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Capital paulista ganha dois livros que colorem a periferia da cidade

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postado em 23/08/2011 08:52 / atualizado em 23/08/2011 09:24

Felipe Moraes

Editora Barba Negra/Divulgação

A capital paulista ganha, em dois lançamentos editoriais, os contornos de uma narrativa gráfica em preto e branco e de uma prosa que colore a periferia de uma sensibilidade que não se vê nos noticiários. São reproduções calorosas de uma cidade que é, ao mesmo tempo, referência de progresso e abismo de desigualdades sociais. O quadrinista Marcelo d’Salete, da Zona Leste, e o poeta e escritor Sérgio Vaz, Zona Sul, cada um a seu modo, reproduzem faces e becos de São Paulo com um olhar de dentro: parecem descrever seus próprios vizinhos, resgatar lembranças ou até registrar as impressões de uma experiência diariamente intensa. A graphic novel Encruzilhada (Barba Negra/Leya) e a coletânea de textos Literatura, pão e poesia (Global) são como flagrantes da vida urbana. E do que ela tem de belo e doloroso.

Marcelo d’Salete foi criado em São Mateus e, quando adolescente, trabalhou como office boy no centro. “Quando comecei a trabalhar com ilustração e design, acabei circulando muito pela Vila Maria, depois, regiões próximas de Tiradentes. De certa forma, as histórias do livro têm a ver com essa trajetória e com que venho vendo e conhecendo tanto de quadrinhos quanto de São Paulo mais recentemente”, conta o desenhista, que chegou a morar em Brasília no ano passado. Mas uma nova oportunidade de emprego o levou de volta para o Butantã, Zona Oeste. Os quadros de Encruzilhada economizam nos diálogos — uma herança que vem da paixão pelo cinema de Takeshi Kitano e Alfred Hitchcock— e preenchem os espaços vazios com borrões sombreados, nebulosos: os personagens humanos compõem a paisagem de prédios pálidos, anúncios publicitários e pichações.

“Quis representar as coisas da forma como as vejo”, delimita. Atento aos detalhes, d’Salete modificou a sua observação: se antes via e rascunhava simples esboços, hoje capta imagens com uma câmera fotográfica. “É mais para a construção visual da história. Para o roteiro, parto de conversas com colegas, familiares, e histórias que me chamam a atenção”, revela. Numa delas, Brother, sobre irmãs que vendem DVDs piratas na calçada, a inspiração veio de uma cena que ele viu com os próprios olhos. Em outras, a existência de moradores de rua excluídos e de pessoas comuns é traçada pelo entrelaçamento com a imaginação.

Marcelo Min/Divulgação
Do bairro

Sérgio Vaz não acredita em arte pela arte. “Só sou bom escritor se falo da minha aldeia. Sou extremamente engajado e descaradamente panfletário”, ele diz. As crônicas e contos de Literatura, pão e poesia são novidade para ele, mais familiarizado com os versos. Mas o conteúdo ainda é um estrato específico de onde ele vive, em Taboão da Serra, grande São Paulo. “Sou um cara da periferia, um cara que sempre quis que o bairro fosse um lugar bacana para se viver. Quero escrever contra o racismo, a violência policial, quero falar que os pobres também beijam na boca. Acho que sou um psicólogo das coisas. Quero decifrar o boteco e por que ele está cheio às 10h da manhã, para ver se é porque está cheio de pessoas desempregadas”, acrescenta.

A atitude cidadã é aferrada à comunidade: ele escreve pensando sempre na sua “quebrada”. E não reclama se disserem que tem “vista curta”. “Não consigo imaginar um cara na Inglaterra lendo e entendendo. Mas, como as coisas estão lá hoje em dia, é bem capaz que ele entenda!”, brinca. E reitera: “Não sei como atingir outras pessoas. Falo de vizinhos, gente da rua de baixo, da rua de cima”. Esses sujeitos vivos, tão próximos a Vaz — quem sabe frequentadores do sarau da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa), criada por ele na Zona Sul —, amplificam uma expressão cultural que a crueldade das ruas costuma abafar. Mas que grita e vibra nos parágrafos ágeis de Vaz.

Trecho
“A literatura é uma dama triste que atravessa a rua sem olhar para os pedintes, famintos por conhecimento, que se amontoam nas calçadas frias da senzala moderna chamada periferia. Frequenta os casarões, bibliotecas inacessíveis ao olho nu e prateleiras de livrarias que crianças não alcançam com os pés descalços”
Sérgio Vaz, em
Literatura,  pão e poesia
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