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Bienal Brasil do Livro e da Leitura discute intolerância política e solidão

O escritor Marcelino Freire é um dos destaques da programação de hoje

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postado em 23/10/2016 07:35

Rebeca Oliveira /

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
 

Mais que apresentar novidades no mercado literário, a III Bienal Brasil do Livro e da Leitura tem por missão servir como ponte entre autores e leitores. Fundamental para a vitalidade do mercado, que tenta escapar da recessão, esse contato é estreitado durante os seminários e sessões de autógrafos do maior evento literário no Centro-Oeste. Às 11h, no Auditório Nelson Rodrigues, o escritor paulista Leonardo Sakamoto e o boliviano Rodrigo Hasbún participam do seminário Deslocamentos humanos: geopolítica, cultura, etnia, economia e religião, sob o tema Cultura, etnia e religião: intolerância e conflitos políticos no mundo contemporâneo. Jornalista e doutor em ciência política, Sakamoto acaba de lançar o livro O que aprendi sendo xingado na internet. O título, autoexplicativo, faz menção aos ataques que recebe toda vez que publica uma coluna em seu blog.

Mais tarde, a Arena Jovem Cecília Meireles recebe o seminário Vida urbana — novos espaços, novos caminhos, com a temática Liberdade, solidão e indiferença nas grandes cidades. O escritor Marcelino Freire é quem conduz a conversa. O autor de Angu de sangue, Contos negreiros e Nossos ossos é um observador atento das ruas e, consequentemente, de quem as habita. É o “livro” que ele mais lê, como afirmou em entrevista. A ideia de Marcelino, nordestino que se mudou para São Paulo, é contar um pouco da relação com a selva de pedra. “Achava que moraria no Recife o resto da vida e me deparo com a possibilidade de ir para São Paulo. Vou falar sobre liberdade e sobrevivência e das diferenças com que me deparei, desde a temperatura até a grandiloquência da capital. Meus livros estão impregnados da dicção paulista”, adianta.

Retroalimentado pela cidade, Freire lamenta que os moradores urbanos prefiram o contato virtual em detrimento do real. “As pessoas estão andando de cabeça para baixo, olhando seus celulares. As cidades hoje estão de cabeça para baixo. Às vezes, você encontra um conhecido no metrô ou ônibus, quer trocar um papo, paquerar, e não dá, está todo mundo assistindo à tela de celular. É muito diferente de quando cheguei aqui, porque as pessoas tomavam mais a cidade para si”, conta. “A prefeitura de Fernando Haddad (PT) pensou em uma cidade tomada pelas pessoas e fechou a Avenida Paulista para o povo andar de bicicleta. Não ganhou a eleição porque não há preocupação com isso. Estamos vivendo tempos melancólicos, solitários”, afirma Marcelino.

III Bienal Brasil do Livro e da Leitura
Até 30 de outubro, diariamente, das 10h às 22h, no Estádio Mané Garrincha. Entrada franca.

Duas  perguntas /  Marcelino Freire 

Pode-se dizer que, paradoxalmente, as redes sociais influenciam nessa solidão de quem vive nas grandes cidades? 

A ilusão de que a vida é muito cheia de fatos relevantes. A todo tempo você está curtindo coisas, mostrando pratos que comeu, coisas que comprou, lugares que visitou, é uma anestesia. O sentimento é importantíssimo para o intercâmbio e as manifestações, mas muita gente se esconde, só é ativo nas redes sociais. As pessoas perderam um pouco do seu instinto mais rústico, mais voltado a ação efetiva das coisas. Estamos o tempo inteiro em todo o canto, em todo lugar, compartilhando manifestações, mas a realidade pede outro comportamento, mais presente. Estamos ausentes e achando que estamos fazendo muita coisa.

Como tornar a literatura mais atraente com essa concorrência do entretenimento digital e multiconectado?
Esse tête-à-tête com o escritor — que tem viajado muito, de interior profundo a capitais — é essencial. Encontro leitores por essas cidades e me sinto bem quando faço isso. Levanto a cabeça, tiro as mãos do teclado e coloco meus pés na rua. Isso tem acontecido com muitos amigos. As pessoas acham que o escritor morreu ou está para morrer. Quando veem que ele está vivo, que pode provocar uma reflexão, as coisas acontecem. Basta ver a quantidade de saraus rolando por aí e tornam a literatura um pouco mais viva, pulsante, fora da página do livro. Isso é um aspecto a ser celebrado. Ao mesmo tempo que a cidade está de cabeça para baixo, o escritor não está só no seu casulo achando que já resolveu os conflitos da humanidade. Ele precisa pegar o leitor pela unha, perceber que não é mais o escritor tuberculoso. Cada vez mais, tem que ser atuante.

 

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