diversão e arte

Gullar completa 80 anos com o lançamento do livro Em alguma parte alguma

Publicação: 10/09/2010 07:53 Atualização: 10/09/2010 07:57

A estrela morta cuja luz ainda brilha, os ossos que atritam e provocam o tranco e o jasmineiro “disfarçado de arbusto” nascem de espantos na poesia de Ferreira Gullar. Há 11 anos sem publicar, o poeta está de volta com Em alguma parte alguma, livro que reúne 59 poesias e chega a tempo de celebrar os 80 anos do poeta, comemorados hoje.

Foi um ano bom para o autor do Poema sujo. Começou em junho, com o anúncio de que vencera a 22ª edição do Prêmio Camões pelo conjunto da obra. Faltava o nome do maranhense José Ribamar Ferreira na estante que traça a linhagem dos mais importantes autores de língua portuguesa. Agora, Gullar figura ao lado de João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Antônio Cândido, João Ubaldo Ribeiro e Rubem Fonseca na lista de premiados.

A alegria continuou em agosto, quando a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) homenageou o poeta com uma mesa exclusiva dedicada à celebração dos 80 anos. Gullar contou, entre outras histórias, como plantou sob a terra do jardim da casa do pai do artista Helio Oiticica o seu Poema enterrado. “O único poema com endereço da literatura brasileira”, explicou. Arrancou risadas da plateia e riu também. Ainda na Flip, adiantou para o público alguns versos de Em alguma parte alguma. Leu trechos de Fica o dito por não dito, poema sobre o nascimento da poesia, em que diz: “O poema/antes de escrito/antes de ser/é a possibilidade/do que não foi dito/do que está/por dizer”.

São três as divisões de Em alguma parte alguma. Na primeira, o próprio poeta aparece aqui e ali, surpreso com o ranger dos próprios ossos, insone, pensativo sobre o ato de fazer poesia, confortável ao lado de um suposto duplo. “Foi-se formando/a meu lado/um outro/que é mais Gullar do que eu”, avisa.

Até a morte se faz presente como lugar em que impera o nada. O universo e seus elementos compõem a segunda parte do livro. O poeta se queixa de ter visto pouco do universo, mas arrisca discorrer sobre o tempo cósmico, a luz, o som, a água, as estrelas. As coisas mais terrenas também ganham lugar na imensidão do vazio desconhecido. O poeta grudado ao musgo como se fosse sua pele, o poeta em dúvida sobre as diferenças entre sua pessoa e a planta, o poeta surpreso diante da floresta toda contida no louva-deus.

Neoconcretismo
A terceira parte é reservada a alguns notáveis terráqueos. A pintura instiga o poeta, que pergunta “e se a mentira fosse verdadeira?/como fazê-la?”. São os primeiros versos de uma série de poemas dedicados a artistas que se foram, alguns amigos com os quais Gullar conviveu, especialmente nos tempos do neoconcretismo.

Amilcar de Castro, Franz
Weissmann, Mary Vieira e Iberê Camargo têm versos especiais. Em Quadro-corpo, Gullar ensina modos de ver diante das pinturas de Camargo. “O espaço é nada?”, se pergunta em Os fios de Weissmann, sem precisar descrever os desenhos no vazio típicos da escultura do artista. E para Amilcar de Castro o passeio é pelos planos dobrados. Mínimo voo é quase uma versão em palavras do gesto do escultor.

O espanto diante de uma cidade marcada pela passagem dos anos fecha o livro. Gullar exilou-se em Santiago (Chile) nos anos 1970, depois de viver alguns anos na clandestinidade para escapar da perseguição do regime militar. Também passou por Moscou, Lima e Buenos Aires. Mas é à capital chilena que se refere no longo poema que inicia a quarta parte de Em alguma parte alguma. O poeta está de volta a Santiago e, ao reconhecer a paisagem, busca um passado que não encontra. Com Rainer Maria Rilke e a morte, Gullar encerra o livro. Rilke encontra o rosto da morte no silêncio, num susto no fundo de uma cisterna.

Poemas de Ferreira Gullar no livro Em alguma parte alguma

Mínimo vôo(a Amílcar de Castro)

No começo era o plano
a placa plana
que eu dobro e vira
asa
o vôo
que alça
do casulo do aço
A obra
eu a começo
do começo
de zero
(se não erro)
pra que a placa
que dobra
e vira asa
nunca esqueça
seu começo
e a ele volte sem erro
e assim viva
esta nova idade do ferro

Insônia

É alta madrugada. A culpa
joga dama comigo
no entressono. Cismo
que ela me engana
mas não bispo o seu logro.
Ganho? Perco? Blefo?
Afinal, qual de nós rouba no jogo?

Falar

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.
A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

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