Morre aos 70 anos o músico Erasto Vasconcelos, irmão de Naná Vasconcelos - Diversão e Arte - Correio Braziliense
SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Morre aos 70 anos o músico Erasto Vasconcelos, irmão de Naná Vasconcelos

Percussionista estava internado no Hospital Miguel Arraes

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 28/10/2016 09:13 / atualizado em 28/10/2016 12:23

Larissa Lins

Facebook/Divulgação


O cantor, compositor e arranjador pernambucano Erasto Vasconcelos, de 70 anos, irmão do percussionista Naná Vasconcelos, morreu na noite desta quinta-feira (27), por volta das 21h, em decorrência de uma parada cardíaca. O músico olindense estava internado há dois meses no Hospital Miguel Arraes, em Olinda, em decorrência das complicações de um infarto sofrido no mês de agosto - quando foi levado às pressas para o Pronto-Socorro Cardiológico de Pernambuco Professor Luis Tavares da Silva (Procape), em Santo Amaro.

De acordo com Cenilda Vasconcelos, irmã de Erasto, o músico havia recebido alta da unidade de saúde (Procape) após fazer uma angioplastia, mas precisou ser internado novamente depois de sentir dificuldades para respirar. Conduzido até a Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) de Olinda, ele foi orientado pelos médicos a buscar atendimento no Miguel Arraes. Os familiares ainda não definiram o local e a hora do sepultamento, mas revelaram o desejo de Erasto de ter o corpo enterrado na cidade natal.

 

Erasto Vasconcelos iniciou a carreira musical nos anos 1960, acompanhando o Movimento Tropicalista e o Clube da Esquina. Morou em Nova York e em capitais brasileiras como Rio de Janeiro e Salvador. No exterior, participou de gravações icônicas, como a dos LPs Stone alliance, com Hermeto Pascoal e Márcio Montarroyos, e Eye on You, com Ronald Shannon Jackson. Tocou ao lado de nomes como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Stan Getz e participou de projetos com Alceu Valença, Zé Ramalho e Lula Côrtes. Voltou para o Brasil nos anos 1980 e, em 2005, lançou o primeiro disco solo, Jornal da Palmeira, com 12 composições próprias e produção de Fábio Trummer, da Banda Eddie, com quem Erasto costumava se apresentar. Artistas como Jorge Du Peixe, Pupillo, Dengue e Karina Buhr colaboraram com o disco de Erasto, do projeto gráfico aos vocais. Segundo Fábio Trummer, o álbum foi o único trabalhado no mercado fonográfico, mas não reunia todas as gravações de Erasto. "Ele tinha outras, chegou a fazer vários discos independentes, vários projetos por conta própria. Mas Jornal foi, possivelmente, o único conhecido no circuito comercial", explicou Trummer.

Além de músico, Erasto era também escritor. Escreveu e desenhou, em 1970, o livro Dez cantigas de roda, um maracatu, um afoxé, mas cuidado existe uma cobra, relançado em 2015 com uma edição fac-símile (reprodução exata da publicação original). A obra foi dedicada a Ginga, filha do artista.

Uma das últimas apresentações de Erasto foi no Festival de Inverno de Garanhuns, em julho. O irmão do músico, Naná Vasconcelos, também faleceu neste ano, em março, vítima de um câncer de pulmão. Em entrevistas, Erasto chegou a declarar algumas vezes que não se incomodava com o fato de ser irmão de Naná, dadas as comparações com as habilidades do irmão, mestre da percussão, premiado internacionalmente.

Repercussão
A morte de Erasto Vasconcelos chocou a classe artística pernambucana.

"Um anjo, música em forma de gente. Um poeta, um caboclinho tupinambá. Um Preto Velho, um instrumento, um afoxé inteiro, um gênio, pedra de rio, passarinho, uma estrela de papel celofane rosa grená. Chora o rio, o mangue, o mar, Olinda inteira, 'minha querida Recife, pequena mas porém decente.' Chora todo mundo.", declamou a cantora Karina Buhr baiana radicada em Pernambuco.

"Ficamos sabendo há pouco. Pupillo recebeu a notícia e comunicou ao grupo. É uma enorme perda. Um dia desses Erasto me enviou um livro artesanal de poesias, um livro dele, com escritos pessoais. Era uma figura muito próxima. O álbum dele [Jornal da palmeira] foi muito importante para mim, eu fiz a arte gráfica do disco. Era um álbum muito verdadeiro. Foi um baque grande perder Naná, e agora, no mesmo ano, Erasto. Estamos um pouco desnorteados. É mais uma enorme perda para a cultura pernambucana. Erasto tinha um carisma único, muito forte. Tinha sensibilidade poética e musical únicas. Adentrou com Naná o universo do jazz, era dotado de uma bagagem musical que Brasil não conheceu por completo. Fica a memória de tudo que ele fez.", afirmou Jorge Du Peixe, músico e vocalista da banda Nação Zumbi.

"Erasto foi tão generoso que nos proporcionou a sorte de estarmos todos reunidos nesse momento. Eu sou o único da banda que reside em São Paulo. Mas estamos com show marcado, então os caras estão todos na cidade. Quando recebemos a notícia, eles vieram para a minha casa. Foi uma coincidência reconfortante. Estamos ouvindo coisas dele, lembrando... Não sei se eu queria transformar esse momento em palavras. Há coisas que a gente não consegue descrever. Ele era, antes de tudo, um grande amigo. Porque antes de sermos músicos e trabalharmos juntos, nós somos amigos. Há uma fraternidade por trás disso. Além de dividirmos projetos, de tocarmos juntos, nós tínhamos a afinidade de conseguir compor juntos. Erasto foi quem primeiro deu credibilidade para que nossa banda frequentasse outros territórios da música brasileira. Ele nos ensinou outras dinâmicas, outros ritmos. A Eddie, no início, era uma banda muito associada ao rock, era uma banda chamada de roqueira. Hoje, a Eddie é uma banda de música brasileira. Muito disso nós devemos a ele.", disse Fábio Trummer, músico e vocalista da Banda Eddie.

Ouça Maranguape, um dos maiores sucessos de Erasto Vasconcelos:

publicidade

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.

publicidade