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No Dia do Professor, o Correio aborda a importância das artes na educação

A primeira reportagem, de uma série de três, sobre a importância da disciplina no currículo escolar e na formação educacional

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postado em 15/10/2016 07:30 / atualizado em 14/10/2016 19:24

Diego Ponce de Leon /-

Diego Ponce de Leon/CB/D.A Press

Na pequena Taquara, na zona rural de Planaltina, uma adolescente cega, Luana, faz questão de participar do grupo de teatro mantido pela professora de artes que estampa a foto principal desta matéria. Ali, Luana se sente confiante. Em Taguatinga, uma aluna se descobre artista plástica a partir do contato com a aula de artes. Em São Sebastião, um jovem oriundo de uma família de pais analfabetos revela o amor pelo cinema para a educadora de artes. Hoje, por motivação daquela professora, ele é cineasta. No Lago Norte, um ex-aluno esbarra com a antiga professora de artes. Ele trabalha no caixa de um supermercado. Ao avistar a professora, diz sorrindo: “Queria te agradecer. Eu mal falava com as pessoas, de tão tímido. Foi a senhora quem me ajudou a vencer essa barreira. Agora, faço questão de cumprimentar cada cliente que passa”.

Cristiano Gomes/CB/D.A Press
Histórias de vidas transformadas a partir do ensino de artes na rede pública do Distrito Federal. Ao todo, dos 23 mil professores pertencentes ao quadro docente da Secretaria de Educação, 968 se dedicam às artes. Educadores que fazem a diferença na vida dos 470 mil alunos matriculados em escolas públicas, apesar de um cotidiano árduo, de um apoio limitado e de uma alegação que ainda define o ensino de artes como coadjuvante.

A partir de hoje, neste Dia do Professor, o Correio destaca e reverencia as jornadas de alunos e mestres que ratificam a importância das artes no currículo escolar, na formação intelectual e no exercício da cidadania.

“A bússola” 

“Sou uma feroz defensora da manutenção do ensino de artes na educação brasileira”, afirma categoricamente Ana Mae Barbosa, a primeira doutora em arte-educação no Brasil, e referência máxima no ensino de artes nas escolas. Em entrevista à reportagem, a professora de 80 anos enfatiza a relevância da arte na melhora da nossa “capacidade de estabelecer relações de qualquer natureza, racional ou emotiva” e acrescenta ainda que o contato com com as pedagogias da arte “ajuda a desenvolver a gestualidade, a expressão, a comunicação e o processo criador de cada indivíduo”.

Cristiano Gomes/CB/D.A Press
Responsável pela “proposta triangular” (abordagem integrada do fazer artístico, da análise de obras e da história da arte), que revolucionou o ensino de artes na década de 1980, Ana Mae critica um país “disposto a gastar mais com prisão do que com educação”: “Tivemos apenas três momentos quando a arte foi tão importante quanto as demais matérias. Com um projeto de educação proposto por Rui Barbosa, com a reforma de ensino promovida por Fernando de Azevedo no Distrito Federal, ainda no Rio de Janeiro (entre 1927 e 1930), e, por último, com o trabalho de Paulo Freire e (Mário Sérgio) Cortella no governo Erundina, em São Paulo. Um período estimulante para todos nós. Mas somente nessas três vezes. Não é uma pobreza?”, indaga a docente nascida no Rio de Janeiro, cujo primeiro trabalho como professora se deu na Universidade de Brasília (UnB), em 1965.

Na recém-inaugurada capital federal, ela trabalhou diretamente com Alcides da Rocha Miranda, cofundador da UnB e primeiro diretor da Escola de Arquitetura e Belas Artes. “Morei na Colina e ajudei a montar e a idealizar uma escola de artes dentro da universidade. Pena que fui embora antes de vê-la funcionando”. A jornada acadêmica a levou para a Universidade de São Paulo (USP) por 26 anos, onde ainda orienta teses de doutorado. Na trajetória, conheceu como poucos a realidade do ensino de artes, escreveu obras de referência na área e testemunhou a falta de protagonismo da disciplina.

Nem por isso ela perde as esperanças. “Eterna otimista”, Ana Mae elogia os professores de artes e nos convida a celebrá-los: “O fardo que pesa sobre o professor de artes, para tristeza dos pessimistas, não o desencoraja, mas o estimula. Cada vez mais, a bússola do professor tem sido o interesse do aluno, o que é importantíssimo. Acredito nos nossos professores da rede pública”.

Depoimento/Rosa Iavelberg*

Autoestima positiva 

Aprender arte é imprescindível na educação escolar porque as modalidades artísticas são parte do patrimônio cultural, das práticas sociais e promovem o desejo de aprender e a autoestima positiva. A interação cultural se destaca na formação cognitiva, perceptiva e sensível dos alunos.

Além disso, por intermédio da arte, ocorre a expressão da subjetividade como forma de desenvolvimento integral a partir do conhecimento de si, do outro e do mundo. A autoestima que interessa à escola é proveniente do domínio do saber aprender e das aprendizagens alcançadas, o que resulta na construção da identidade dos estudantes. Assim, os alunos podem acreditar neles mesmos como seres capazes de aprender, com domínio de conteúdos que expandem a possibilidade de novas aprendizagens, e de participação cultural e social na escola e fora dela.

Arte também faz sentido na escola contemporânea porque fomenta a construção da imagem positiva do aprendiz quando ele protagoniza sua visão de mundo por intermédio de suas criações, quando atribui significado à produção cultural de artistas e colegas, quando comunica, expressa e compartilha ideias, sentimentos e percepções.

Em arte, os alunos experimentam trocas simbólicas com suporte nas linguagens artísticas, afirmando sua subjetividade e seu pertencimento a uma coletividade mais ampla, que transcende os muros da escola. Tal base ajuda a ler um texto criticamente, a resolver problemas, a apreciar arte atribuindo significados e deixando-se afetar pelas criações de modo cultivado, ou seja, informado pelas culturas. Arte é importante na escola porque um sujeito criativo e informado, que faz e frui arte com autoria, pode mobilizar formas de pensar e estar no mundo, exercendo sua subjetividade com liberdade e crítica.

*Rosa Iavelberg é professora livre-docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP)

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