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Entre desafios, os professores de artes do DF deixam legado de superação

Na segunda matéria sobre os educadores de artes, o Correio relata as histórias de professores que carregam o ofício como missão de vida

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postado em 16/10/2016 07:30 / atualizado em 14/10/2016 19:20

Diego Ponce de Leon/CB/D.A Press

Os professores de artes não fogem à regra: consensos são improváveis. Desse modo, são variadas as relações pessoais com o ofício desempenhado. O professor Bruno Mendonça, por exemplo, não acredita que a disciplina de artes ainda seja vista de maneira coadjuvante, contrariando o senso comum. Mas, ainda assim, Bruno, que leciona no Centro de Ensino Fundamental 411 de Samambaia, arrisca listar algumas dificuldades peculiares e restritas aos professores de artes, como “o maior número de turmas e a necessidade de uma criatividade constante para o desenvolvimento das linguagens artísticas em sala de aula”.

A falta de apoio talvez seja o discurso mais repetido pelos educadores e se aproxima de uma unanimidade. Bruno nos lembra da necessidade, e atual ausência, de um “ambiente diferenciado favorável para a teoria e prática do ensino de artes”. A professora Lidi Leão, do Centro Educacional 7 de Ceilândia Norte, faz coro e acrescenta: “As salas de artes sempre são construídas dividindo parede com disciplinas que exigem silêncio. A arte deveria ser o espaço da válvula de escape dos alunos: cantar alto, gritar, rolar pelo chão, extravasar as horas dedicadas às cadeiras e ao silêncio”. O artista e professor Antônio Obá, do Centro Educacional 15 de Ceilândia, finaliza, corroborando com os colegas: “A maioria das escolas não tem auditório para práticas cênicas, salas para produções artísticas nas áreas visuais e, claro, materiais que viabilizem tais processos. E falo de coisas básicas como tinta, pincéis e um suporte para aplicar isso”.

As queixas, no entanto, não ilustram de forma alguma uma postura passiva por parte dos professores. E Obá faz questão de enfatizar: “A criatividade para lidar com a escassez de recursos, usando o que está à mão... Essa parte, essa paixão e comoção — que não se resume apenas a um notório saber — temos de sobra”.

Palavras que carregam Lidi Leão há quase 20 anos por esse caminho. Apesar das porradas, são os dias de glória que justificam. E o Correio teve a chance de testemunhar um desses instantes, quando Lidi recebeu o abraço de um ex-aluno. Nilmar Paulo, que teve aulas com Lidi em 2000, não escondeu a gratidão: “Eu me descobri cineasta tendo aulas com ela, a primeira a me incentivar, até porque venho de uma família que teve pouco acesso à cultura”.

A troca entre eles foi tão producente em sala de aula que professor e aluno, anos depois, juntaram forças em prol de um projeto comum: “Fizemos um curta-metragem e ainda fomos premiados”. No registro do encontro entre o ex-aluno e a professora, os atuais alunos de Lidi aparecem animados ao fundo. Quem sabe, não há outro cineasta por ali.

Papel coadjuvante 

Nessa busca diária por vitórias, a quebra da premissa de que artes seja matéria coadjuvante no currículo escolar é uma prioridade. A professora Patrícia Cardoso, companheira de trabalho do Bruno no Centro de Ensino Fundamental 411 de Samambaia, fala como se em discurso à classe: “Precisamos estar prontos pra reafirmar que o ensino de artes não é bobagem e que estudar artes ajuda, e muito, na parte cognitiva”.

Aparentemente, o trabalho nesse sentido tem sido eficiente. “A atuação docente frente à disciplina de artes, vejo, tem colocado seu caráter essencial e não acessório, que vai desde os discursos de que artista é tudo louco até as concepções de que tal disciplina se resume em enfeitar a escola, ou passar uma técnica para os alunos se entreterem”, acredita Antônio Obá, que se divide entre a sala de aula e a produção como artista plástico.

D.A Press


Os principais desafios, no entanto, talvez estejam na própria sala de aula. O progresso educacional não caminha a passos largos e depende de uma generosa dose de dedicação. “A maioria dos alunos que entram no Ensino Médio nunca foi a uma galeria de exposições. Eles têm uma dificuldade substancial em reconhecer ações artísticas que estão muito próximas: um vizinho grafiteiro, um grupo de teatro comunitário, locais públicos com eventos gratuitos e acessíveis... Ainda existe um abismo que, num trabalho de formiga, vem sendo difundido nas salas de aula, na relação professor/aluno.”

A letargia do processo não gera desânimo, mas uma vontade crescente de adaptação, de reconhecimento do ensino de artes como elemento fundamental nessa jornada devagarosa, mas producente. Um programa educacional que não reconhece a relevância de uma pedagogia artística, aos olhos de Antônio Obá, é impensável. Mas ele não panfleta gratuitamente. Recebe a provocação e a utiliza para autorreflexão, principalmente no que diz respeito a práticas contemporâneas: “Um currículo sem artes nega aos estudantes a possibilidade de eles se reconhecerem como sujeitos. Assim como é inconcebível um currículo que descontextualize, que se ponha fora do que é real, do que, esteticamente, os alunos já praticam. Como não perceber a dimensão estético-social de uma selfie que um adolescente publica em seu perfil de Facebook? Como se distanciar disso, educacionalmente falando?”.

Em termos gerais, a professora Patrícia Cardoso define o sentimento que paira sobre os educadores, e não somente sobre os de arte. “Ser professor em qualquer área hoje em dia é tenso. Somos tratados sem respeito nenhum. Isso me entristece, mas não me desanima. Sou feliz fazendo o que gosto!”.

>> Mãe e filha em sala de aula 

Luis Nova/Esp. CB/D.A Press
Embora ele tenha dedicado os últimos três anos ao Centro Educacional 15 de Ceilândia, Antônio Obá contabiliza mais de uma década em sala de aula. E foi lá trás que Léia Magólia teve a oportunidade de tê-lo como professor. “Ele sempre levou para as aulas os mais diversos assuntos que dialogam com nosso cotidiano, tornando experiências individuais em instrumentos fomentadores, que auxiliaram nas minhas escolhas até chegar à universidade”, revela Léia, hoje uma artista plástica.

A ex-aluna não mede esforços ao elogiá-lo: “Um exemplo para mim. Um artista-professor incrível, que sempre admirei pela dedicação ao ensino das artes e aos alunos”. E ela não foi a única da família a se beneficiar das lições de Obá. Léia mal sabia que o professor acabaria se tornando uma referência definitiva. “Minha mãe foi diagnosticada com Alzheimer em 2007 e foi aluna do Antônio em uma escola em Taguatinga. Durante as aulas de pintura, ela conseguia se concentrar nas cores e texturas. Existia um vínculo entre eles de confiança e carinho que o paciente com Alzheimer precisa ter”, relata.

A filha não tem dúvidas de que a arte e a sensibilidade do professor foram fundamentais nesse processo: “Ela ficava mais calma e feliz. Era perceptível como as artes e o trabalho realizado por ele faziam bem e estimulavam sua memória no início da doença”.
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