Estudo da Ancine demonstra queda brusca de audiência da TV aberta

Porém, a televisão tradicional busca caminhos para se reinventar

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postado em 18/10/2016 07:32 / atualizado em 18/10/2016 14:42

Reprodução/Internet

Depois de um dia cansativo, chegar em casa, ligar a tevê nos canais abertos, pegar o controle e zapear entre um canal e outro, torcer para que o programa preferido seja exibido... Tudo indica que essa forma de consumir conteúdo está com os dias contados. No último dia 7, um estudo divulgado pela Ancine (Agência Nacional do Cinema) constatou o que muita gente já imaginava — a televisão já não é a mesma. A participação da tevê aberta no setor audiovisual encolheu de 63,7% para 41,5% — uma retração de mais 20 pontos percentuais. Isso significa que a renda gerada pelas emissoras exibidas de forma gratuita diminuiu mais de 30%.

O estudo fez um recorte entre os anos 2007 e 2014, quando os serviços de streaming ainda não estavam tão populares quanto hoje. Vale, então, concluir que os números que atestam uma preocupante crise na tevê aberta poderiam ser piores. Um dos maiores analistas da tevê brasileira, o jornalista Maurício Stycer, blogueiro do site Uol e autor do livro Adeus, controle remoto (que será lançado na Bienal do Livro de Brasília no próximo dia 27) acredita que o aumento da oferta de meios para consumir audiovisual somada a uma melhora no nível socioeconômico podem ser os responsáveis pelo tempo de vacas magras pelo qual a tevê aberta passa.

Ainda maior rival, a tevê paga passou por um bom momento entre 2008 e 2012, com crescimento de 38%, segundo o Ibope. Segundo a Ancine, pela primeira vez as atividades de tevê a cabo são responsáveis por mais de 50% de toda receita do mercado. Esse movimento teve um freio no ano passado, quando as operadoras perderam 500 mil assinantes. Ainda assim, quase 20 milhões de lares têm o conteúdo diferenciado, personalizável e com imagem de melhor qualidade. “O cliente foi seduzido pela maior oferta”, explica Stycer. Outro concorrente tão potente quanto a tevê a cabo são os serviços de streaming. Com 4 milhões de usuários no Brasil, o principal deles, a Netflix, exibiu, no início do ano, renda que já ultrapassa a do SBT (R$ 1,1 bilhão, de acordo com o jornalista Ricardo Feltrin).

“Há um cansaço por parte do público de assistir a muitos conteúdos que a tevê aberta ainda investe porque são fórmulas que dominam, como programas de auditório e telenovelas. São hábitos arraigados e ligados à história da tevê e do rádio. O brasileiro gosta de novela, mais do que em outros lugares do mundo. Mas me parece evidente que se você assiste uma boa série de 15 ou 20 episódios e ela acaba, e se procura outras, dificilmente voltará a sentar no sofá e ver uma novela”, acredita Maurício, embora reconheça a rentabilidade desse tipo de atração.

Modelo

Para o especialista, o futuro recai sobre um modelo segmentado, algo difícil de se trabalhar com um público tão amplo quanto o que assiste aos canais abertos. “Acredito que eles vão mudar para canais onde se escolhe o que quer ver e na hora que quer ver. O público montando a sua grade. Então, esse tipo de tevê que passa de tudo um pouco fica em desvantagem”, sentencia. Entretanto, ele destaca que mais da metade dos lares brasileiros ainda não tem acesso a tevê a cabo.

Curiosamente, a audiência dos canais abertos pode ter diminuído justamente por conta do comportamento agressivo em busca de mais audiência. Na visão de Stycer, os canais que enganam o público em buscas de mais números no Ibope estão permitindo que o meio não se retroalimente. “Há muita gente que faz qualquer negócio pela audiência, para revertê-la em publicidade. Isso me incomoda. O modelo é esse, tudo bem, mas quando se leva um programa ao ar é preciso ter uma ideia do porque se está fazendo. Se a resposta é apenas por audiência, nascem produtos ruins, sensacionalistas, gente perdida em relação ao que fazer. O público não é burro”, critica.

Outro ponto negativo é a falta de conexão com a realidade e com novas pautas contemporâneas, como o empoderamento feminino, a representatividade negra e as relações homoafetivas. “A tevê é uma construção pública, tem a responsabilidade de tentar avançar nas questões onde tem se atraso e pensamentos retrógrados. Não podemos alimentar preconceitos, pelo contrário. A responsabilidade social dos canais ainda é muito tímida”, emenda o jornalista.

Mudanças que deram certo

Com a audiência em queda nos últimos anos, a tevê aberta abriu os olhos para o que seria um possível fim de uma hegemonia e aos poucos tenta se reinventar. Um dos primeiros sinais disso foi a mudança no formato das novelas. Como as tramas tradicionais estavam perdendo o interesse do público, as emissoras começaram a buscar inovações. A primeira novidade foi a procura de um novo jeito de contar histórias. Assim, emissoras criaram tramas que apostavam em linguagens diferenciadas.

Um bom exemplo é a novela Além do tempo (Elizabeth Jhin), exibida em 2015 na Globo, que, na primeira fase, se passou no século 19 e, na segunda, apresentou um salto de 150 anos, quando todos os personagens reencarnavam e tinham uma nova chance de corrigir os erros das vidas passadas. O formato de duas histórias em uma mesma novela garantiu alta audiência para a produção, que encerrou seus capítulos superando o Ibope das quatro tramas anteriores da faixa das 18h. “As telenovelas ainda são o principal produto da televisão brasileira. Ocorre, no entanto, que a fórmula batida desgasta a relação com quem assiste. Aquela velha história de que as novelas se repetem uma após a outra. Ou nossos veículos se atualizam, ou a queda de audiência será ainda mais perceptível. Mas todas essas mudanças (feitas pelas emissoras da tevê aberta), no entanto, ainda são muito experimentais”, analisa Endrigo Annyston, editor do site RD1, especializado em audiência da tevê.

Mais um recurso utilizado pelas emissoras foi a aposta em produções mais ágeis, como minisséries e séries, a exemplo de sucessos como Amores roubados (George Moura) e Felizes para sempre? (Euclydes Marinho). “Acredito que os formatos mais curtos, sem o compromisso diário ou sem a necessidade de passar meses seguindo, sejam mais interessantes para o telespectador, que hoje buscam mais agilidade e, não por acaso, cobram muito das novelas especialmente em redes sociais”, completa Annyston. Outra alternativa foi a criação de novos horários para exibir as tramas, como a faixa das 23h, que, na Rede Globo, teve grandes sucessos como Verdades secretas (Walcyr Carrasco) e O rebu (Bráulio Pedroso), e ainda a conexão com a internet. O seriado Supermax, de José Eduardo Belmonte, teve todos os episódios (exceto, o último que será exibido apenas na televisão) divulgados primeiro no serviço on demand, assim como Justiça, que teve quatro capítulos revelados antes na plataforma, e produções que tem conteúdos exclusivos para a internet – Totalmente demais, ganhou uma websérie Totalmente sem noção demais após o fim da trama, e Malhação.

Atrações

Os canais da tevê aberta ainda passaram a ter outros formatos além das telenovelas como alternativa para melhorar a audiência perdida nos últimos anos, como a forte presença de reality shows. Atualmente, a tevê mantêm diversas produções deste formato na programação — The voice Brasil, The X factor Brasil e Masterchef profissionais são alguns exemplos —, sejam elas como atrações principais, ou ainda, como quadros de atrações consagradas, a exemplo de Dança dos famosos, em Domingão do Faustão, e da franquia MasterChef, que fez a Band ultrapassar a Globo em audiência.

Reprodução/Internet


Apesar dos números da Ancine mostrarem uma realidade complicada para a tevê aberta ainda é difícil pensar que esse será o fim dos canais. Afinal de contas, a crise econômica do país foi responsável por aumentar a audiência dos principais canais em 2016. Segundo dados divulgados pelo site Uol, Band e RedeTV! tiveram um aumento de 11% em comparação com janeiro e maio de 2015. Enquanto Record e Globo, conseguiram ganhos de 7% e 2%, respectivamente. Apesar, o SBT não registrou aumento.

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