Fotógrafo vietnamita registra o cotidiano de gays ao redor do mundo

Projeto vai além das lentes da câmera para conquistar respeito por onde passa

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postado em 22/11/2014 08:02 / atualizado em 21/11/2014 18:23

Paula Bittar - Especial para o Correio /



Está longe de ser um clichê. As fotografias reunidas no blog The Gay Men Project contam histórias de homens gays ao redor do mundo. Os relatos visuais têm poder de quebrar estereótipos e preconceitos ao mostrar como cada homem pode, de maneiras distintas, aceitar quem são. O catálogo virtual com mais 500 personagens transmite diversidade. Desde as primeiras fotos, a sensibilidade que o tema exige é mantida. Com muita seriedade, o projeto busca, além de ser uma fonte de exemplos, conquistar respeito.

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O fotógrafo Kevin Truong, 32 anos, começou o projeto há mais de dois anos. “Quando você coloca paixão no trabalho, ele não é mais trabalho. É algo maior. Depois de tantas histórias diferentes, meu desafio é dar continuidade a uma trabalho inspirador e criativo. Quando penso em minha própria experiência, em todo o tempo que passei escondendo que era gay e, hoje, eu me sinto completamente confortável em ser quem sou, vejo que o blog pode ser um exemplo para outros gays. Um lugar para inspirar outras histórias”, afirma.

Ano passado, Kevin esteve no Rio de Janeiro e em São Paulo. Entre os vários personagens que encontrou pelas cidades, conseguiu fotografar o deputado federal Jean Wyllys (PSOL) no aeroporto, antes que embarcasse. Depois de visitar 11 países a procura de homens dispostos a revelar um pouco de suas rotinas, passou alguns dias em Brasília para saber melhor como os habitantes convivem com a diversidade.

O estudante de direito Renan Cruvinel foi fotografado na última semana, em seu apartamento na Asa Norte. Ao abrir as portas de casa, confessou estar nervoso com a sessão. Nos primeiros minutos, são dois estranhos, por isso o constrangimento momentâneo. Algo que Kevin desmantela ao fazer pequena entrevista enquanto fotografa. Às vezes, para e aguarda o momento certo de voltar a clicar. “O projeto é inspirador e fazer parte dele foi uma experiência incrível. Por muito tempo, tive que manter minha sexualidade escondida. Hoje, tenho o privilégio de poder me assumir gay em todas as esferas da minha vida”, avalia Renan.

Tem alguma história que lhe marcou de alguma forma?
Conheci muitas pessoas maravilhosas. Mas é incrível para mim conhecer um político no Chile, pois foi o primeiro político a assumir sua assexualidade no país. O projeto tem várias histórias inspiradoras. Tem um poder em ser visível, por motivar outras pessoas a sentirem mais confiança em assumir sua sexualidade. É interessante ver como apenas contar sua história pode inspirar outros homens gays. Umas das minhas histórias favoritas foi em Baltimore. Foi a primeira família que fotografei. Os dois homens deveria ter, provavelmente, 50 anos. Eles tinham adotado um filho adolescente. Lembro desse lindo lar, no subúrbio, em um dia de outono. Na época, tinha 28 anos. E foi a primeira vez na minha vida que via pessoalmente uma família assim. Já tinha visto na TV, coisas assim, mas ver aqueles pais amáveis com seu filho na minha frente foi a primeira vez. Sai de lá com uma sensação tão forte de carinho que pensei que também poderia ter um filho. Nunca havia pensado nisso antes por não ter visto isso tã próximo de mim. É isso que tento fazer com o projeto. Dar essa referências visuais. Se minha ver, por exemplo, essa família, ela pode acreditar que eu posso ter filhos.

Kevin Truong/Divulgação
Como sua mãe reagiu quando soube que você era gay?
Quando sai do armário, ela ficou triste. Ela disse tudo o que deveria dizer, mas não entendia o que é ser homem gay. Ficamos dois anos sem falar no assunto. O trabalho no blog a ajudou a compreender melhor. Na viagem para o Vietnã, ela me ajudou nas entrevistas como tradutora.

Por que você escolheu vir para Brasília?
Queria muito voltar ao Brasil. Amo essa país. Aqui as pessoas têm muito interesse pelo meu trabalho. Recebo muitas cartas, comentários de fãs brasileiros. Tinha a certeza que precisava passar por aqui nessa viagem pela América do Sul. Queria conhecer uma nova cidade e, claro, tenho uma amiga em Brasília. Fazia sentido escolher esta cidade. Também sempre ouvi falar sobre a arquitetura, de como é interessante voar sobre Brasília. Pelo meu interesse, escolhi vir para cá. Mas, pelo projeto, escolheria ir a Salvador, por que visualmente é muito diferente.

The Gay Men Project tem data para acabar?
Por dois anos, banquei todos os custos. Em abril, consegui financiamento para o projeto, mas o dinheiro é inteiramente voltado para realizar este trabalho. Eu preciso começar a guardar dinheiro para o meu futuro. Estou fazendo essa viagem pelo mundo e talvez no final consiga fotografar mais de 1000 pessoas. Tenho trabalhado nesse projeto há dois anos e meio. Estou meio obsessivo com ele. As pessoas me procuram por causa do The Gay Men Project. Tornou-se parte da minha identidade. Pensar que um dia chegará ao fim me deixa um pouco assustado e triste. Se eu tiver como me sustentar, continuaria fotografando para o projeto para sempre. Para um fim simbólico para mim, gostaria fazer um livro arte. Gostaria de ter algo físico. O propósito desse trabalho é coletar histórias e ser acessível. Por isso, a internet é perfeita. Pessoas de todos os lugares do mundo conseguem ver as fotografias sem ter que pagar por isso. Um livro ou uma exposição são maneiras exclusivas de conhecer o trabalho. Se chegasse acontecer, seria apenas para satisfazer a mim.

No início, você chegou a imaginar que o trabalho seria tão conhecido?
Na minha cabeça, sempre quis ser conhecido, mas não tinha dimensão de como isso se daria. Sinto-me muito lisonjeado. Sempre que saio alguém me reconhece por causa do projeto. Isso significa muito. Desde o começo, queria dar uma visão global ao tema. Era estudante e não sabia como conseguir financiamento. Mas, me envolvi naturalmente. Era só um estudante tentando realizar algo e percebi que as pessoas começaram a seguir. Em certo ponto, me deu mais confiança. A imprensa começou a me procurar, divulgar o projeto. Depois, consegui uma doação de 33 mil dólares de estranhos. Pensei: uau, as pessoas realmente acreditam no projeto. A cada conquista o trabalho ganhou mais legitimidade ao projeto. No Brasil, passei a ser mais conhecido depois que fotografei Jean Wyllis. A figura trouxe credibilidade.

Os motivos que o fizeram começar o projeto são os mesmos?
Um dia comecei a chorar no metrô, em Nova Iorque. Não lembro a razão. Eu desejava não ser gay. Pensava que se eu não fosse gay minha vida seria muito mais fácil. Estava envergonhado de me sentir assim, por que, quando deixei o Peace Corps, me recusava viver em um país que era ilegal ser gay. Mesmo morando em Nova Iorque, uma das cidades mais abertas do mundo, e entrar na Escola de Arte ainda tinha esse pensamento sobre ser gay. Estava embaraçado, por que não era mais um adolescente. Então, no início, usei o The Gay Men Project como terapia. Conseguia sentir um certo conforto ao ouvir outras histórias. Hoje, me pergunto o que importa o que penso ou que acho? Porque, no começo, eu tinha uma visão muito clara do que queria mostrar e o que queria que as pessoas vissem. Agora, isso não importa. Quero apenas contar essas histórias.
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