Biográfo de Truman Capote revela bastidores da mente do jornalista

Em entrevista ao Correio, Gerald Clarke conta os detalhes da convivência com o escritor

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postado em 04/01/2015 08:00 / atualizado em 04/01/2015 10:23

Diego Ponce de Leon

Irving Penn/Divulgação


O jornalismo cultural se alimenta de Truman Capote. O Diversão & Arte o faz. Qualquer publicação que se valha de jornalismo literário tem como referência o controvertido escritor norte-americano, conhecido primordialmente por conta de Bonequinha de luxo e A sangue frio. Assim atesta o biógrafo Gerald Clarke, responsável pela principal obra sobre a conturbada trajetória de Capote. O livro Capote — Uma biografia foi adaptado para os cinemas em 2005 e rendeu um Oscar ao protagonista Philip Seymour Hofman.

Tamanha a proximidade de Clarke e Capote, construída em uma convivência de mais de uma década, que o próprio Philip buscou ajuda com o biógrafo na hora de personificar o escritor nas telas. “Eu tinha horas de entrevistas com Truman em fitas. Emprestei-as ao Philip para que ele encontrasse o tom ideal”, contou Clarke, em entrevista exclusiva ao Correio.

Clarke aproveita para falar de seu mais recente lançamento, Um prazer fugaz — As cartas de Truman Capote, e revela uma relação inusitada com a capital federal. Ele já esteve por aqui. “Sempre tive interesse por arquitetura, principalmente arquitetura moderna. E não há melhor lugar para apreciá-la do que em Brasília”, elogiou.

Como se deu o primeiro contato com Truman Capote?
Logo depois de escrever um breve perfil de Capote, um editor me ligou e sugeriu que eu embarcasse na biografia. Telefonei para Truman e perguntei se ele cooperaria. Ele pensou por 30 segundos e respondeu: “Sim”. E aí começamos. Achei que não levaria mais de dois anos. Acabou levando 13! O que eu não sabia — e nem ele havia percebido — é que estávamos diante do mais dramático período da sua vida: quando ele desce dos céus ao inferno.

Você já mencionou que “antes do Capote, o jornalismo não era levado a sério”. Poderia comentar?
O jornalismo não era encarado como uma expressão artística, como a literatura é. Capote sempre argumentou ter inventado uma nova forma de escrita: “o romance de não ficção”. O ele quis dizer, na verdade, foi ter trazido técnicas literárias para escrever histórias reais, dramatizando fatos de uma forma muito comum aos novelistas, mas rara entre os escritores de não ficção. Daniel Defoe, por exemplo, já fazia isso há séculos. Então, Truman estava errado, mas, ao mesmo tempo, certo. Ele não foi pioneiro, mas foi o primeiro na era moderna a jogar luz sobre essas técnicas. Outros escritores acabaram seguindo o exemplo. Mesmo aqueles escritores de não ficção que não leram A sangue frio — ou nem sequer ouviram falar de Capote — transparecem alguma influência de Truman Capote.

Como você reage às alegações de que Perry Smith (um dos assassinos retratados em A sangue frio) e Capote eram amantes?
Da mesma maneira que reajo às histórias sobre alienígenas e abduções. Uma grande bobagem, do começo ao fim. Não há qualquer fio de evidência a endossar tal alegação. Imagina: orgias no corredor da morte! Ridículo. Essa história teve início com um detetive de Kansas, que se sentiu mal retratado no livro de Truman. Mas ele mesmo admitiu que teria escutado tal balbúrdia de alguém que ouviu de alguém, que ouviu de alguém… E por aí vai.

O filme foi fiel ao livro? Chegou a trabalhar diretamente com Philip Seymour Hoffman?
O filme foi, na maior parte, leal ao livro, mas houve algumas licenças poéticas. No longa, por exemplo, Perry Smith encara uma greve de fome e Truman o alimenta com papinhas de bebês para mantê-lo vivo. Perry, realmente, passou por uma greve de fome, mas Truman estava na Suíça na época. Eventualmente, eu conversava com Philip. Dei-lhe minhas fitas com as gravações das entrevistas com Truman, para que ele pudesse encontrar o tom ideal para fazer a voz. Philip fez um trabalho memorável. Na vida real, nem se parecia com Truman, mas quando o vi nas telas… Parecia que eu estava assistindo ao próprio Truman.



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