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O Correio pergunta aos alunos: 'O ensino de artes deve permanecer?'

Na terceira e última matéria sobre educadores de artes, a reportagem abre uma roda de debates com estudantes do Centro Educacional Taquara, na zona rural de Planaltina

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postado em 17/10/2016 07:30 / atualizado em 17/10/2016 12:33

Diego Ponce de Leon /-

Diego Ponce de Leon/CB/D.A Press
Uma série sobre o cotidiano de professores de artes perpassa, integralmente, pelos alunos. São eles o principal motivo da dedicação e dos esforços desprendidos. No decorrer da apuração, a reportagem esbarrou com alunos das mais variadas regiões do Distrito Federal. Mas, entre conversas com educadores, um exemplo positivo se tornou recorrente: o trabalho desenvolvido pelo Centro Educacional Taquara, na zona rural de Planaltina. Lá, reside um grupo efervescente de estudantes transformados pela disciplina de artes, mais especificamente por uma professora que responde pelo nome de Waléria Durand. O Correio foi conferir a recomendação, convocou os alunos, abriu uma roda e os questionou sobre a importância das artes na escola.

Antes, porém, era preciso conhecer melhor a professora que despertou os elogios. Assim que desembarcou naquela comunidade de campo com 4 mil habitantes, Waléria não sabia o que estava por vir. “Eu estava em sala havia anos, mas aquele ambiente era novo. Uma realidade muito distante de qualquer centro cultural. Lembro de exibir Cirque du Soleil e alguns alunos me dizerem que aquilo era irreal, que não seria possível”, relembra a professora, que chegou por ali em 2008 e, hoje, acumula 15 anos dedicados à rede pública de ensino.

Teatro, dança, artes plásticas e visuais eram práticas pouco recorrentes em Taquara. Por isso, a movimentação foi grande quando Waléria assumiu a disciplina de artes. “Passei a dar aula fora das salas e as pessoas me perguntavam se era brincadeira”, recorda. Não era brincadeira. Era compromisso e seriedade. Trabalho tão sério que logo resultou na criação de um grupo de teatro, o Sóis. E com ele, Waléria e os alunos passaram a rodar o Distrito Federal e representar a simpática e aguerrida escola. 

Formação 

“Eu vejo diariamente, nas minhas 15 turmas, a arte enriquecendo a fala dos alunos. Vejo-os mais críticos, interessados em temas diversos. Vejo-os saindo daqui mais bem preparados para o trabalho, para a vida. Vejo ex-alunos, como a Luana, uma jovem cega que adorava teatro, ou o tímido João Eli, que virou um extrovertido caixa de supermercado, agradecendo a importância de artes na vida deles. Disciplina menor?”, pergunta Waléria.

E os alunos reunidos a convite da reportagem respondem, em uníssono: “Não!”. “Atualmente, estamos trabalhando com um espetáculo sobre Leonardo da Vinci. Eu aprendi muito sobre ele com essa peça. Teatro é história! Sem a aula de artes, apagaríamos conhecimento”, opina Hércules Marques, de 14 anos. O colega Jean Meotti lembra que esse trabalho foi selecionado para feiras de ciência de Planaltina e de Brasília. “Não é louco? Fomos parar em uma feira de ciência por conta de artes, e não com química e física”, disse, exibindo um largo sorriso.

Não à toa, participar do grupo de teatro se tornou objetivo de muitos alunos da escola. E eles não se importam em ensaiar debaixo de árvore, nem em  ocupar o salão da igreja, o único “palco” disponível. “Eu era muito tímida. Quase não falava. Hoje, adoro apresentar trabalhos em sala”, conta Maria Luiza, de 16 anos. Opinião compartilhada pelo não menos tímido John Félix, 15, e por Victor Fernandes, 16. “Minha interação com as pessoas melhorou muito. Eu não atuo, mas trabalho na produção dos espetáculos, desenho cenários, e adoro, véi. Acho doido demais a parada”, conta Victor, em sua própria linguagem jovial.

Um dos mais velhos do Sóis, Ander Keller, 17, enfatiza ainda a importância da disciplina e do grupo de teatro na discussão de assuntos controversos, muitas vezes pouco debatidos em casa, como sexualidade, bullying e racismo. A menção dos temas desperta o relato emocionado de Natália Araújo, de 14 anos, que, de alguma forma, parece responder de forma incisiva a todos aqueles que pleiteiam um currículo educacional sem artes: “Já escutei muita agressão por conta da minha cor de pele, do meu cabelo. Nas aulas de artes, passei a olhar diferente para quem me xingava. Vi que as pessoas são mais do que a gente pensa. E elas também viram. Rolou uma igualdade na convivência, um respeito. No grupo de teatro, ganhei ainda mais. Escuto o quanto sou bonita. Aqui, recuperei minha autoestima”. 
 
 
  // O QUE ELES DIZEM 
 
Diego Ponce de Leon/CB/D.A Press
"As aulas de teatro me trouxeram autoestima"
Natália Araújo, 14 anos 
 
 
 

Diego Ponce de Leon/CB/D.A Press
"Apagar artes da escola seria apagar conhecimento"
Hércules Marques, 14 anos 
 
 
 

Diego Ponce de Leon/CB/D.A Press
"O teatro me ajudou a fazer novas amizades"
Jean Meotti, 15 ano
 
 
 

Diego Ponce de Leon/CB/D.A Press
"Sem artes, perdemos a chance de refletir"
Fernanda Duarte, 16 anos
 
 
 

Diego Ponce de Leon/CB/D.A Press
"Venci a timidez e, hoje, adoro apresentar trabalhos" 
Maria Luiza Dourado, 16 anos  

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Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
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Maria
Maria - 17 de Outubro às 09:38
Discordo que tenhamos alunos mais críticos em razão disso. O que temos hoje claramente, são alunos mais doutrinados ideologicamente, logo, menos críticos.

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