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Correio Braziliense

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Tatuadoras da cidade conquistam espaço em um ramo antes dominado por homens

As mulheres se consolidam cada vez mais no ramo das tatuagens e mostram que este espaço, como qualquer outro, pertence a todos. Na UnB, exposição reforça 'tattoos' como expressão artística

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Arquivo Pessoal

Com profissionalismo e talento nos traços tatuadoras abrem cada vez mais seu espaço em um ramo antes dominado por homens. Na contramão dos estereótipos que reforçavam a presença predominante dos tatuadores, elas mostram que há espaço para todos os gêneros e estilos nos estúdios. Os desenhos passam pelas mais diversas estéticas e a atual geração colhe os frutos das primeiras artistas que abriram caminho neste mercado. Vale lembrar que no primeiro censo de tatuagem do Brasil, feito pela revista Super Interessante, as mulheres apareceram como maioria no número de tatuadas, representando 59,9% do número total.

Um dos nomes femininos mais tradicionais no mercado brasiliense é o de Hosanir Finotelli, conhecida como Medusa. A goiana de 56 anos trabalha como tatuadora desde os 20 e foi uma das grandes responsáveis por abrir caminho para as mulheres nos estúdios da capital. Medusa já recebeu diversos prêmios de honra por seu conhecimento no ramo e sente orgulho por contribuir para diminuir o preconceito em mais uma área rodeada de estereótipos. “Eu quis começar justamente porque não havia mulheres neste ramo, achavam que era coisa para homem. Hoje em dia existem mais facilidades para começar, mas ainda existe preconceito”.

Representante da nova geração de tatuadoras brasilienses, Gabriele Fune tem 24 anos e tatua desde os 19. A vontade veio quando acompanhou a mãe em sua primeira tatuagem e, por desenhar desde sempre, ficou fascinada com a possibilidade de deixar uma criação permanente na pele. A tatuadora afirma que é preciso muita disciplina e disposição para aprender o ofício. “É preciso desconstruir tudo aquilo que você acha que sabe, saber ouvir e aceitar o que estiver errado e, ainda assim, se manter verdadeiro com aquilo que se acredita, é um aprendizado diário”.


Gabriela gosta de trabalhar com desenhos diversos, além de se manter aberta a novos estilos e técnicas para o trabalho. A cada projeto cria-se uma solução diferente, com possibilidades de ponto, cor, linha fina. O importante, destaca a tatuadora, é lembrar que a tatuagem deve ser bem pensada e aplicada como algo que envelhece e muda com o tempo.

A brasiliense ressalta que o nível dos profissionais na cidade é alto e para conquistar uma carreira relevante e duradoura no meio, é preciso manter a vontade de melhorar sempre, ter boa conduta e respeito com clientes, colegas de trabalho e com o próprio ofício. Gabriela acredita que o preconceito em relação às mulheres diminuiu muito nos últimos anos mas ainda existe. “A dor de cabeça de levar uma cantada que não é bem-vinda por usar uma roupa curta é a mesma quando isso acontece na rua ou no estúdio. Mas a cada dia isso se desconstrói mais. Gosto de pensar que um dia ser mulher não será mais visto como ser uma sobrevivente em um sistema opressor, e ser tatuadora não será mais uma novidade e seja tratado como algo normal e corriqueiro”, afirma.

 

A pele como tela

Arquivo Pessoal

Juliana Lue tem 25 anos e começou a trabalhar como tatuadora aos 23. Aliás, foi o desejo de trabalhar com os traços na pele que a impulsionou na procura pelos estudos de artes plásticas. Seguindo o conselho de amigos tatuadores, Juliana treinou o traço ao longo dos anos e se formou em artes plásticas pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes antes de comprar o primeiro kit-tattoo. A tatuadora destaca a importância de que, além de treinar o desenho, é preciso conhecer melhor o corpo humano, já que a pele será o principal material de trabalho. “A gente precisa entender a expectativa de cada cliente. É interessante que no El Bando, estúdio onde trabalho com tatuadores e tatuadoras, o público feminino é sempre maior. Vejo também a cada dia um número maior de mulheres nessa profissão, com trabalhos excelentes e com um reconhecimento profissional inspirador”.

Adepta das tatuagens feitas com técnica de pontilhismo, figuras geométricas, hachuras e muita tinta preta, Juliana conta que percebe maior curiosidade das pessoas interessadas em tatuagem por conhecer o trabalho feito por mulheres. “Já trabalhei em muitos ambientes difíceis, sempre temos que persistir para sermos aceitas em diversas áreas”. Mas com o profissionalismo e um trabalho cada vez mais primoroso com as agulhas, os traços femininos ganham cada vez mais o devido reconhecimento.

Para aprimorar o ofício é preciso estudar o funcionamento das máquinas utilizadas, a qualidade e diferenças entre os tipos de tinta e espessura das agulhas. Em relação ao melhor aspecto do trabalho como tatuadora, Gabriela Fune afirma que se sente realizada em poder compartilhar algo seu com pessoas de todos os tipos de crenças e culturas. Receber clientes de diferentes cidades e países, além de ouvir suas histórias ao longo das sessões são outros pontos fortes. A responsabilidade é grande ao deixar um desenho permanente na pele e, sendo assim, a tatuadora lembra que é preciso dar sempre o seu melhor. Vale lembrar que a prática de marcar o corpo é tão antiga quanto a própria humanidade.

 

Expressão artística, sim senhor

Maya Macario/Divulgacao
 

 

As tatuagens, antes vistas com preconceito e intolerância, estão cada vez mais sendo abordadas e estudadas na arte contemporânea. A marcação no corpo é uma atividade milenar que já foi usada para identificar criminosos, unir tribos e clãs, expressar personalidades, exaltar ou esconder particularidades. A exposição Arte à flor da pele, idealizada por alunos das disciplinas Museologia da comunicação 3 e Museologia da comunicação 4 da Universidade de Brasília, explora o tema e enfatiza o carácter artístico dessa linguagem.

A partir de hoje, às 18h30, até o dia 18 de novembro, o público poderá conferir fotos, objetos, desenhos, oficinas, debates e flash days que expressam a arte do desenho através da pele. “A exposição oferece um mural de fotografias, linhas do tempo contando a história da tatuagem, vamos levar máquinas fotográficas e tintas para ilustrar o material do tatuador. O nosso objetivo é começar a ver a tatuagem, não como vandalismo ou preconceito, mas como arte” conta Elisa Coutinho, uma das estudantes responsáveis pela produção.

Estilo

A exposição é resultado de entrevistas e parcerias com tatuadores a fim de possibilitar um espaço de debate acerca das polêmicas de aceitação e dos paradigmas da tatuagem. A mostra ficará aberta de segunda a sexta, das 9h às 19h, na Galeria da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, localizada no Instituto Central Ciências Norte do Campus Darcy Ribeiro na UnB. “A gente também vai expor obras de arte de alunos do Instituto de artes da UnB que conversam com o estilo de tatuagens. Queremos mostrar a tatuagem como arte e o corpo como suporte. Eu espero que dê tudo certo, a galera está muito receptiva ao tema”, acredita Elisa.

Os alunos escolheram os estilos oriental, old school, new school, realismo, aquarela e blackwork para representar a diversidade de características, técnicas e faces artísticas. “Construímos um miniestúdio dentro das salas na Faculdade de Ciência da Informação e fotografamos 200 tatuagens de vários tipos”, conta Maya Moreno, fotógrafa e aluna do curso de museologia.

A abertura contará com a presença de tatuadores convidados e com o sorteio de duas rifas que valem uma tatuagem no valor de 400 reais com a tatuadora Dani Basto e um ensaio fotográfico com a profissional Thais Tibery. “Eu ofereci um ensaio individual com 25 fotos finais e tema livre, além da maquiagem. Acredito muito no potencial da exposição, hoje a gente tem muitos artistas em ascensão estampando a identidade no corpo das pessoas”, comenta Thais. A música do evento ficará sob o comando da DJ Carol Dias.

» Exposição Arte à flor da pele
Abertura hoje, às 18h30, na Galeria da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Campus Darcy Ribeiro, Universidade de Brasília. A exposição ficará aberta até dia 18 de novembro, de segunda
a sexta, das 9h às 19h.

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