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Artistas brasilienses veteranos falam sobre a longevidade da arte

As cortinas continuam abertas para nomes cânones da cultura candanga como Hugo Rodas, Gê Martu, Alba Costa, Nicolas Behr, Gisele Santoro e João Antônio

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postado em 16/10/2016 07:35 / atualizado em 17/10/2016 14:43

Isabella de Andrade - Especial para o Correio

Alexandre Fortes/Divulgação

Para alguns dos grandes nomes que fizeram a cultura florescer e se expandir em Brasília, a passagem do tempo não é um empecilho para que a produção artística continue a todo vapor. Ao contrário, para os artistas, a experiência acumulada ao longo de suas trajetórias é um ponto que enriquece suas obras atuais. O trabalho cultural permanece vivo e pulsante ao longo de suas vidas e a paixão por aquilo que escolheram desenvolver continua sempre a mesma. É o caso do ator e diretor Hugo Rodas (77), do ator Gê Martu (79), da artesã Alba Costa (83), do poeta Nicolas Behr (58), da bailarina e coreógrafa Gisele Santoro (77) e do ator João Antônio (70). As cortinas continuam abertas e entre palcos e outros espaços de criação, a arte permanece.

Gê Martuchelli, conhecido como Gê Martu, acumula mais de quatro décadas de carreira na capital e mantém cativo o seu lugar entre os grandes criativos da cidade. Nascido no Rio de Janeiro, desembarcou em Brasília em 1965 e não parou mais de se dedicar ao teatro, tendo acumulado cerca de 90 espetáculos em seu currículo.
 
 Edu Barroso/Divulgação

“Brasília cada vez mais nos surpreende com a capacidade de se inovar, de criar grandes espetáculos e de ter uma dramaturgia própria. Quando cheguei aqui, não dispensava nenhum trabalho, me entrosei com todos os grupos existentes na época”, conta o artista.

Já a sua disponibilidade para convites de trabalho e espetáculos, continuou exatamente a mesma no decorrer dos anos. “A idade não é nenhum empecilho, temos diversos atores de todas as idades na ativa na cidade, e que venham mais! Continuo com a mesma política de nunca dizer não. É sempre uma troca de experiências e vivências, estamos sempre aprendendo e ensinando. Tenho ainda uma longa jornada pelos palcos”, afirma.

Também veterano na criação teatral e nos palcos da cidade, o ator e diretor Hugo Rodas (77)  permanece com o mesmo afinco e trabalhando da mesma maneira que trabalhava quando iniciou sua carreira. Para ele, algumas coisas melhoraram com o tempo, como por exemplo o caráter. “Acho que o meu melhorou! Ainda trabalho muito como ator e diretor, a paixão e dedicação são exatamente as mesmas. Sou apaixonado pelo ofício de ator, meu olhar principal vem desse trabalho com a atuação”, afirma. Rodas se considera candango e que, desde sua chegada a Brasília, nutriu a vontade de trabalhar por esta terra. “Eu queria trabalhar o teatro aqui, em cada pedaço e sou muito feliz por seguir por aqui. O prazer me motiva a continuar com a carreira, eu não teria nenhum prazer se não fizesse mais isso. Tento destruir e reconstruir o tempo inteiro”.

Carlos Vieira/CB/D.A Press
 
Conhecida nos palcos da cidade pelo importante trabalho na dança, a bailarina e coreógrafa Gisele Santoro (77) lembra que, para o ofício de bailarina, a passagem do tempo coloca alguns obstáculos. No entanto, como coreógrafa, seu trabalho só encontra melhoras. O conhecimento acumulado ao longo da vida e de suas vivências em companhias do exterior formam uma rica bagagem cultural que a artista transporta para a dança brasiliense. “Digo sempre para as minhas alunas que precisamos sempre nos renovar, sem focar apenas naquilo que aprendemos no início”. A coreógrafa lembra que viver da dança em Brasília não é fácil e a atividade ainda não encontra o reconhecimento que mercê na capital do país.

Santoro dedicou mais da metade da sua bida ao balé. Viúva do maestro Cláudio Santoro, a bailarina é cidadã honorária de Brasília e luta para que a dança tenha seu espaço mais amplamente reconhecido na capital. Seu amor pela cidade teve início há 55 anos e, justamente pela vontade de ver a criação artística florescer na capital, enfatiza que ainda há muito trabalho a ser feito. “Não temos um corpo de baile oficial na cidade, e isso é importantíssimo. O corpo de baile pode participar em grandes eventos do governo e ampliar o mercado de trabalho para a dança”. Para Gisele, a permanência na carreira artística é o que a mantém viva e ativa. “Por isso, continuo e dialogo com as novas gerações. Agora, o importante é dar o que recebi e virar então jardineiro, semeando o trabalho que criei.
 
Arquivo pessoa
 
Para confirmar que o trabalho artístico não vê idades, o ator João Antônio e Andrade Júnior (70), um dos artistas mais bem respeitados da cidade, foi recentemente premiado em diversos festivais como parte do elenco de Rosinha. O filme fala sobre o amor na terceira idade e coleciona prêmios que consagram a boa história e o bom trabalho dos atores na tela.

Para João Antônio, o teatro e o cinema são ofícios que dão oportunidade sem levar em conta sua idade, criando a possibilidade de se dedicar à criação artística até o fim da vida. “Eu sempre atuei, desde a infância. Quando cheguei a Brasília, em julho de 1971, todo o cenário cultural estava começando. Sobreviver da arte nunca foi fácil e ainda não é. Mas nunca deixei de ser ator, fazer arte é um privilégio quando você tem consciência disso e a motivação é permanente”, afirma. O ator declara que sua dedicação nunca mudou, mas atualmente os processos são mais difíceis na cidade, em razão da pouca quantidade ou da interdição dos espaços de cultura.

 André Violatti/Esp. CB/D.A Press
 
Utilizando os papéis como palco, o poeta Nicolas Behr (58) começou a publicar seus poemas em 1977 e atualmente se consagra como um dos escritores mais queridos e conhecidos da cidade. Para o autor, há sempre espaço disponível para quem tem conteúdo e está disposto a investir em criatividade. “Nada substitui o talento e, com o passar do tempo, acredito que a responsabilidade aumenta, você vira referência para os artistas mais jovens. Continuo publicando meus livros com a mesma motivação, de compartilhar minhas angústias, meus sentimentos e emoções. A arte tem esse lado de compensar nossos danos psíquicos”, declara o poeta.

Janine Moraes/CB/D.A Press
 
Para uma das fundadoras do coral da Universidade de Brasília (UnB), Alba dos Santos da Costa (83), o trabalho artístico é um dos pilares que lhe deram firmeza ao longo da vida. Seus 24 anos como coordenadora do Coral dos Cinquentões possibilitaram que essa força fosse passada adiante.  Alba conta que é sempre gratificante ver a felicidade e a dedicação dos coralistas. “Trabalho com artesanato, hoje mesmo mandei alguns para a Itália. É importante não estagnar nunca”, afirma. O que fica em comum entre os artistas brasilienses das mais diversas vertentes é a certeza de que o trabalho artístico não vê obstáculos em relação tempo e que, ao longo de suas trajetórias, seus criadores acumulam cada vez mais experiência, talento e vontade de se reinventar.
 
 

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