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Correio Braziliense

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Por meio do afeto, o grupo Aisthesis inova na pesquisa de linguagem

Os integrantes embarcam para Portugal, onde recebem as provocações da bailarina Vera Mantero

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postado em 30/10/2016 07:35 / atualizado em 28/10/2016 17:44

Diego Ponce de Leon /-

Rafael Godoy Brito /Divulgacao

Eles poderiam não ter feito nada. Pode-se dizer, com certa segurança, que cada um deles estava bem resolvido em seus respectivos ofícios. Gozam de repercussão e reconhecimento. Mas, nem por isso, estavam acomodados. Dispostos a aprofundar os desdobramentos da arte, as possibilidades de criação e as provocações de corpos inquietos, o diretor, dramaturgo e ator Jonathan Andrade; o professor e pesquisador Glauber Coradesqui; a coreógrafa e professora Giselle Rodrigues; a bailarina, atriz e pesquisadora Kenia Dias; e o ator e diretor Francis Wilker Carvalho compõem a amálgama autointitulada Aisthesis. Teatro, dança e performance em uma orgia acadêmica celebrada em plena faculdade do sentir.

Após longo período de pesquisa e experimentações, o grupo quer se abrir cada vez mais para o público e compartilhar essas construções coletivas. A próxima estação será Portugal, onde se encontram com a coreógrafa e bailarina Vera Mantero, referência na dança. E dali, para a rua.

“A primeira fase do projeto, iniciado em 2014, teve esse caráter de pesquisa, de conceito, onde experimentamos algumas questões radicalmente”, explica Glauber Coradesqui, um dos mais colaborativos nomes na pesquisa em artes cênicas da cidade. Nas experimentações, o coletivo acolhia discussões, debates, intercâmbio de ideias que pudessem suscitar reflexão sobre a arte cênica e a expressão física. Mais do que recorrer à teoria, o grupo se permitia sentir o outro, por meio da dança, do corpo livre, de abraços e de afetos. Nas palavras da professora e bailarina Giselle Rodrigues, integrante do Aisthesis e cânone da dança nacional (embora ela refute essas atribuições): “Aisthesis é uma festa que quebra protocolos estabelecidos em encontros coletivos. Dá espaço a manifestação de desejos, afetos, criancices, intimidades, esquisitices”.

Os encontros geraram não somente (auto)conhecimento e conteúdo de pesquisa, mas também materiais convidativos para quem estivesse de fora, como registros em vídeos e textos provocativos. Eventualmente, eles acolheram o público e aumentaram essa roda de sensações através de sessões abertas, onde qualquer um poderia opinar, criticar ou sugerir. Onde qualquer um poderia dançar, gritar, berrar, chorar e fazer uso da arte como ferramenta de canalização pessoal. E assim foi feito, ao encontro do que o projeto propunha, como o diretor e ator Francis Wilker lembra: “O Aisthesis tem uma dimensão de democratização do ato criador. Todo mundo tem vez, tem voz, pode compor junto... Um espaço sem hierarquias demarcadas”.
 
 
Carlos Moura/CB/D.A Press
"A potência do Aisthesis está no tanto que desafia a gente ao encontro com o outro"

Jonathan Andrade, ator, diretor e dramaturgo 
 



Ainda por vir 

Vencida essa etapa inicial, a ordem é deixar de lado a esfera acadêmica e se apropriar das ruas, convocando público e pensando em desdobramentos práticos. Glauber, inclusive, consegue pensar em algumas iniciativas recentes que tiveram a influência direta do projeto. “O espetáculo Fio a fio, de Giselle e Édi Oliveira (que fez parte da fase primária do grupo), traz a força de nossos experimentos, que foram ali incorporados. A Kenia, por exemplo, percebeu que nossa troca de mensagens pelo celular era um diário de bordo coletivo e está se debruçando sobre esse material”, lista.

Não há imposições. Pelo contrário. Eles querem reinventar o Aisthesis, principalmente por meio do contato com o espectador, que ainda não teve ampla oportunidade de conhecer o projeto. “Ganhar as ruas no sentido metafórico e real é gerar mais e mais encontros com esses e essas que tradicionalmente chamamos de público ou espectador. É abrir espaço, é romper qualquer barreira que separe a possibilidade da troca”, convida Francis.

E será Portugal um dos primeiros palcos dessa segunda fase, na qual eles flertam com o espaço urbano, e com quem o habita. E, por lá, entra a figura da bailarina Vera Mantero, que já esteve com o grupo em Brasília e que, agora, recebe-o em casa. “Em Portugal, a ideia é conquistarmos a radicalidade tão necessária nos laboratórios e experimentos, apontando para outras possibilidades de composição e organização do material inventado. Uma imersão de corpos do teatro, da dança, da performance, da dramaturgia... Faremos uma mistura de corpos e referências!”, aposta Kenia.

Enquanto isso, eles investem em uma das mais contundentes vertentes da empreitada coletiva, o contato com professores da rede pública do Distrito Federal. Por meio de exposições, aulas e debates, os integrantes do Aisthesis percorrem as escolas e levam a experiência da inter, trans e multidisciplinaridade aos docentes, sugerindo um novo olhar sobre o repertório, a estética e a dinâmica da sala de aula. E mal sabem os alunos que serão eles os mais importantes espectadores do Aisthesis.

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