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Correio Braziliense

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'Sobrevivência está na flexibilidade', diz especialista sobre mudança da TV

O jornalista Rodrigo Seabra acaba de lançar um livro sobre a concepção e o sucesso das séries norte-americanas. Em entrevista, o mineiro falou sobre as produções internacionais e as mudanças no consumo da televisão no mundo

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postado em 18/10/2016 07:33

Adriana Izel

Grupo Autêntica/Divulgação
A Era de Ouro da televisão se tornou inspiração para o jornalista brasileiro Rodrigo Seabra escrever o livro Renascença: A série de TV no século XXI, lançado no Brasil pelo Grupo Autêntica. A produção do mineiro surgiu do interesse do profissional com as séries norte-americanas, que são explicadas no livro desde o processo de produção até a recepção desses programas pelo público. "O livro começou como anotações esparsas para organizar minha cabeça e preencher algumas lacunas que eu já vinha percebendo no meu contínuo aumento de audiência e no estudo das séries. O que me levou a escrever o livro, então, foi uma curiosidade quase científica, um entrosamento que eu nem sabia que já tinha desenvolvido com o assunto e a vontade de explicar a respeito das muitas coisas que eu ia descobrindo para as pessoas que eu conhecia e que também gostam muito de séries", explica o autor. Em entrevista ao Correio, o mineiro falou sobre o sucesso das produções internacionais no Brasil e as mudanças no consumo da televisão no mundo.

Como você vê o consumo de seriados no Brasil?
Eu vejo de maneira positiva esse aumento no consumo, porque significa um alargamento de horizontes do brasileiro como consumidor de cultura, acima de tudo. Se você é exigente, inteligente e quer variedade de boa programação, terá uma infinidade de séries com teores bastante diferentes à disposição para te entreter e te educar com relação a aspectos bem diferentes do mundo. É claro que pode existir também toda uma discussão sobre uma “colonização cultural”, e ela tem méritos. Nossa língua tem diferenças infindáveis com relação à língua inglesa e vice-versa; também nossas referências, nosso imaginário. Mas uma coisa, em um mundo ideal, não deveria atrapalhar a outra, e sim complementá-la. Se a educação fosse uma prioridade no Brasil, por exemplo, e todos lêssemos mais, falássemos e escrevêssemos melhor, dar a um consumidor exigente e esclarecido uma variedade enorme de dramaturgia importada jamais deveria representar problema algum, mas sim uma explosão também de vocabulário, referências culturais, geográficas, históricas e mesmo de comportamento.

Você acredita que as séries são um dos motivos pelo crescimento do consumo da tevê fechada no Brasil?

Posso creditar o crescimento na tevê fechada, primeiro, a essa baixa qualidade da tevê aberta. É natural que o consumidor fuja das baixarias e da qualidade duvidosa. Se, na tevê a cabo, esse consumidor encontra uma quantidade estonteante de programação de altíssima qualidade, venha ela de onde vier, por que ele voltaria à tevê aberta, não é? Se podemos verificar essa explosão na qualidade da tevê norte-americana, e se a tevê a cabo brasileira importa esses programas de alta qualidade, só posso concluir que as séries têm, sim, um papel importante em cativar o espectador que se refugia na tevê fechada e nos serviços de streaming.

Para você, a chegada do formato de séries na tevê aberta ou, no mínimo, do flerte das novelas com o formato dos seriados internacionais pode ser o caminho para renovação da tevê aberta?
Bom, novelas e séries são produtos bastante diferentes em muitos aspectos – a periodicidade (e tudo o que ela acarreta) e os valores de produção sendo talvez os mais decisivos para a nossa diferença de percepção. Quando defino séries de tevê no livro, tento deixar claras essas diferenças sem me aprofundar demais nelas. Não vejo como essa aproximação poderia melhorar as novelas brasileiras que já se firmaram com um formato bastante próprio, a não ser em quesitos formais como um melhor controle de qualidade e uma maior profissionalização do ator.

Por que você acha que as séries têm tido tanto impacto no público brasileiro nos últimos tempos?
Em primeiro lugar, pela excelência. São excelentes dramas, comédias e dramédias que conquistam qualquer classe social, qualquer idade e sexo. Depois, porque o pessoal já se identifica há algum tempo com o palavreado e os modos de pensar retratados nos programas – digo isso porque séries de tevê norte-americanas no Brasil estão longe de ser novidade. Conforme as pessoas vão ficando mais velhas, aquilo vai parecendo cada vez mais natural a elas, então não dá para negar esse aspecto de familiaridade. Além disso, para o público adulto de hoje, o cinema tem exercido um papel cada vez menos importante. Em especial o pessoal acima dos 30, no mundo inteiro, está se apaixonando cada vez mais pelas séries de televisão porque as histórias que esse público quer ver e com as quais se identifica agora estão nelas, não nos filmes. Aconteceu de fato, próximo à virada do século, um movimento grande nos bastidores da indústria do audiovisual, para usar um termo bem genérico, que nos levou a isso e que, no fundo, é o grande responsável por essa era de ouro da tevê.

Como a tevê fechada e a aberta poderão sobreviver à força dos serviços de streaming?
Acredito que as tevês aberta e fechada sobreviverão, em princípio, se imitarem ao máximo a flexibilidade dos serviços de streaming. Para começar, será necessário ofertar os programas em diversas “oportunidades de audiência”, de um jeito que fuja àqueles horários engessados (“não viu, perdeu”) do modelo antigo de televisão. Essa flexibilidade se estende também a acordos entre os canais tradicionais e os serviços de streaming já existentes, para que eles ajudem a dar sobrevida à sua programação. Há ainda os canais que estão lançando seus próprios serviços independentes de streaming lá fora e assim se mantendo relevantes e atualizados.

SERVIÇO
Grupo Autêntica/Divulgação
Renascença: A série de TV no século XXI
De Rodrigo Seabra. Autêntica, 336 páginas. Preço médio: R$ 48,90.

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