Diversão e Arte

Documentário mostra como Bezerra da Silva retrata o Brasil

Estado de Minas
postado em 01/11/2012 13:18

Onde a coruja dorme, documentário sobre o pernambucano Bezerra da Silva (1927-2005), será lançado nesta sexta-feira, no Cine Cento e Quatro, em Belo Horizonte. Não se trata de cinebiografia, mas de uma espécie de retrato artístico pintado coletivamente pelo próprio Bezerra e por criadores dos sambas que ele gravou. Gente como Tião Miranda, que trabalha com refrigeração; o bombeiro Pedro Botina, que ganha a vida removendo cadáveres; o carteiro Claudinho Inspiração; o camelô Popular P; 1.000tinho (sic); Walmir da Purificação; Roxinho; Adelzonilton e Nilo Dias. Essa turma compôs sucessos como Malandragem dá um tempo (;vou apertar/ mas não vou acender agora;), Candidato caô caô e Minha sogra parece sapatão.

;As pessoas vão conhecer os compositores que fazem a glória da música de Bezerra da Silva;, afirma Simplício Neto, que dirigiu o filme em parceria com Márcia Derraik. O repertório genial veio de artistas anônimos ; alguns nem são músicos profissionais. Muitas pérolas nasceram do batuque em caixa de fósforos ou em balcões de bar. ;São visões da vida do brasileiro com a linguagem do samba, do humor e do protesto. Trazem o olhar das classes populares, da Baixada Fluminense e da periferia sobre temas muito atuais, como corrupção política, liberação das drogas e arrecadação de direitos autorais;, explica o diretor.

Bezerra da Silva teve o papel fundamental de trazer à luz essa produção. Até então, ressalta Simplício Neto, as comunidades não eram ouvidas sobre esses temas. A opção de filmar um ;retrato coletivo; veio da constatação de que se ignorava quem, realmente, fez a cabeça de Bezerra da Silva.

Bezerra atuou quase como etnólogo e antropólogo: recolheu as canções de seus amigos, transcreveu-as e identificou seus autores. ;Ele é um pouco curador;, resume Simplício. ;Com gravador debaixo do braço, ele andou pelas comunidades, foi a lugares onde a coruja dorme, como dizem os músicos, procurando canções e autores. Esse material poderia ficar anônimo para sempre, virar folclore;, observa. O cineasta lembra que o pernambucano deixou obra inteligente, feita com talento, perspicácia e sensibilidade. ;Ele era muito honesto. Inclusive, cuidou dos direitos autorais dos compositores;, elogia. O cineasta compara a ação de Bezerra da Silva à de Mário de Andrade como pesquisador e divulgador da cultura brasileira.

Onde a coruja dorme teve como ponto de partida o curta homônimo, lançado em 2001 e assinado pelos mesmos diretores, recém-formados em cinema. Quando apresentaram a ideia a Bezerra, ele reagiu rispidamente: ;Elogio não enche barriga, é preciso dinheiro para filmar;. Mas apoiou o projeto quando soube que o documentário traria os compositores que ele gravou. Prêmios em editais de estímulo ao cinema permitiram a finalização e a distribuição do longa.

;Bezerra da Silva é respeitado pelo pessoal do rock e do hip-hop, que vê nele o samba contemporâneo, mas suas músicas ainda são raras nas rodas de samba. É preciso reconhecer o papel importante dele. Bezerra fez o partido-alto da Baixada;, defende Simplício Neto. ;Falta a intelectualidade e a academia abrirem os olhos para essa arte. Os sambas de Bezerra devem voltar ao povo, de onde eles vieram;, completa.

Em 1990, Bezerra da Silva lançou o disco Eu não sou santo. Em entrevista ao Estado de Minas, explicou que suas canções eram retratos do cotidiano da favela. O cantor negou ser o inventor do estilo, recusou o rótulo de ;sambandido; e criticou o pagode: ;Isso não é gênero de música. Pagode é templo de povo asiático. E coisa de quem quer desmoralizar a profissão dos outros;.

Ele é o cara

Bezerra da Silva vendeu milhares de discos. Fez sucesso, mas não tocava no rádio. Tornou-se conhecido da classe média por meio de bandas como Barão Vermelho. O rapper Marcelo D2 gravou um disco homenageando sua obra. Com a caricatura do cantor que ilustra esta página, o cartunista Quinho, do Estado de Minas, venceu prestigiado salão de humor carioca.

;Ninguém queria as minhas músicas, pois eram consideradas música de vagabundo. Os compositores são pedreiros, bicheiros, camelôs, desempregados e favelados. A maioria mora na Baixada Fluminense. São pobres, mas têm o dom da inspiração.;

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