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Modernização do caipira: O que mudou na música sertaneja ao longo dos anos

Do surgimento aos dias de hoje, a música sertaneja passou por reformulações, muitas delas cíclicas. Atualmente, nomes como Daniel e Paula Fernandes, que podem ser considerados da geração anterior ao sertanejo universitário, tentam aproximação com o novo estilo

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postado em 23/10/2016 08:00

Adriana Izel

Marcos Hermes/Divulgação

O sertanejo é um dos estilos musicais brasileiros que mais passou por reformulações desde a sua criação em meados dos anos 1920. A música caipira, que retratava o ambiente rural e campestre, mudou a linguagem e até o ritmo, ganhando influência de outros gêneros como o bolero, o brega, o country, o forró, o funk e até o pop. “Trata-se de mais um ciclo de vitalidade de um gênero que, de 20 em 20 anos, se remodela completamente, sempre ampliando seu público e incorporando outras sonoridades”, explica Gustavo Alonso, autor do livro Cowboys do asfalto — Música sertaneja e modernização brasileira (2015).

Atualmente, alguns artistas considerados da geração anterior ao sertanejo universitário decidiram se aproximar dessas mudanças do ritmo, como Paula Fernandes e Daniel, que lançaram neste ano discos em que apostam em uma reformulação. Em Amanhecer — Ao vivo, a mineira deixou de lado sua veia mais teatral nas apresentações e mudou os arranjos de alguns clássicos da carreira. “Repaginamos tudo, do cabelo ao figurino. Nós investimos em um conteúdo que combinasse com o momento do show e que contasse bem a história da música de uma forma que também ficasse a critério da imaginação das pessoas”, disse a cantora ao Correio. Para isso, Paula trabalhou com o diretor Raoni Carneiro, que esteve à frente de produções mais pop, como os DVDs Meu lugar (Anitta) e Meu canto (Sandy), e também assina a direção do DVD de Chitãozinho & Xororó em parceria com Bruno & Marrone, que será lançado em breve.

Já Daniel escolheu Dudu Borges, produtor de nomes como Jorge & Mateus (Os anjos cantam, At the Royal Albert Hall — Live in London e A hora é agora) e Luan Santana (Acústico e O nosso tempo é hoje), para participar da concepção e gravação do CD homônimo, que marca uma nova fase na carreira. A intenção do artista era exatamente modernizar a sonoridade, até então mais clássica, de raiz. “Eu queria trazer um pouco dessas influências atuais e manter minha identidade. São 10 canções, todas inéditas, que representam uma renovação no meu repertório, uma virada de página, um novo ciclo que se inicia”, afirma o artista, que lançará a versão em DVD em novembro deste ano.

Evolução do estilo

Paula e Daniel buscaram se aproximar do sertanejo com ares mais pop em suas sonoridades, uma das vertentes desse ritmo tão diverso, que nos anos 2000 voltou a garantir espaço no mercado massivo brasileiro. “A música sertaneja sempre existiu. Acho que agora as pessoas são mais ecléticas. Aquele que gosta de samba, também escuta sertanejo. Acredito que a mensagem, por ser uma música simples e fácil de assimilar, foi o motivo da virada do ritmo”, explica Paula Fernandes sobre o novo momento do sertanejo, que arrasta multidões e dita o mercado musical brasileiro.

Para Gustavo Alonso, o sucesso do sertanejo universitário tem a ver com a mistura de estilos, como a inserção do forró e do funk, além disso sua iniciação independente. “Surgiu com os cantores distribuindo CDs, produzindo vídeos e áudios compartilhados pelas redes sociais. Quando passaram a vender 50 mil discos de forma independente, passaram a chamar atenção das gravadoras e catalisaram seu sucesso”, explica o especialista, em contraponto ao movimento dos anos 1990, quando nomes como das duplas Zezé di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo fizeram sucesso já apoiados por gravadoras.

Apesar de existir uma negação de alguns artistas caipiras em relação ao sertanejo universitário por conta da quebra com a tradição, a ascensão da nova vertente foi responsável por ajudar os mais puristas do estilo. “Catalisou-se ainda mais um mercado para produtos rurais, duplas passaram a ser novamente ouvidas e conseguiram espaços em shows. O mercado hoje é ainda mais potente do que nos anos 1990”, completa Gustavo Alonso.

Duas perguntas  /Gustavo Alonso

A música sertaneja passou por mudanças ao longo dos anos, saindo do tema rural para temáticas mais urbanas. Você concorda?

Certa vez Xororó respondeu essa pergunta: “Não adianta a gente cantar a música sertaneja pensando naquele público que não existe mais, do lampião à querosene. A gente adora falar do laço, da poeira, isso é muito bonito, mas nas fazendas já tem micro-ondas e parabólica”. Todos artistas rurais falam da realidade do campo. Mas é preciso perceber que o campo mudou e se mudou o modo de falar porque não podemos ignorar as mudanças estruturais que vivemos.

A nova geração ainda flerta com o sertanejo raiz?
Há diversos artistas que flertam com o “sertanejo raiz”. De Michel Teló a Paula Fernandes, de Jads & Jadson a João Carreiro & Capataz, todos já louvaram a tradição e regravaram canções de gerações hoje vistas como “de raiz”. É importante dizer que, em parte, o sertanejo teve sua importância revitalizada por estes sertanejos modernos, que com frequência regravam canções de outras gerações em busca da legitimidade pela louvação da tradição. Curioso é perceber que o que era “moderno” há algumas décadas, passa a ser legitimado pelo rótulo da “tradição” e “de raiz”.

O que mudou?

Muito se fala nas mudanças do sertanejo. Mas o que de fato foi alterado na música? Com ajuda do especialista Gustavo Alonso e sua pesquisa para o livro
Cowboys do asfalto, o Diversão&Arte elenca as principais alterações do estilo.

Mensagem: Do campo à cidade

Independentemente do período, a música sertaneja sempre primou (e primará) pelo romantismo. Inicialmente, o campo foi cantado pelos artistas caipiras, que depois apresentaram a urbanização do Brasil e as mudanças do meio rural. Alonso cita Saudade da minha terra, gravada por Belmonte & Amaraí em 1967, como exemplo da primeira “evolução”. A faixa trazia os problemas da acelerada urbanização e o inchaço das metrópoles: “De que me adianta, viver na cidade/ Se a felicidade não me acompanhar/ Adeus paulistinha, do meu coração/ Lá pro meu sertão eu quero voltar”. Depois, os sertanejos cantaram a nova realidade social, com músicas com temáticas como a dificuldade cotidiana até chegar aos dias de hoje em que o protagonismo das mulheres e a volta por cima em um término de um relacionamento amoroso são temas representados nas faixas.

Sonoridade: Aproximação do forró

Até os anos 1950, a música sertaneja era totalmente caipira. Porém, a partir daquela década à sonoridade recebeu influência do bolero e outros estilos latinos, como a ranchera mexicana, a guarânia paraguaia e o chamamé argentino, e daí surgiram as distinções. “Os sertanejos foram aqueles que se mostraram abertos às influências estrangeiras, enquanto os caipiras passaram a repudiar os sertanejos e visavam defender um purismo musical do passado rural”, explica Alonso. Nos anos 1960, o sertanejo teve outra reformulação sonora com a chegada das guitarras, baixos e bateria, depois com a inserção da música brega e do country norte-americano, além do sertanejo universitário até a chegada do forró e do funk nos dias de hoje. O especialista cita Ai se eu te pego, de Michel Teló, como o melhor exemplo dessa fusão. “É o retrato da música brasileira atual, que fundiu de vez os elos do sertanejo e do forró. Seus autores são do Nordeste e a canção nasceu funk, virou forró e foi gravada por um sertanejo, dominando o mundo”, afirma o autor. Hoje, nomes como Wesley Safadão e Simone & Simaria, artistas antes do forró, já passaram a ser considerados como do cenário sertanejo.

Vários ciclos: Ascensão feminina

Como Alonso aponta em seu estudo, o sertanejo vive de ciclos, que vão e voltam em um período de 10 a 20 anos. No momento, o que está bombando é a ascensão feminina, mas a participação das mulheres na música sertaneja não é de fato uma novidade. O gênero teve artistas clássicas como Inezita Barroso, Irmãs Galvão, Roberta Miranda, Sula Miranda e até Paula Fernandes antes da chegada de nomes como Marília Mendonça, Maiara & Maraísa e Paula Mattos, que dominam agora os rádios. “O que há agora é uma quantidade expressiva de artistas, várias delas compositoras, e um interesse por esse tipo de cantora tanto comercialmente quanto pelo público”, analisa Gustavo Alonso. Para isso, ele cita a mudança na construção das músicas. A temática do sertanejo universitário agora também tem a mulher como personagem principal. “Elas cantam músicas em que as mulheres bebem, sofrem e dão o troco na traição, estética construída pela geração universitária”, afirma o autor de Cowboys do asfalto. Um exemplo é a canção 10% da dupla Maiara & Maraísa: “Tô escorada na mesa,/ Confesso que eu quase caí da cadeira/ E esse garçom não me ajuda/ Já trouxe a 20ª saidera”.

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