Cresce a valorização de diretores de arte nos sets de filmagem

Em Brasília, não faltam bons profissionais

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 14/10/2010 07:30 / atualizado em 14/10/2010 07:45

Ricardo Daehn

Arte de Pablo Alejandro sobre foto de Daniel Ferreira/CB/D.A Press
Se nos bastidores do cinema, a diretora de arte Maíra Carvalho tem por função administrar o espaço, atentando para combinações entre cenários e adereços visuais, longe da fantasia, encravada na vida real, a expansão física da empresa da qual é sócia, a Quartinho Produções Artísticas, pontua o aumento de requisições nos sets de filmagem. "O quartinho (local que abriga, entre outras coisas, objetos usados em quatro espetáculos teatrais) ainda tá bem bagunçado", diverte-se, ao comentar do perrengue em torno da próxima etapa, depois de, como por milagre, multiplicar em dez vezes a área reservada ao resguardo das quinquilharias. "Estou com dificuldades até de catalogar o material que inclui de figurinos de época a atuais, além de coisas como garrafas e telefones antigos. Temos recebido doações, sem renegar nada. Até panela de pressão a gente já recebeu", conta, aos risos, a diretora de arte.

Acúmulo de toda a ordem parece ser pré-requisito para a profissão de Maíra que até produz teatro, mas, no cinema, se dedica exclusivamente à direção de arte. Graduada em História — "recurso que me deu um conhecimento de cultura e de mundos bem diversificados", como enfatiza —, ela buscou especialização em estética do cinema, em Valladolid (Espanha), e especialização em História da Arte (pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes), antes de passar a lecionar em três centros de ensino de audiovisual. "Há o triângulo fundamental no cinema entre o diretor do filme, o diretor de fotografia (que responde pela iluminação) e o diretor de arte, já que são os três constróem a imagem final", ensina.

"Direção de arte é um trabalho que requer detalhismo acentuado. A premissa é a de uma proposta geral e conceitual que passa a ser aplicada em todos os objetos a serem filmados", complementa Poema Mühlenberg, diretora de arte e intérprete da companhia de dança acrobática Nós no Bambu. Há quatro anos, ela adentrou os bastidores do cinema, nas locações de Enciclopédia do inusitado e do irracional, assinado por Cibele Amaral. "O filme lidava com fantasia, o que me dava maior liberdade de criar. O Fortunato era um personagem inserido no mundo do terror, daí ele ter criado um monstro com objetos saídos de materiais usados no cotidiano: fizemos um monstro, a partir de sacos plásticos, estopa, cola e desentupidor de pia", conta.

Senhoras
(2009), a cargo de Adriana Vasconcelos, no Polo de Cinema e Vídeo Grande Otelo, trouxe a primeira experiência em set, com direito ao levantamento de "paredes falsas", um desafio. Trabalhar com poucos recursos materiais é uma constante, no meio artístico, em que sobra familiaridade para a carioca: a mãe, Liane, foi das produtoras pioneiras em cinema no país; a irmã Anamaria Mühlenberg também é destacada produtora cultural, enquanto atores, estilista, fotógrafo e arquiteto completam a linhagem. A lacuna de mais profissionais especializados, igualmente, cria barreira. "Isso, ao lado da carência financeira, torna o trabalho meio como uma gincana. Por vezes, estarmos sobrecarregados", conta a diretora de arte.

Formada em desenho industrial (Universidade de Brasília), Poema Mühlenberg explica que a intimidade com o design de produtos rendeu conhecimentos indispensáveis à lida com filmes. "O curso me deu toda a noção espacial e um bom vocabulário técnico. Foi um curso propício para minha atual área, porque, com ele, vieram percepções de materiais, dimensões e métodos construtivos que me servem muito, junto com a bagagem de referências históricas". Aos 31 anos, por enquanto, a experiência mais instigante se deu com O Galinha Preta — "o principal desafio do longa-metragem foi trabalhar em múltiplas locações". "Mesmo com o andamento realista, buscamos usar cores mais saturadas para serem colocadas no filme inteiro. O contexto exigiu, por causa do contato com o universo evangélico, uma série de visitas rituais para buscarmos referências", conta.

Arte sistematizada

Aos 17 anos de empreitadas no meio cinematográfico, o artista plástico Andrey Hermuche coleciona feitos como o da construção de um submarino fictício, em estúdio — num projeto desenvolvido em 3D para o filme A espera da morte (2004) —, e a assistência de cenografia para o filme futurista Acquaria (2003), que reuniu Sandy e Junior nas telonas. Aos 35 anos, ele tem larga experiência entre participações em 13 curtas-metragens (entre os quais Dia de folga e Dona Custódia) e assistências prestadas em longas como Rua seis, sem número (2001) e o inédito Federal, isso além do desenvolvimento de projetos cenográficos para eventos e shows.

"O diretor de arte tem que seguir o propósito de fazer uma interpretação bem precisa do conteúdo em que está trabalhando. A pesquisa visual envolve o caráter psicológico da cena e do roteiro. Antes de buscar bons objetos, locações e figurinos, o profissional tem que conhecer as intenções do diretor, a partir daí, ele parte para a pesquisa de informação visual. É preciso nutrir-se de aspectos históricos, políticos e estéticos e as referências, normalmente, devem ser manipuladas com agilidade", explica Hermuche.

Com amplo domínio da elaboração cenográfica em estúdio, pela incursão em campanhas eleitorais, ele, que galgou carreira autodidata, com passagens pelo teatro e publicidade, pretende facilitar o caminho de futuros concorrentes. No momento, pela ausência de cursos na cidade, Hermuche investe na redação de um livro em que expõe a metodologia pessoal. "Meu processo tem um caráter superdidático, numa área em que se tem pouquíssima literatura. Quero reforçar procedimentos, a partir da prática de anotações e uso de processos fotográficos de vários trabalhos meus. Acho que é fundamental que o diretor de arte tenha boa cultura geral, para ser que seja resgatada com velocidade", diz. Repassar o domínio de ferramentas é uma meta fixa. "As estruturas cenográficas estão facilitadas pelo uso de programas digitais. Mas, na prática, a gente é obrigado a entender de todos os materiais usados, como metal, madeira, tecido, terra e pedra. É necessário conhecer até a propriedades das tintas", avalia.

Cenário pedregoso

A carreira de Maíra Carvalho, progressivamente aquecida, desde 2001, quando estreou em Suicídio cidadão, dá uma noção da requisição de profissionais capacitados, mas num cenário ainda pedregoso. "Nos brechós, por exemplo, ainda não temos a prática comum no eixo Rio-São Paulo, da adequação de valores de venda e valores de aluguel para as peças", destaca. Predisposta à regular reciclagem, a diretora de arte mantém permanente atenção a detalhes contidos no universo que alinha cenografia, figurino e maquiagem. "Coordenar os aspectos visuais do que for enquadrado para a projeção é tarefa do diretor de arte", explica.

Exemplos da dedicação recente pontuam a longa lista de filmes encadeados para estrearem. "No A obscena Senhora D o desafio foi fugir do pressuposto do cinema, que exige uma cenografia mais figurativa e próxima do real. Então, a gente optou por alternar os registros de época, para representar um local meio perdido, de acordo com a criação da Hilda Hilst", conta. Mais esforço foi demandado por Flores azuis (de Leonardo Bello). "Nesse, a gente teve o desafio de construir uma casa, na Chapada dos Veadeiros, perdida no meio do nada. Ela seria de adobe, mas pela velocidade, tivemos que construir em cimento, fingindo que era barreado", ressalta.

A exemplo da atmosfera visual leve criada para Sonhando passarinhos (de Bruna Carolli), Maíra Carvalho integrou as equipes de Ratão (de Santiago Dellape, premiado no último Festival de Gramado) e Procura-se, assinado pelo irmão dela, Iberê Carvalho, com quem mantém regular parceria. "No filme do Dellape, brincamos com figuras e estereótipos do videogame, com referências bem pop que vão de Os Goonies até Street Fighter, — tudo isso numa área em que eu nem circulava. Foi uma brincadeira bem cômica". Procura-se, pela vez, exigiu adequação ao olhar infantil. "Convivi muito com atores mirins, num tipo de laboratório. Uma das linhas foi exagerar na maquiagem dos vilões, aumentando a sobrancelha dos atores e botando os cabelos deles para cima, isso combinando com os figurinos bem exagerados", adianta.

O mesmo caminho do excesso foi trilhado pelo primeiro trabalho em cinema do diretor de arte Daniel Banda, à frente de assistência no curta Macacos me mordam. "O registro era bem caricato e colorido. Embarquei no meio da aventura do cinema independente e fomos aprendendo juntos, na raça", enfatiza. Formado em artes plásticas e design, Banda se desenvolveu artisticamente nas cenografias de eventos (decoração) e teatral. "No teatro, a gente constrói do zero. No cinema a regra é ser o mais real possível. Você vê que a direção de arte está boa, quando você não percebe que ela existiu. Quando você diz a casa do personagem, em cinema, parece um cenário, você vê que não foi a melhor opção", observa.

Um exemplo prático esteve em Ódio puro e concentrado (2002), com a construção de uma cela criada no arrumado ambiente de uma loja de uma tia do diretor André Miranda. A intensa criatividade permeia opções profissionais de Daniel Banda, há seis anos estabelecido em cinema e experiente ainda no ramo de cenários para shows de Luciana Oliveira, Dois de Ouro e Natiruts. Para o curta Deus (2010), ele se associou a grafiteiros da cidade, na criação dos dilemas existenciais de um rapaz atropelado. Para as venturas cinematográficas do parceiro Alex Vidigal (de É nois) vieram soluções como a do banco de isopor, numa cena pastelão em que uma stripper quebra um banco na cabeça de um cliente.

Ainda com Vidigal, Daniel Banda participou do curta O filho do vizinho, quando abriu mão do olhar adulto de quem tem 31 anos. "O universo infantil é onírico. Então, apostei no uso de bonecos de papel (articulados para o teatro de sombras chinesas), para chegar ao repertório visual das crianças que, muitas vezes, não distinguem proporções", comenta. O trabalho, feito a partir de esboços e caricaturas dos atores mirins, poderá até não ser percebido por alguns espectadores, mas para Banda não desanima. "São quadros que às vezes ficam na tela por dois segundos, mas eles fazem a diferença", conclui.

TRÊS PERGUNTAS // RICARDO MOVITS (diretor de arte)

Você tem uma parceria regular com o diretor Jimi Figueiredo. Quais filmes fizeram e o que contribui para esta integração profissional?

Conheci o Jimi no auge dos anos 80 quando ele tocava na banda de rock-pop Mata Hari e eu tinha o Grupo new age Ponte Para o Invisível. Passei 13 anos em Los Angeles trabalhando com cinema. Em 2003 dirigi um institucional do Arquivo do Senado Federal no qual ele fez a edição. Desde então não nos separamos mais. Temos, por exemplo, vários documentários recentes feito para a TV Senado. Nessa afinação, vejo que o maior desafio é o de tirar tudo do campo das ideias e materializar no plano físico. O resto é trabalho. Entre outras funções, fiz a direção de arte dos seguintes filmes do Jimi: Quase de verdade (2007), Pequena fábula urbana (2008), Verdadeiro ou falso (2009) e Cru (longa-metragem em fase de finalização). Além disso, tive projetos pessoais como diretor de O eixo (2010) e A última brasa (2006)

Como se deu a sua formação?

Sou artista plástico desde os 7 anos de idade. Tenho quadros em Museus como Museu Britânico (Londres); William Hart Museum (Santa Clarita), Museu da Casa Brasileira (São Paulo) e Museu de Artes de Brasília. Me formei em letras e tradução e curso de Restauração na Escola Massana (Barcelona). De 1985 até 1991, trabalhei em várias peças de teatro, como diretor, iluminador, cenógrafo e figurinista. De 1991 até 2002, trabalhei em Los Angeles, como tradutor e diretor de dublagem e pós-produção para vários estúdios como Fox, Disney, Universal, MGM, Cartoon Network, Nickelodeon, AXN, Discovery e History Channel. Fui diretor da Fox Kids por cinco anos e tenho um estúdio de pós-produção em Hollywood. Além disso, sempre busco novos desafios para não estancar a imaginação.

Quais as qualidades indispensáveis a um bom diretor de arte? O que deve prevalecer: estética ou praticidade?

Além de bom senso, ter noção de fotografia e combinação de cores. No Brasil, ainda não se tem a verdadeira noção da direção artística que, no cinema, engloba figurino, cenografia e fotografia. É de suma importância que o diretor de arte seja parceiro do diretor de fotografia, do figurinista e do cenógrafo. Não dá pra fazer tudo sozinho, em cinema. É um mercado que apresenta muitas oportunidades: por exemplo, trabalhei na direção de arte em dois episódios do Arquivo X e um episódio da série The mentalist. Acredito que o equilíbrio seja a linha mestra de qualquer trabalho. Certamente a beleza estará contida no equilíbrio. Pelo menos, a busca da beleza. O importante não é ser bonito, mas tentar ser bonito. A tentativa alcança resultados fantásticos. Certamente o que deve prevalecer é a estética. Praticidade é para amador. Agora, se na praticidade o amador encontrar a estética, ele vira profissional.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.