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Dicionário Aurélia destaca mulheres que constroem uma sociedade mais justa

Iniciativa de Cecília Silveira, projeto on-line vai ser levado a países que falam língua portuguesa da África

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postado em 09/11/2016 06:01 / atualizado em 09/11/2016 16:14

Rebeca Oliveira /

Mais popular dicionário brasileiro, o Aurélio (que faz menção a um dos maiores lexicógrafos do Brasil, Aurélio Buarque de Holanda, morto em 1989) foi “tomado de empréstimo” e ganhou uma versão diferente há um ano. Foi quando a artista plástica Cecília Silveira criou o Aurélia - dicionário ilustrado de mulheres, um site colaborativo que conta com uma premissa simples: combinar biografia, ilustrações e retratos de grandes mulheres da história. Ao clicar por entre as seções, catalogadas em ordem alfabética como em um dicionário convencional, o leitor se depara com descrições de figuras fundamentais não apenas para o movimento feminista, mas para toda a sociedade.

Angela Davis, professora e filósofa americana, presa nos anos 1970 e ainda hoje um ícone na luta pelos direitos das mulheres e negros está lá. A blogger Jout Jout, conhecida pelos vídeos bem-humorados e com recorte feminista, também. Nome mais lembrado no combate a violência contra a mulher, Maria da Penha é outra figura que ganhou um registro.

“Você não pode ser o que você não pode ver”. A frase da ativista sul-africana Marian-Wright Edelman descreve, como que feita para o projeto, as intenções de Cecília da Silveira com o Aurélia. A artista (mestre em crítica de arte e arquitetura) mora em Portugal desde 2010, onde cursa mestrado em antropologia. Em vez de uma junção de verbetes e significados, como num dicionário clássico, ela prefere ver o Aurélia como um “exercício de afeto”. “As representações sobre as mulheres e os termos de busca que se relacionam ao termo ‘mulher’ eram, naquele espaço, insatisfatórios e/ou pejorativos”, comenta.

 

 

Articulação 

Do ponto de vista social, o site presta uma contribuição no sentido em que articula vozes e pontos de vistas de pessoas na construção de narrativas sobre outras mulheres, acredita a criadora. Isso porque os verbetes são colaborativos, com exceção das ilustrações, todas de Cecília. Em breve, o projeto se tornará um e-book em parceria com uma organização internacional sem fins lucrativos, afim de empoderar mulheres além-mar em países do continente que falam a língua portuguesa. “A biblioteca deles é totalmente gratuita e acessível no mundo todo pelo aplicativo para celulares da organização. Um trabalho maravilhoso. Ter sido convidada e pensar que o Aurélia vai alcançar as pessoas por esta via me dá muita alegria”

Três Perguntas / Cecília Silveira 


O feminismo vive um novo momento com o engajamento virtual. Acha que ele pode ser tão revolucionário quanto as outras fases do movimento? 
Acho que o feminismo é sempre revolucionário. Todo dia alguém está descobrindo o feminismo e começando uma microrevolução na vida. A internet pode ser um espaço de exclusão para as mulheres mas, acredito também, que possa ser uma ferramenta poderosa para o feminismo. O engajamento virtual coloca em contato interesses comuns e pontos de vista extremamente diversos. Isto possibilita que categorias articuladas de análise (como classe, raça e gênero, por exemplo) sofram fricções. Penso que debater questões de interseccionalidade em escala global pode ser revolucionário.

O termo empoderamento, aliás, nunca esteve tão presente em qualquer roda de debates, on ou off line. Que prognóstico faz do futuro, baseado no que passamos até agora? 
Esta é uma pergunta difícil, sabe-se bem que a história e a conquista de direito das mulheres não acontece em progressão linear. Os retrocessos e avanços estão intercalados. Nos dias de hoje, os governantes conservadores estão promovendo um trágico retrocesso no que diz respeito aos direitos das minorias, mas não vai ficar sem resposta. O prognóstico que faço para o futuro é de luta. Quero principalmente acreditar que o empoderamento encoraje as pessoas a lutar não só por direitos individuais, mas por justiça social para todos.

Essa voz amplificada das minorias, em um contexto político e portanto cultural, deve aumentar ou se calar diante das repressões (dados os governos de centro direta que ganharam as eleições, realizadas há pouco)?
Primeiramente, calar-se jamais. Como já disse, penso que as minorias, embora sob forte repressão política, lutarão pela sua voz. Penso que neste momento em que pretendem nos calar com palavras de ordem (e progresso) temos a oportunidade de articular formas de alcançar os nossos reais desejos e necessidades num vocabulário totalmente novo.

 

 

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