório, responsável pela exposição no Ecco, protestou e as plaquetas voltaram ao lugar. Para o autor, o incidente é normal, já que intervenções urbanas estão sujeitas a todo tipo de interferência. "Da minha parte, só tenho que agradecer a todos os órgãos envolvidos no processo de autorização porque bastava o veto de um deles para que o trabalho não se realizasse. Entendo que isso demonstra uma sensibilidade por parte de quem zela pela cidade-patrimônio para estabelecer um diálogo com a produção de arte contemporânea", diz. Amaral criou o trabalho em Barcelona, onde mora há nove anos, e transpôs a ideia ao cenário brasiliense quando recebeu o convite para a mostra. "Faz parte de minhas investigações a respeito da identidade, alteridade e a relação das pessoas com o espaço em que vivem, de sua relação com a cidade que habitam." Na cidade espanhola, o artista espalhou adesivos com as mesmas sílabas pelas estações de metrô. Interação Em Brasília, adaptou o tamanho para a escala local. "Como se trata de uma intervenção urbana, o trabalho não leva assinatura e está à sua própria sorte. Ele fica exposto a todas as possibilidades de interação com as pessoas, inclusive a depredação. É assim mesmo. A maioria de meus trabalhos se constrói a partir das possibilidades de interação com os outros", conta o artista, que no ano passado mostrou um jogo de liga-pontos em exposição na Caixa Cultural e, em 2001, realizou uma série de retratos falados para a mostra Gentil Reversão no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). A confusão com a propaganda política agrada o artista. "Me parece que reforça o valor do trabalho. Ele usa o mesmo suporte das campanhas, quase o mesmo código, inclusive o sequenciamento e a repetição", repara. "O trabalho perturba a lógica e cria um ruído dentro do barulho." Aos ventos que virão%u2026 reúne trabalhos de 150 artistas de Brasília, uma retrospectiva com 200 obras que representam a história das artes plástica na cidade desde os anos 1960. Aos ventos que virão%u2026 Brasília (1960-2010) Exposição coletiva com 150 artistas. Curadoria: Karla Osório e Fernando Cocchiarale. Visitação até 18 de setembro, de terça a domingo, das 9h às 19h, no Espaço Cultural Contemporâneo (Ecco %u2014 SCN Qd3 Lote5)

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