Especialista explica a diferença entre a música folk e o sertanejo

O doutor em música da USP, Henrique Autran defende o gênero brasileiro

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postado em 22/10/2014 08:04 / atualizado em 21/10/2014 18:40

Rebeca Oliveira /

Facebook/Reprodução
Por terem alguns elementos em comum, como o uso do violão de seis ou doze cordas, algumas pessoas associam a música sertaneja - que tem Almir Sater como grande exemplo - ao folk, que teve origem nos Estados Unidos e no Reino Unido. Para o professor Henrique Autran, doutor em música pela Universidade de São Paulo (USP) com formação pela New England Conservatory Of Music, na Inglaterra, e especialização pela Berklee College Of Music, nos Estados Unidos, esta associação é natural, mas, teoricamente, não é possível vincular estes estilos.

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O que caracteriza uma música folk? Seria o lirismo, as letras melódicas e o uso de instrumentos de corda?
A rigor, nem o lirismo nem as letras, por si – às vezes ela é o lamento, a melancolia, à maneira do ‘blues’ –, ou apenas as melodias e harmonias, mas um pouco de tudo isso, e o uso de certos instrumentos, como violão de seis ou 12 cordas ou gaita de boca. Mas, essencialmente, os temas caros à cultura popular norte-americana.

Sua origem tem conexão direta com o folcore americano e inglês, certo?
‘Folk music’ se refere, genericamente, música folclórica. Ela está na cultura de todos os povos. Folclore (de ‘folk lore’ – ‘volk-lüre’, em alemão), abrange toda a cultura de um povo, em seu sentido mais amplo: comida, artesanato, história e estórias, lendas, mitos, e, particularmente, sua música. Villa-Lobos foi um grande pesquisador da música folclórica brasileira (vide seu livro Guia prático, com canções por ele coletadas), assim como Bela Bártok, que recolhia músicas de pastores para alimentar suas criações musicais sinfônicas e de câmara. O folk norte-americano é uma espécie de ressurgimento em pleno século 20 de práticas do passado, desde aquelas que eram executadas com voz, kazoo (instrumento rudimentar de sopro), tábua de lavar (‘washboard’), harmônica de boca, banjo e violões de seis ou 12 cordas. Esse revival da música folk teve uma segunda onda, nos anos 1960, e foi muito bem representado por Bob Dylan, Joan Baez, Arlo Guthrie (filho de Woody Guthrie, do início do século 20). Essa segunda onda tinha um pé firme no pop e no rock’n’roll, tendo marcado espaço no grande festival de Woodstock (1969).

Podemos considerar a música sertaneja, no Brasil, como um tipo de música folk, ou elas são bem distintas?
É preciso fazer uma distinção clássica sobre qual sertanejo falamos: seria o sertanejo real, de raiz, que é do folclore, ou o sertanejo urbano, crescido nas construções paulistanas, principalmente, fusão de tradições nordestinas, caipiras (vozes em terças paralelas), forte influência da Jovem Guarda e embalagem norte-americana: cinto de fivelão, bota decorada, jeans, chapéu de couboy (quem não se lembra de certa propaganda de cigarros da TV?). Vejo nas duas vertentes, o sertanejo de raiz e o sertanejo urbano, que faz sucesso na tevê, pouco (no segundo caso) ou nenhum (no caso caipira) vínculo com o folk americano.

Não seriam Almir Sater e Tonico e Tinoco, por exemplo, versão abrasilerada do estilo?
Conheci Almir Sater e sou dele grande admirador. É culto, faz uma música suave, bem feita, canta bem, e traz um pouco do folclore brasileiro e mesmo latino (como quando canta guarânias, como Chalana). Apenas uma pitada do universalismo da cultura americana, não muito mais do que isso. Tinoco conheci também aqui em Tatuí, em 2011, e era uma pessoa agradabilíssima que ainda fazia shows, apesar da idade avançada. Quando a dupla era viva, duvido que soubessem ao menos que foram Joan Baez e Bob Dylan ou seus antecessores. Sempre foram eles mesmos, mais ligados à sua terra e à moda de viola paulista. Lembro que a dupla Tonico e Tinoco trabalhou por mais de 60 anos, muito antes, portanto, do revival do folk norte-americano.



O que diferencia, por exemplo, a música folk do sertanejo universitário, que também tem violões e riffs melódicos?
O sertanejo universitário é um gênero tipicamente paulista, urbano e de classe média, e sofre influência direta da música norte-americana como um todo, especialmente na chamada country music, mas talvez pouco ou quase nada do que podemos definir como folk. A country music tem elementos folclóricos, por estar ligada às tradições campesinas de certas regiões sulinas (Georgia, sua origem; Texas, e Louisiana, entre outros) dos EUA, mas trata-se de uma vertente distinta já na base. O country emprega rabecas (espécies de violinos rudimentares) ou violinos modernos, como mais recentemente, harmônicas, o slapping bass (contrabaixo acústico tocado percussivamente com a mão direita). Vem desde Jimmy Rodgers, nos anos 1920, e depois com Roy Acuff e mesmo o lendário ator Roy Rogers, couboy cantador, surgidos um pouco antes dos anos 1940 – portanto, mais uma vez, muito longe do Folk revivido dos tempos de Woodstock. A influência deste gênero sobre o sertanejo universitário é patente, mais ainda pela terceira geração do country, que teve à frente Johnny Cash.

Muitos artistas tem o folk como ponto de partida de suas criações. Quem você citaria como nomes mais importantes do estilo?
Não sei dizer. Sá, Rodrix e Guarabira (e depois a dupla Sá e Guarabira) tinham algo a ver, aquela coisa campesina, a simplicidade, as melodias simples (e lindas) como em Casa no campo, imortalizada pela Elis Regina. Acredito que se trata mais de inspiração do que alguma coisa que os vincule mais formalmente ao gênero americano. De certa forma, a novíssima Paula Fernandes talvez tenha ainda mais folk, assim como certas correntes modernas americanas, a exemplo dos Carpenters, cuja lendária Karen Carpenter ressurge com seu tipo de voz e simples e até mesmo nos cenários dos shows da cantora.
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