diversão e arte

Frampton, que se apresenta em Brasília, é um guitarrista de altos e baixos

Pedro Brandt

Publicação: 09/09/2010 07:00 Atualização: 10/09/2010 19:14

Em 1976, ano de lançamento de Frampton comes alive!, o disco vendeu nada menos do que 6 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos. O álbum duplo continuaria a ser sucesso nos anos seguintes, não só nos EUA, mas em outros países — figurando entre os discos ao vivo mais vendidos de todos os tempos. Ainda hoje, para ouvir músicas como Baby, I love your way ou Show me the way, basta sintonizar alguma rádio na linha flashback e esperar. São hits que todo mundo conhece, mesmo sem conhecer seu intérprete.

 (Gregg Roth/Divulgação)
E, vendagens à parte, Peter Frampton, para muitos, ainda é uma incógnita. E não é para menos. O guitarrista britânico, que se apresenta hoje em Brasília, tem uma trajetória com alguns momentos de um fugaz sucesso e outros tantos de ostracismo.

Antes de partir para a carreira solo em 1972, o músico sentiu o gostinho da fama como integrante das bandas The Herd e Humble Pie. Com a primeira, ainda adolescente, Frampton emplacou alguns singles entre 1967 e 1968. De orientação mod, com influências de The Who e Smal Faces, o grupo era na verdade um veículo para a dupla de compositores Ken Howard e Alan Blaikley. As imposições pop feitas ao The Herd fizeram com que Frampton deixasse o grupo após o primeiro álbum e embarcasse no Humble Pie, novo projeto do guitarrista Steve Mariott (ex-integrante dos Small Faces, justamente uma das referências musicais do The Herd).

Com o Humble Pie, banda com uma nova proposta de blues elétrico (que influenciaria, entre outros, o Led Zeppelin), Frampton encontrou ainda mais reconhecimento como guitarrista. Tanto que ele seria convidado para participar de discos como Everything must pass, de George Harrison. Mas, insatisfeito com o direcionamento, o guitarrista se desligou do grupo.

De 1972 a 1974, Peter Frampton lançou quatro discos solo que, apesar de seus méritos, não obtiveram grande vendagem ou execução em rádios. Até por isso, o sucesso de Frampton comes alive! pegou muita gente de surpresa. Nada mais natural, já que é em cima do palco que o guitarrista se sente mais à vontade e onde suas músicas conseguem alcançar o potencial que lhes falta nas versões de estúdio. Em faixas como Do you feel like we do e Show me the way, ele usa e abusa do talk box, instrumento tocado com a boca e que produz uma inconfundível sonoridade que acabou virando uma das marcas da carreira de Frampton.

Mas depois do sucesso do disco ao vivo, Frampton embarcou numa maré de azar. I’m in you, do disco de mesmo nome lançado em 1977, foi seu último grande sucesso. Em 1978, ele fez o papel de Billy Shears, na malfadada adaptação cinematográfica do disco dos Beatles, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band. Pouco depois, ele sofreu um acidente de carro que quase o matou e o tirou de cena por um tempo.

Grammy
Nos anos 1980 e 1990, o guitarrista continuou gravando, participando de discos de amigos (como David Bowie) e fazendo shows. Figerprints, seu álbum de 2006, levou o Grammy de melhor disco instrumental pop. Thank you, Mr. Churchill, lançado este ano e de caráter biográfico, foi um dos trabalhos mais elogiados do guitarrista.

No show de hoje, Peter Frampton será acompanhado do baixista John Regan, do baterista Dan Wojciechowski, do guitarrista Adam Lester e do tecladista Rob Arthur. Como ele adiantou em entrevista ao Correio, a apresentação terá várias músicas de seu disco mais recente e, claro, os clássicos que marcaram sua trajetória.

Confira íntegra de entrevista com Peter Frampton

Por que Thank you, Mr. Churchill?
Eu uso o Winston Churchill para encapsular aquele período de tempo. Porque ele foi uma figura muito importante para a geração dos meus pais na Inglaterra. Ele foi primeiro-ministro durante a guerra, era a pessoal perfeita para aquele momento. Se os aliados não tivessem ganhado a segunda guerra mundial, o meu pai não teria voltado da Alemanha e eu não estaria aqui hoje. Eu comecei a pensar em como eu cheguei aqui e como meus pais foram fundamentais em me encorajar ao longo da vida. Churchill foi a primeira pessoa em quem eu pensei quando comecei a escrever essa história autobiográfica.

Você sente nostalgia quanto aos anos 1960 e 1970?
A geração dos anos 1960 foi a primeira desde a Segunda Guerra Mundial em muito tempo que teve uma liberdade duradoura. Uma liberdade ingênua talvez, mas durou. Podíamos fazer o que quiséssemos quando crianças. Nosso pais foram criados de uma maneira muito mais rígida. E tudo isso colaborou. Nós tínhamos a música de Elvis Presley, blues, jazz, r&b… tudo isso foi incrivelmente influente para nós na Europa. Foi um período de muita criatividade para essas pessoas. Me sinto sortudo e feliz de ter feito parte daquela época.

Você se dá bem com a internet?
Eu baixo música, mas eu pago por isso (risos). Eu uso muito a internet. É uma ferramenta incrível. Eu mantenho contato com os fãs pelo Facebook, e com meus amigos pelo MySpace. Eu estou muito envolvido com isso. O artista consegue ficar em contato com seus fã diretamente, então é incrível.

Você acha que a internet trouxe um público mais jovem para os seus shows?
Provavelmente sim, porque pais e irmãos mais velhos, a geração que me conheceu no passado, podem apresentar a minha música. Daí é só ir até o quarto e conhecê-la na internet. Pais levam seus filhos adolescentes aos meus shows e eles podem virar fãs também.

Quem você diria que assimilou algo da sua música?
O Dave Grohl (guitarrista do Foo Fighters) e a galera do Pearl Jam dizem que foram influenciados por mim. O Dave Grohl é muito amigo meu. Eu lhe dei o protótipo do meu talk box. Sei que deixei minha marca, assim como eu ouvi muita gente e fui influenciado por eles, e sei que tem pessoas que foram influenciadas pelo que eu fiz ao longo do caminho, mas quem eles são eu não tenho certeza.


Qual a versão de uma música sua que você mais gosta?
A banda Big Mountain fez uma cover reggae para Baby I love your way — para a trilha do filme Reality bites. Essa é a minha versão favorita de uma música minha. Ela é mais pop do que a minha versão. Acho que a canção foi muito bem arranjada, produzida e executada.

Te incomoda ter que tocar sempre suas músicas mais antigas?
Eu não estaria em turnê se eu só pudesse tocar as músicas antigas. A grande coisa de ser um artistas é que você cresce e passa por diferentes fases. Não estou querendo me comparar, mas é como alguém dizer para o Picasso, “nós só queremos que vocês faça quadros azuis, continue assim”. O período azul de Picasso é ótimo, mas é o que ele queria fazer naquela época. Os músicos não querem ficar apenas em um lugar. Eu não conseguiria ficar parado, não é parte do que eu sou. Eu só ganhei um Grammy 30 anos depois de Frampton comes alive!. Isso me deu a esperança de que as pessoas querem ouvir música nova também.

Esta matéria tem: (0) comentários

Não existem comentários ainda

Comentar

Para comentar essa notícia entre com seu e-mail e senha

Caso você não tenha cadastro,
Clique aqui e faça seu cadastro gratuito.
Esqueci minha senha »

Envie sua história e faça parte da rede de conteúdo do grupo Diários Associados.
Clique aqui e envie seu vídeo, foto, podcast ou crie seu blog. Manifeste seu mundo.

Blogs