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Artistas da pele: maquiadores desvendam o universo por trás dos pincéis

Eles contam como é a criação para personagens e efeitos especiais, além da relevância estética para os palcos

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postado em 02/11/2016 07:40 / atualizado em 01/11/2016 19:27

Rodrigo Carletti/Divulgação
 
Muito além de rápidas pinceladas para cobrir imperfeições da pele, a maquiagem artística se destaca como um dos importantes elementos de criação da linguagem cênica e requer reflexão estética, pesquisa e elaboração. O trabalho com maquiagem auxilia atores, dançarinos, performers e artistas circenses a exprimirem emoções e o caráter simbólico de seus personagens. Profissionais brasilienses, especialistas na arte de criar com pincéis sobre a pele contam como acontece o processo de criação para este elemento da cena e como ele é importante no conjunto levado aos palcos. Variando entre criações realistas ou poéticas, a maquiagem cênica pode ajudar a transmitir mensagens na cena, quando colocada de maneira forte e pertinente com o espetáculo.

A atriz Cyntia Carla é uma das maquiadoras mais conceituadas da cidade no gênero e já era pintora antes de começar a fazer teatro. Ela explica que a maquiagem está diretamente ligada ao corpo, à pele do ator e pode potencializar sua expressividade além de aproximá-lo das características físicas e simbólicas da personagem. Quando o ator entende e tem domínio do que a maquiagem representa para uma proposta cênica, pode dominar suas características e acentuá-las em cena. O processo de criação é amplo e varia conforme o espetáculo. “Eu realizo uma pesquisa imagética que não abarca somente a maquiagem. Antes de iniciar os estudos é preciso entender como aquela proposta se encaixa na encenação e como ela pode ajudar, só depois de entender o contexto passo para as personagens especificamente”, declara.
 
 “A maquiagem está diretamente ligada ao corpo, à pele do ator e pode potencializar sua expressividade além de aproximá-lo das características físicas e simbólicas da personagem"
Cyntia Carla 

Outro detalhe específico do estudo de maquiagem é que ela trabalha e depende da estrutura facial do ator e deve ser adaptada para este rosto (que se modifica conforme a interpretação proposta). “Existem muitos tipos de maquiagens e cada uma trabalha de forma distinta. As maiores variações são conforme a distância do público, necessidade de aproximação com o real ou destaque de estruturas simbólicas propostas pela encenação”, conta Cyntia. A artista lembra que maquiagem é pesquisa e muito treino para que se entenda o próprio traço como maquiador. O mercado engloba diferentes vertentes, dentre elas: animação de festas, maquiagens para festas, dança, cinema, publicidade, fotografia e teatro.
 

Natália Maia é atriz e escolheu a maquiagem artística e cênica como um de seus pontos de estudo por acreditar que ela é um dos principais elementos da encenação. O trabalho feito na pele reforça as características dos personagens, caracteriza e descaracteriza indivíduos e possibilita a criação de seres diferentes, além de valorizar a interpretação através dos traços expressivos. “Nos meus estudos teatrais, tendo como referência o professor Jorge Graça Veloso, entendo que essa criação pode se dividir em três aspectos: Os fazeres do corpo, Corpus teórico-metodológico e Tecnologias aplicadas ao espetáculo. A maquiagem se contextualiza dentro dessas tecnologias, que tem a função de suporte ao espetáculo teatral”, explica a atriz. Além disso, a técnica pode ser utilizada em outras áreas, como circo, cinema e televisão. Cada maquiador escolhe o estilo e as técnicas a que melhor se adequa.
 
 

O desenho do personagem
Roberto Dagô também escolheu ampliar seu trabalho com maquiagem para criar uma ponte entre seus estudos nas artes cênicas e artes visuais. A ideia era focar na concepção e caracterização dos personagens que interpretava através do prazer de pintar e desenhar sobre a pele. O artista acredita que a maquiagem é tão importante quanto a cenografia, o figurino, a luz, a partitura corporal, o texto ou a emoção articulada por um ator no momento do espetáculo. Todos estes elementos se unem para compor uma atmosfera de textos visíveis e invisíveis para o espectador. “Estamos rodeados por imagens o tempo inteiro em todos os lugares e nossa leitura do mundo é atravessada radicalmente pelas sensações produzidas pelo que vemos. Na cena, o mesmo acontece. A maquiagem pode caracterizar um personagem antes mesmo que o ator fale uma palavra ou execute qualquer movimento”, declara.

Ela  pode reforçar e deixar mais clara a identidade de uma personagem e abrandar ou enrijecer feições. Além das pesquisas e referências imagéticas, Dagô conta que seu processo de criação acontece sempre ao lado dos demais profissionais de espetáculos, para que a harmonia dos elementos esteja presente na cena. “Além disso, um maquiador que esteja desenvolvendo uma maquiagem com cor, por exemplo, terá total interesse em conversar com o iluminador, pois uma cor colocada na iluminação da cena pode anular completamente o efeito criado”.
 
 Matheus Britto/Divulgacao
 

Enquanto isso, a maquiadora Luênia Guedes lembra que a maquiagem é muito importante por poder transformar o ator visualmente e isso compõe diretamente com os conceitos e dramaturgia de um trabalho artístico. “Geralmente, o processo de criação vem acompanhado de uma imersão no tema, nessa imersão fico atenta a múltiplas referências, elas podem ser textuais, visuais e até mesmo de materialidades. Eu tenho uma pesquisa que desenvolvo com meu Coletivo Entrevazios que explora mais a maquiagem corporal numa perspectiva de intervenção artística”, explica. A maquiagem, por si só, já é uma expressão artística, podendo assumir tranquilamente sua legitimidade de protagonismo da expressão artística.

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