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Filme de Vladimir Carvalho sobre Cícero Dias estreia em quatro capitais

'O compadre de Picasso' conta parte da vida do artista pernambucano que auxiliou o país no rompimento com o academicismo

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postado em 01/11/2016 07:34 / atualizado em 01/11/2016 09:56

Arquivo Pessoal
 

"Eu não escolhi fazer o filme sobre Cícero Dias, mas parece que fui escolhido; no que poderia soar a pretensão, sem ser”, observou o cineasta paraibano Vladimir Carvalho, em torno da realização do documentário Cícero Dias, o compadre de Picasso, longa-metragem que estreia na próxima quinta-feira, em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Com Jacques Cheuíche , o mesmo diretor de fotografia de longas como Oscar Niemeyer — A vida é um sopro e Edifício Master, Vladimir Carvalho reconta parte da vida do artista pernambucano que auxiliou o país no rompimento com o academicismo.

Colaborador de consagrados artistas como Eduardo Coutinho, Arnaldo Jabor e Geraldo Sarno, Vladimir também sabe se reinventar, como indicam fitas como Rock Brasília (melhor documentário no Festival de Paulínia) e O engenho de Zé Lins. A última, por sinal, foi a que aproximou o diretor da figura de Dias. “Havia sido chamado para o Ano do Brasil na França, com a missão de exibir alguns filmes e, ainda no avião, tomei conhecimento de uma retrospectiva do Cícero Dias e, tendo ido à Casa da América Latina para acompanhar, fui apresentado pelo galerista Jean Boghici tanto para a viúva Raymonde quanto para a filha dele, Sylvia”, explicou Vladimir. Na ocasião, filmando os quadros da exposição, ele foi chamado para conhecer o ateliê do artista em Paris.

O resultado da viagem renderia, inicialmente, apenas a apropriação de uma frase relacionada a Zé Lins. “Entrevistei Raymond e Sylvia, sem muita pretensão. Tratei mais da amizade do Cícero Dias com Zé Lins, e o material ficou quase 10 anos guardado”, comenta. Mas, e relação de Picasso com Cícero rendeu um documentário refinado — vencedor dos prêmios de melhor direção e melhor roteiro (na Mostra Brasília) do 49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

“Picasso meio que adotou um pouco o Cícero. Até o número do telefone de Picasso constava, na verdade, no nome do brasileiro. Num exemplo se percebe a afinidade: Cícero Dias passou, praticamente, toda a Segunda Guerra em Lisboa, e, em vez de voltar para o Brasil, recebeu uma nota de Picasso que exaltava Dias ‘pela presença feita necessária em Paris’”, conta.

Numa espécie de trilogia do modernismo (O homem de areia, O engenho de Zé Lins e o filme atual), Vladimir Carvalho, ao contar a história de Cícero Dias, recorre ao exemplo das rupturas de Henri Matisse, na Paris do século 20. “Cícero enfrentou o retrocesso enorme, na receptividade, por parte da imprensa. Tem paralelo com Matisse que, defendendo Retrato de Madame Matisse, frente à crítica de uma senhora, incomodada pelo tom verde da retratada, disse: ‘Minha senhora, isto não é uma mulher; é uma obra de arte’”, diverte-se.

Embate

O choque entre o velho e o novo move a trama da fita feita em caráter “genuinamente independente”. Carvalho tomou conhecimento de Cícero (morto em 2003), presenciando o conflito entre o pai, “atento a muito da arte”, e um reacionário tio arquiteto. Para além dos bastidores do painel Eu vi o mundo... Ele começava no Recife, as fases solares, líricas, surrealistas e abstracionistas de Cícero Dias dão parte do tom do longa que conta com músicas de Leo Gandelman.

Duas idas a Paris e três para o Recife renderam farto material de imagens para Vladimir Carvalho. O filme abarca observações do historiador Waldir Simões de Assis Filho, do pesquisador de arte Mário Pedrosa, do crítico de arte Frederico Morais e do artista Francisco Brennand.

O cineasta conta que uma exposição, montada no Recife em 1948, demarcou embates entre críticos, pela comunhão de Cícero com figuras como Pablo Picasso, Georges Braque e Fernand Léger. “Foi uma exposição bomba, já que o refluxo da Semana Moderna de 1922 ainda enfrentava um bloqueio. Convidados por estudantes para a mostra, até mesmo Orígenes Lessa e Rubem Braga compareceram, e foram ‘encostados na parede’ pela amizade com Cícero. Foi como um verdadeiro julgamento público, na base do embate”, comenta. À época, sem sustento de afirmação completa, a arte de Cícero Dias ainda pairava ‘entre reinos’ (interregno, como pontua Carvalho). Um caso de realidade confusa que o cineasta paraibano esclarece em Cícero Dias, o compadre de Picasso.

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