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Debora Bloch: 'Teatro é resistência'

Atriz fala do palco como local de militância, aborda temas feministas e reforça a importância de se combater o conservadorismo

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postado em 01/11/2016 07:35 / atualizado em 01/11/2016 11:36

Diego Ponce de Leon /-

Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z Notícias
 

Em determinadas cenas do seriado Justiça, ela foi capaz de furtar a atenção do espectador apenas pelo olhar em cena. Debora Bloch é dessas. Atriz na essência. Daqueles que engatilham cada músculo do corpo ao incorporar um personagem, ao adentrar o sagrado palco.

Talvez por isso, tenha sido sempre tão cuidadosa na escolha dos papéis. Em vez de trabalhos fáceis, de apelos gratuitos, ela sempre preferiu um repertório instigante, que a desafiasse. Nunca pensando em audiência ou visibilidade. Sempre pensando no compromisso com o ofício. Destarte, Debora goza de uma admiração quase unânime, seja por parte da classe artística, seja por parte do público. E Brasília a recebe com o espetáculo Os realistas, que conta ainda com Mariana Lima, Guilherme Weber e Fernando Eiras no elenco. 

 

Embora seja conhecida por conta das colaborações em A vida como ela é..., A comédia da vida privada, Avenida Brasil ou TV Pirata, Debora também fez carreira no cinema e se consagrou diante da plateia viva do teatro, deixando lições de interpretação em peças premiadas como Fica comigo esta noite ou Tio Vânia. Desta vez, ela retoma o espaço cênico sob a direção do sempre competente Guilherme Weber, que nos provoca a repensar a vida mundana, o estigma da felicidade e nossas dificuldades em encarar fraquezas, a partir de texto do dramaturgo norte-americano Will Eno.

Em entrevista exclusiva ao Correio, além de comentar sobre o espetáculo, Debora reforça a importância do teatro como local de reflexão, questiona o moralismo vigente na política e refuta a intolerância.

Entrevista // Debora Bloch

Will Eno escreve sobre cidadãos mundanos, ordinários. O que há de belo por trás desses personagens tão comuns?
O que há de belo é que somos todos iguais, apesar de diferentes. Todos tememos a morte, todos buscamos o amor e todos buscamos dar sentido à vida.

E o que lhe motivou a retomar a produção teatral?
Produzir é ter alguma autoralidade sobre o meu trabalho. Escolher que texto vou dizer, com quem vou trabalhar, que linguagem usar. Por isso, sempre produzo meus espetáculos, para estar no palco, dizendo algo que acho relevante.

Christian Gaul/Divulgação
Sua personagem parece viver uma falsa felicidade constante. Há uma metáfora com a realidade? Estamos, constantemente, disfarçando nossas fraquezas e angústias?
A minha personagem é uma mulher que envelheceu, mas não amadureceu. Ela não quer entrar em contato com seus problemas, angústias, fraquezas e dificuldades. Acho que há uma metáfora com a realidade sim, mas, por outro lado, os outros personagens lidam de maneira diferente com tudo isso. E essa é também a beleza da peça. Como cada um de nós lida de uma forma particular com os mesmos problemas. Podemos enxergar várias metáforas na peça.

Aos 53 anos, o fluxo de trabalho muda? As oportunidades mudam?
Olha, estou vivendo um momento muito bom no trabalho. Eu me esforcei numa direção para fazer trabalhos de qualidade e que tivessem relevância para mim em termos de assunto, linguagem e qualidade. Trabalhos que têm a ver com meu amadurecimento como pessoa e, consequentemente, como atriz. Por isso escolhi produzir esse texto no teatro. E tive a sorte de ser convidada para fazer a minissérie Justiça no mesmo ano. Mas acho que tudo é uma consequência de uma busca artística minha, de trabalhos com profundidade. Mas não é muito evidente ter personagens relevantes para mulheres de 53 anos. Quando temos mulheres escrevendo, elas aparecem mais. Tive sorte.

E a atuação, amadurece?
Já a atuação com certeza muda, porque o ator é o que ele viveu, leu, viu do mundo. A sua experiência de vida melhora a sua atriz. Você passa a ter mais recursos internos de compreensão da história que está contando e das personagens. Além disso, você tem mais técnica, está mais treinado. E isso só o tempo te dá.

Em mais de três décadas de carreira, você protagonizou peças marcantes e premiadas, mas não foram muitas. Qual o lugar do teatro na sua jornada?
O teatro é que me treina como atriz, me dá recursos, me permite experimentar zonas diferentes de atuação. Eu gosto do palco, do público presente, e do processo de ensaio e descobertas que só o teatro te dá. Não foram muitas peças porque, como produzo, demoro para encontrar um texto que seja relevante e me faça ter vontade de enfrentar o processo de produção que está cada vez mais difícil no teatro. E esse processo entre encontrar o texto e conseguir levantar a produção pode ser bem longo. Além disso, fico muito tempo em cartaz com cada peça. Fica comigo esta noite ficou cinco anos em cartaz. Levamos a peça para todas as cidades possíveis do Brasil, ficamos longas temporadas em algumas. E, quando meus filhos estavam pequenos, eu não quis mais fazer teatro e tevê ao mesmo tempo, então nem sempre conseguia conciliar tudo. Mas o teatro para mim é uma necessidade artística, preciso dele para me sentir viva artisticamente.

A busca por público no teatro se tornou uma militância?
Fazer teatro se tornou uma militância. Um ato de resistência.

Há como se fazer teatro sem recorrer a editais e patrocínios?
Infelizmente, hoje em dia não conseguimos pagar uma peça com o dinheiro da bilheteria. Seria ótimo se tivéssemos essa opção. Então, não vejo como não recorrer a editais e patrocínios.

Sua expressão em cena é uma aula de contundência e compromisso com as personagens. Como desenvolve essa pesquisa pelos papéis? Quais elementos engatilham seu corpo para a cena?
Obrigada! Meu processo começa sempre pela compreensão do texto, da história que estou contando e de que mulher estou falando. Que mulheres estou representando? A partir daí é que começo a pesquisar como é essa mulher, o que ela é, como se comporta, o que ela sente. E quando tenho essa compreensão, o corpo vai aparecendo no processo de ensaio.

De que maneira a feminista Debora Bloch tem acompanhado o cenário político atual?
Ando bastante assustada com a onda de conservadorismo e retrógrada que se apresenta. Não imaginei que fôssemos retroceder tanto! Acho que precisamos de reforma política urgente, mas não vejo como isso possa acontecer com esse Congresso...

Você elogiou a personagem de Sonia Braga, Clara, de Aquarius. Identifica-se com ela? O que há naquela mulher que deveríamos prestar atenção?
Acho que o Kleber Mendonça prestou um grande serviço às mulheres com esse filme.

Enquanto figura pública, acredita ser sua responsabilidade colaborar com o debate político?
Acredito que seja minha responsabilidade colaborar com o debate político como cidadã antes de tudo. Não gosto da ideia de usar a figura pública para isso. Mas acho que assim como meu pensamento crítico foi influenciado pelos artistas que eu admirava e com os quais me identificava, eu posso ajudar no debate político da mesma forma.

Em 2015, você revelou ter encarado um aborto na juventude. Temos que falar sobre esse tema? Temos que avançar nesse tema?
Temos que avançar muito. Estamos muito atrasados nesse assunto. As pessoas confundem ser a favor da legalização do aborto com ser a favor do aborto. Ninguém é a favor do aborto, mas sim da legalização dele. Para que as mulheres que não têm recursos financeiros parem de morrer fazendo abortos ilegais em condições precárias. O aborto deve ser um direito de escolha da mulher, em condições seguras e legais.

Neste panorama de intolerância, o teatro pode ser local de refúgio e reflexão?
O teatro é e sempre será um lugar de reflexão e liberdade. Essa é a real função do teatro.

A arte poder ser ferramenta de combate à frente conservadora que toma o poder?
Os artistas historicamente sempre estiveram à frente da luta pelas liberdades e contra o conservadorismo, no mundo todo. E assim continua sendo.

Consegue imaginar um Brasil com drogas legalizadas ou com tolerância entre as religiões ou com teatro nas escolas? Ou são temas para poesias utópicas apenas?
Difícil de responder… Mas quero acreditar que sim, mas talvez eu não veja isso acontecer, quem sabe meus netos (risos). A luta é longa!

SERVIÇO
Os realistas
Direção de Guilherme Weber. No Teatro Unip (913 Sul). De terça até quinta-feira, sempre às 20h. Ingressos a R$ 45 (meia-entrada). Não recomendado para menores de 12 anos.

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Leonardo
Leonardo - 02 de Novembro às 12:29
Ja possui uma boa idade porem pouco conteúdo !

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