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Em entrevista exclusiva, Nelson Motta não mede palavras ao falar de música

O compositor, produtor e escritor recebeu o Correio em casa, onde respondeu perguntas sobre a longa carreira

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postado em 06/11/2016 07:30

Daniela Dacorso/Divulgação

Rio de Janeiro –
Nelson Motta recebeu a reportagem do Correio em casa. O apartamento, com vista para a praia de Ipanema, resume parte da trajetória do produtor, compositor e escritor (entre outras atribuições). Logo na parede de entrada, podem-se ver discos de ouro de alguns artistas que  ele produziu, como Marisa Monte, Fernanda Takai e As Frenéticas. A lista inclui outros nomes, a exemplo de Elis Regina. Entre os livros, sobram títulos referenciando Maria Callas. Um pôster de Tim Maia chama a atenção. Assim como o épico cartaz de Hélio Oiticica, onde se lê “seja marginal, seja herói”. Na poltrona, de costas para a vista e com os pés descalços, Nelson Motta fala sobre o novo livro, 101 canções que tocaram o Brasil, revisita a carreira e relembra alguns dos artistas que viu de perto. E ele viu todos.
 
>>Entrevista // Nelson Motta  

Você mesmo chegou a dizer que seria possível eleger 1001 canções que marcaram o país. Como, então, foi possível chegar a essas 101 canções? 
Eu achei que seria fácil. Mas foi um dos trabalhos mais difíceis da minha vida. Primeiro, veio essa história de fazer as 101 canções mais belas, o que eu disse que não faria. Seria impossível. Veio então a provocação de fazermos as 101 canções que mais tocaram o país, o que me pareceu mais plausível, pensando em “tocar” em duplo sentido: as canções que mais tocaram nas rádios e que mais tocaram no coração dos brasileiros.

E chegamos às 101 canções... 
E chegamos penosamente (risos). O livro estava indo para gráfica e eu ainda pensando em trocar uma ou outra. É uma tarefa difícil, não é verdade? Temos compositores que poderiam sozinhos compor uma longa lista. Eu queria colocar 10 músicas do Tom Jobim, mas não tem como. Aí, entrou critério pessoal. Do Chico, por exemplo, entrou Construção, Apesar de você, Olhos nos olhos... impossíveis não entrar. Mas coloquei Futuros amantes também, porque é a que mais gosto.

Uma de suas composições mais conhecidas, Como uma onda, está no livro... E essa escolha por músicas próprias foi difícil? 
Não tive problema em colocar Como uma onda. Uma das minhas ferramentas na pesquisa foi justamente recorrer a outras listas já produzidas por aqui, “As 50 mais”, “As 100 mais”, “As mais históricas”, “As mais incríveis”... .Como uma onda está em todas. Todo mundo gravou: Caetano, Roberto Carlos, Jorge Drexler... Qualquer show do Lulu é sempre uma avalanche. Uma música que tocou profundamente nos sentimentos e na rua.

No livro, você escreve sobre si próprio na terceira pessoa. Por quê? 
Eu passo o livro inteiro escrevendo sobre os outros. Acho que ficaria estranho, de repente, o leitor esbarrar com um “conheci Lulu Santos” (risos). Estranho, não? Mas isso é só no livro! Não vou ficar igual ao Pelé ou ao Guimarães Rosa. Eu conheci o Guimarães Rosa, inclusive, que era amigo do meu avô. Ele era meio afeminado, quase “pintosa”, e falava na terceira pessoa: “Meu filho, Guimarães Rosa adorou a sua presença! Avise seu avô que estavas a conversar com Guimarães Rosa”. Sempre na terceira pessoa! Como se falasse de uma outra pessoa. Vai ver a primeira pessoa era gay e a terceira hétero. (risos)

Entre 1969 e 1977, você ficou longe das composições. Foi por conta da ditadura? 
Rola uma brochada geral ali. Eu volto com Dancin’ days. A ditadura não me deixou à vontade para compor. Felizmente, outros seguiram escrevendo naquele período. Mas coincide também com algumas mudanças na minha vida, como quando fui chamado como produtor na Philips, quando comecei a trabalhar com Elis, Maria Bethânia, Baden Powell... P...! Um sonho.

Falando nesse pessoal, a gente sempre escuta “nunca mais teremos outra Elis”, “não nasce outra Bethânia”, “a música brasileira nunca mais será a mesma”... Isso é uma crítica pertinente ou mero saudosismo? 
As coisas não se repetem. Mas a música vem se diluindo, como se estivesse se tornando menos importante. Nos anos 1960, 1970, a música transcendia, era um discurso pronto, era trilha das grandes transformações, era o grito de guerra contra os regimes... Hoje, é muito mais difícil descobrir algo incrível. A oferta é tão avassaladora que é difícil chegar nos grandes talentos, embora eu tenha certeza que eles estejam por aí. Além disso, a música não tem mais a ambição do passado. Fazer sucesso basta. Como disse o grande David Bowie, música se tornou uma commodity.

Você acredita que se fosse escrever o livro daqui a 30 anos, incluiria sucessos de Anita, Mc Guimê e Ludmilla? 
É preciso se distanciar para identificar a música que foi apenas popular, e desapareceu em um ano, da outra que permaneceu. Nas palestras me peguntam muito isso: “A música dos anos 1970 não era muito melhor?”. Geralmente, pessoas da minha idade ou pouco mais novas. E digo que envelhecer faz parte, mas ficar antigo é insuportável. Daqui a pouco, chega o outro: “A música parou nos anos 1980”. Esse está na casa dos 40 anos. E temos até aqueles que já falam dos anos recentes: “Estávamos há pouco revelando Ed Motta, Marisa Monte, Calcanhotto, e agora estamos escutando esse lixo?”. No futuro, saberemos as músicas que, de fato, ficaram.

Agora, há quem diga que Caetano, Chico, Gil... nunca mais foram os mesmos. Deixaram o discurso social e a subversão de lado e estão cobrando R$150 no ingresso... 
Não acho que tenham se tornado mais “mercenários”. Justamente por terem permanecido na ativa até hoje é que não precisam de dinheiro e coisas assim. Mas todo o mercado do espetáculo mudou. Fazia-se teatro com bilheteria. Pegava-se empréstimo no banco, fazia-se temporada, e pagava-se. As coisas não são mais assim. Fora a digitalização da música, que barateou o produto. A desvalorização da canção gravada valoriza a apresentação ao vivo. São outros tempos.

Se escrevesse sua autobiografia, seria chapa-branca? 
Acho que a minha estaria mais para tarja-preta! (risos) O Noites tropicais tem muita coisa biográfica, mas minha vida é muito mais que aquilo. Se alguém fosse escrever acho que seria meu sobrinho, Pedro Motta Gueiros. Meu biógrafo oficial. Confio nele, ele tem bom senso (risos).

Na biografia de Tim Maia, por exemplo, você teve esse cuidado? 
Nenhum. Claro, tive o cuidado com aquilo que estava apenas na boca dos outros, para não dar merda. Mas em relação ao Tim, se eu tirasse algum episódio ou outro, ele próprio ficaria puto. Ele adorava ser do jeito que era. Os golpes, as escrotices.. está tudo lá. Se eu fizesse o Tim comportado, seria uma traição.

Mas percebo esse cuidado com o musical da Elis... 
Ah, claro. É uma coisa fundamentalmente diferente. Primeiro, a linguagem do musical é absurda, em que as pessoas contam uma história cantando e dançando. O musical não é um Globo repórter. Ele tem um pouco de ficção, de fantasia, as coisas precisam ser sintetizadas. Eu ia ficar focando em cocaína?  Não é uma investigação. É uma simbologia. Quem sabe da história sabe, quem não sabe... “Ah, ela morreu de que mesmo, minha filha?”, “Foi uma overdose de álcool e cocaína”. Se álcool e cocaína matassem alguém tinha acabado 90% da música brasileira.

A música de Brasília te marcou? Esteve com Renato Russo? 
Convivi muito pouco com ele. Quando ele estava no auge, eu estava nos Estados Unidos. Vi um único show da Legião, no Morro da Urca. Mas gostava dele e, mesmo nas raras chances, nossos encontros me marcaram. Ele gravou Como uma onda em italiano! Uma figura impressionante. Renato é o tipo de compositor que me comove pela precocidade.

E como está Nelson Motta depois dos 70 anos? 
Estou me lixando para a idade. Quem não gosta muito desse papo é o Jorge Ben Jor. É tabu. A cada ano, ele está mais novo do que eu. (risos) No ano passado, no que teria sido os 70 anos dele, fiz uma coluna exaltando o rei máximo da música brasileira, enchendo a bola dele. Mas soube que ele ficou meio puto por eu falar em “70 anos”. Até brinquei no texto dizendo: “Se a data não for essa, a gente comemora de novo”. Mesmo assim, ele não achou graça. Mas uma das maiores felicidades da minha juventude foi ver Jorge Ben Jor ao vivo. A primeira de tantas outras vezes. Mesmo que ele jure que seja mais novo que eu! (risos)

O repórter viajou a convite da editora Sextante 

Editora Sextante
101 canções que tocaram o Brasil 
De Nelson Motta. Editora Sextante. 224 páginas. Preço médio: R$60.

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